quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Hilda Furacão – Roberto Drummond - Resenha


Por Eric Silva

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Muitos anos depois da exibição da minissérie produzida pela Rede Globo de Televisão, retornamos a história original da prostituta mais famosa do país: Hilda Furacão, livro do brasileiro Roberto Drummond.

Misturando ficção e relato autobiográfico, Roberto recria a atmosfera social moralista-conservadora da época e a tensão política que agitava os últimos anos que antecederam o golpe militar de 1964. É com bastante humor que ameniza o teor crítico de sua narrativa, que o autor vai descrevendo uma Belo Horizonte dos sonhos, mas que também era palco de grandes conflitos, contradições e disputas, e que como tal era um reflexo do que ocorria no Brasil das décadas de 1950 e 1960.

Confira a resenha do penúltimo livro da campanha do #AnoDoBrasil, a segunda edição da Campanha Anual de Literatura do Conhecer tudo.

Sinopse

Em uma narrativa que mescla o romance proibido entre um frade e a prostituta mais cobiçada da capital mineira e o cenário político e social conservador que antecedeu o golpe militar de 1964, Hilda Furacão narra a história de três amigos e uma bela prostituta que chamou a atenção de toda a capital mineira. Os amigos são Roberto, um jovem jornalista comunista que se divide entre a causa e os desafios de quem começa no jornalismo; Aramel, um belo rapaz que sonha em tornar-se ator em Hollywood e livrar-se da vida de pobreza que vivia; e Malthus a quem todos chamavam de Santo, porque desde pequeno foi guiado pela mãe e pelo padre de Santana dos Feros a seguir a vida religiosa para alcançar uma pretensa santidade. E ela era Hilda, a Garota do Maiô Dourado, uma moça de família rica que desprezava todos os pedidos milionários de casamento e que por algum motivo desconhecido abandona tudo e muda-se para o quarto 304 do Maravilhoso Hotel, na zona boêmia da cidade para o desassossego de esposas, namoradas e mães de toda Belo Horizonte.

Ana Paula Arósio no papel de Hilda Furacão na minissérie homônima.
Resenha

A primeira vez que ouvi falar de Hilda Furacão nem imaginava que se tratava de um livro. Como a maioria dos brasileiros conheci a história da prostituta mais cobiçada de Minas Gerais através da minissérie produzida pela Rede Globo e exibida no ano de 1998.

Obviamente, ainda no auge dos meus sete anos, pouco me lembro da telenovela que na época era proibida para a minha idade, mas nunca me esqueci de como a beleza e sensualidade de Ana Paula Arósio, intérprete da protagonista, fascinava qualquer garoto, eu entre eles. Embalados pela voz morna de Nana Caymmi cantando Resposta ao Tempo muitos de nós nos apaixonamos pela beleza da personagem e sobretudo de sua intérprete. Quase vinte anos depois, meio sem querer esbarrei com o livro que inspirou a série na biblioteca da filarmônica 30 de Junho e não tive dúvidas, precisava lê-lo.


Aramel, interpretado por Thiago Lacerda na minissérie da Rede Globo.
Livro de Roberto Francis Drummond, Hilda Furacão conta muitas histórias de uma Belo Horizonte que ficou no passado dos últimos anos antes do golpe militar de 1964. Narrado pelo próprio autor, neste livro Roberto conta sua história e a de dois de seus melhores amigos: Aramel (o Belo) que aspirava alcançar a carreira de ator em Hollywood e enquanto não conseguia seu intento trabalhava como Dom Juan de aluguel para um grande magnata belo-horizontino; Malthus (o Santo), que tornou-se frade dominicano para alcançar o sonho de tornar-se santo, e que em seus momentos de dúvidas se consolava com a geleia de jabuticaba feito por sua mãe. O terceiro a compor o trio seria o próprio narrador, jornalista e comunista que na época sonhava em ter sua própria Sierra Maestra. De maneiras diferentes no caminho dos dois últimos estaria Hilda Furacão.

Filha de uma família tradicional e rica, desde a sua adolescência, Hilda era conhecida, em Belo Horizonte, como a Garota do Maiô Dourado, sendo alvo das paixões de vários rapazes. Contudo, no dia 1 de abril de 1959, a moça resolve abandonar tudo, sai de casa e passa a ocupar o quarto 304 do Maravilhoso Hotel, na rua Guaicurus, Zona Boêmia da capital mineira, onde habitavam prostitutas, boêmios e travestis.

Ali, a Garota do Maiô Dourado que antes frequentava a piscina do Minas Tênis Clube torna-se a Hilda Furacão, a mais desejada e disputada prostituta da cidade. Logo sua fama de levar os homens a “subir pelas paredes” ganha toda a cidade, fazendo crescer a fila na porta do quarto 304. Contudo, a real razão da moça ter abandonado tudo para seguir a vida de meretriz continuava um mistério que muitos desejavam desvendar, entre eles Roberto, que recebera a missão de escrever uma matéria sobre ela no jornal onde trabalhava.

O surgimento de Hilda Furacão coincide com uma grande manifestação popular para acabar com os prostíbulos da Zona Boêmia, transferindo os seus habitantes, bares, bordéis e hotéis para uma área periférica, onde seria construída a chamada Cidade das Camélias.

O projeto, que ainda precisava ser votado na câmara, dividia opiniões e pós em confronto, de um lado, os defensores da Zona Boêmia, sobretudo os habitantes do Maravilhoso Hotel – entre eles Hilda, a prostituta Maria Tomba-Homem e o travesti Cintura Fina –, e, de outro, a Sociedade Defensora da Moral e dos Bons-Costumes, liderados pela moralista Loló Ventura.

Frei Malthus interpretado por  Rodrigo Santoro na minissérie da Rede Globo
Na disputa entre defensores e contrários ao projeto da Cidade das Camélias, Frei Malthus entra ao lado do movimento de Loló Ventura prometendo exorcizar Hilda Furacão, contudo o efeito não é o esperado e os destinos dos dois acabam irremediavelmente ligados.

Contudo, ao contrário do que se pode pensar, Hilda Furacão não é o principal foco do livro que leva seu nome. Em lugar disso, o livro mistura realidade e ficção centrando-se na história de seu próprio autor e narrador.

Contando sua história desde Santana dos Ferros quando morrera seu pai, até suas aventuras como jornalista já na cidade de Belo Horizonte, Roberto traz a si mesmo como personagem ativo e envolvido em quase tudo o que acontecia naqueles tempos na capital mineira. Desta forma, todo o livro está povoado por muitas passagens autobiográficas que se confundem com a parte ficcional da história, além de muitos personagens reais que são inseridos na trama ou servem de base para a criação dos mesmos.

Maior exemplo dessa mistura de ficção e realidade é a personagem principal, inspirada na história de juventude da prostituta Hilda Maia Valentim, conhecida na zona boêmia de Belo Horizonte como Hilda Furacão, mas que ao mesmo tempo foi enriquecida com vários elementos ficcionais que a ampliaram e a adequaram à narrativa.

Em sua narrativa Roberto pinta um Hilda forte e determinada, uma mulher que se faz admirável não apenas pela sua beleza e sensualidade, mas igualmente pela força de seu espírito. O que torna um pouco cansativo na história é a insistência do autor em afirmar ser um mistério Hilda ter tornado-se uma prostituta, quando a própria narrativa deixa claras as suas motivações e que se resumiam a pura superstição. Talvez quando você ler também compreenda do que quero falar.

Os demais personagens da narrativa possuem marcas muito próprias, apesar de achar que Aramel podia ter sido melhor desenvolvido e ter tido sua personalidade mais acentuada na narrativa. Porém, o personagem mais vivo e vibrante na história é, sem dúvidas, o próprio Roberto. Conhecemos cada parte de sua personalidade, seus sonhos e anseios são demonstrados com proximidade, bem como seus pensamentos. Nem mesmo Santo, que na minha modesta opinião se mostra um homem fraco e vacilante, ou mesmo Hilda Furacão, são tão bem caracterizados e aprofundados quanto o narrador da história.

Narração e temáticas

Roberto (personagem) interpretado por Danton Mello na minissérie da Rede Globo
Através de sua narração muito pouco preocupada com a linearidade da narrativa, Roberto vai contando o que ocorre com cada personagem da trama, as aventuras amorosas dos amigos, as rusgas e agitações políticas, as articulações comunistas e dos conservadores de direita. Essa falta de linearidade se manifesta quando, na sua narração, ele vai pulando de um fato para outro, de uma lembrança a outra, criando hiatos entre um acontecimento e seus desdobramentos, apenas para criar expectativas. Um jeito muito próprio de contar história, que usa de uma linguagem informal e muito próxima do leitor, enredando-o com o seu bom humor e até mesmo com essa sua falta de objetividade. Assim todas as histórias que conta encontra sua vez e se entremeiam com a sua própria história.

Mais do que uma história romântica de um amor impossível entre um religioso e uma prostituta, Hilda Furacão é um livro que aborda diversas questões que descrevem o cenário social moralista e conservador das elites brasileiras bem como os fortes sentimentos anticomunistas do período que antecedeu ao golpe militar de 1964.

Roberto Drummond (autor), foi jornalista e escritor brasileiro.
Faleceu em Belo Horizonte, no dia 21 de junho de 2002
O fanatismo religioso e a moralidade conservadora tem um lugar de grande destaque na história e são representados sobretudo na disputa entre defensores e contrários ao projeto das cidades das Camélias bem como no episódio do Adão Nu, ocorrido em Santana dos Ferros e que se torna um escândalo na cidade.

No primeiro caso, vemos como as mulheres de famílias tradicionais de Belo Horizonte se empenham para que o projeto fosse aprovado e um processo de segregação socioespacial fosse feito, afastando para o subúrbio a população da área boêmia que atraía maridos e filhos para os bailes e as “mulheres de vida fácil”[1]. Tamanho era o fanatismo misturado com o sentimento de ameaça que as mulheres da zona boemia, e sobretudo Hilda, representavam, que o grupo, liderado pela tradicional e moralista Loló Ventura, viam em Hilda Furacão a própria imagem do mal encarnado na forma de mulher, julgando-a possuída. Ideia essa que contagiou até mesmo Malthus que quase nada sabia da mulher que prometera a Loló Ventura exorcizar.

No segundo caso, o autor descreve a polêmica criada quando a igreja de Santana dos Ferros recebe um painel de uma cena do livro de gêneses na qual adão foi representado completamente nu. Um episódio que consternou a maioria das beatas da cidade e sobretudo uma das tias de Roberto que daquele dia em diante só entrava na igreja de costas para não ver as “vergonhas” do primeiro homem. O autor aborda estas questões com um misto de comédia que suaviza a crítica que ele faz nas entre linhas a uma falsa moralidade que encontrava no campo religioso uma grande vasão.

Militares da Força Pública, atual polícia militar, protegendo
 o Palácio Guanabara, no rio de Janeiro, 
durante o Golpe Militar de 64.
Imagem: Wikimedia Commons.
O outro ponto abordado pelo livro são os sentimentos anticomunistas vigentes na época, quando a elite de direita tradicionalista via nos partidos e grupos de esquerda, bem como na presidência de Jânio Quadros, mas sobretudo no governo de João Goulart, uma ameaça à soberania nacional, ao capitalismo e a democracia liberal.

Comunista e militante, Roberto fala de seus sonhos de resistência, de fazer no Brasil uma revolução socialista, de ter sua própria Serra Maestra[2] e, nesse ínterim, relata as dificuldades de manter em segredo o movimento, de conduzir suas ações e treinamentos e principalmente a moralidade ferrenha existente também dentro do partido, a moralidade socialista tão rigorosa quanto aquela defendida pelos capitalistas da época.

De toda forma o cenário político da época é um dos principais panos de fundo da narrativa que comenta fatos do momento político do país como as reformas de base e a disputa entre direita e esquerda durante os governos de Quadros e Goulart.

O livro termina com a eclosão do movimento golpista empreendido pelos militares e que contava com o apoio dos partidos de direita. Desse modo, o destino dos personagens principais coincidem com o dia seguinte ao golpe que deu início à Ditadura Militar no Brasil, ironicamente concluído em 1º de abril, Dia da mentira. Contudo o desfecho da narrativa não foi exatamente o que eu esperava, marcado por muitos desencontros e deixando um ar de história inconclusa.

O livro e a minissérie: comparações inevitáveis

Abertura da minissérie da globo exibida em 1998 e inspirada no livro de Roberto Drummond. 
Fazer comparações ente a minissérie e o livro foram inevitáveis. E apesar de achar que muito da narrativa foi preservado, foram nítidas as mudanças feitas para adequar um livro de quase 300 páginas ao que se esperava de uma série de 32 capítulos. Criação de novos personagens, aprofundamento de outros que bem pouco apreciam, além de um espaço maior para acontecimentos narrados de forma breve por Drummond, a fim de não estender a narrativas, foram as mudanças mais claras feitas na história original.

Outra mudança está na linearidade. Para não confundir o espectador, sobretudo aqueles que não havia lido o livro que inspirou a série, a Globo preferiu contar a história de Hilda de forma cronológica, quebrando com a total falta de linearidade do original. Assim, o roteiro deixou mais fácil não só a compreensão das discussões políticas acerca dos governos de Juscelino, Quadros e Goulart e, por fim, da eclosão da Ditadura, como também da evolução de seus personagens na trama.

Outro aspecto que notei é que o livro é muito menos focado na história romântica de Hilda e Santo do que a minissérie. Hilda Furacão tem mais traços de livro histórico e político do que de fato de uma história de amor. Em muitos momentos o casal protagonista fica apagado na narrativa enquanto se desenrola as aventuras do jornalista em sua causa socialista e em meio as agitações políticas da época. Mesmo sem apagar o conteúdo político da narrativa, a minissérie procurou dar destaque aquilo que chamaria mais atenção do povão acostumado às novelas globais: um amor proibido dividido entre o desejo e o medo do pecado.

Por fim, o humor característico do narrador é outro elemento que senti falta na minissérie, mas percebi que ele foi conservado nas cenas cômicas que se desenrolava na pequena cidade de Santana dos Ferros.

Em conclusão, Hilda Furacão é um livro muito bem-humorado, que fala dos bastidores de uma época no qual a tensão entre a elite de direita e tradicionalista e os movimentos trabalhistas (de esquerda) se encaminhava para o Golpe de 1964. Trata-se também de uma obra que desnuda, de um lado, os últimos anos de uma era de grande participação política por parte da população, representados por Roberto, e, de outro, os anos de ouro da boemia, representados por Hilda Furacão e pelas pessoas da Rua Guaicurus. Enfim, um livro bom.

A edição lida é da Geração Editorial, do ano de 2008 e possui 295 páginas. Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books.

Prévia do Google Books






[1] Apesar de empregá-lo na resenha considero o termo uma grande inverdade, posto que o próprio livro dá rápidas demonstrações de quantos desafios eram enfrentados todos os dias pelas prostitutas e transexuais da zona boêmia.
[2] O autor faz referência as montanhas de Sierra Maestra, em Cuba, onde o socialista e rebelde Fidel Castro e seus seguidores, na época, contrários ao então ditador Fulgêncio Batista, se esconderam e mantiveram seu quartel-general militar. O lugar é ainda hoje considerado um marco na história da Revolução cubana realizada no ano de 1959.

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