sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Trilha Sonora dos livros A Sombra do Vento e A Catedral do Mar – 2016 #AnoDaEspanha

Por Eric Silva


Fotografia: Eric Silva, 2018

Música e literatura são duas coisas que combinam perfeitamente, assim como cappuccino em dias frios. Ler um bom livro em um ambiente aconchegante e silencioso é uma experiencia muito boa, mas se tivermos uma boa música que sirva de trilha sonora é melhor ainda. Eu mesmo sempre que estou lendo ou escrevendo para o Conhecer Tudo estou ouvindo alguma música do compositor francês Yann Tiersen, do pianista californiano Brain Crain ou do italiano Ludovico Einaudi. Invariavelmente escuto música instrumental para ler porque considero que vozes humanas interferem a leitura. Muitas vezes queremos acompanhar a letra da canção ou paramos a leitura para prestar atenção ao que o cantor(a) está dizendo. Ao contrário, a música instrumental é carregada de sentimento (melancolia, euforia, etc.) e intensidade sem que para senti-la você precise fixar-se nela. Por isso ela se mistura com as palavras de forma mais natural e te mantêm concentrado na leitura.

Particularmente minhas músicas preferidas para a leitura são as nostálgicas Atlantique Nord e La Valse d'Amélie ambas de Yann Tiersen. Também de Tiersen gosto da melancólica Comptine d'un autre été[1] e também da agitada C'était ici[2] que tem uma pegada oriental em meio a um estilo ocidental clássico e parisiense. De Ludovico Einaudi minha predileta é a intensa e oscilante In Un'Altra Vita e, de Brain Crain, a romântica mas forte State of the Heart. Gosto da forma como estas músicas inundam todo o ambiente, se espalham pela casa e se misturam à narrativa ou ao texto que estou lendo. Em pouco tempo uma relação simbiótica entre texto e música se forma e sempre que você pega no livro, ou ouve a música, se lembra do outro.

Acho que pensando nisso que algumas editoras europeias resolveram fazer trilhas sonoras para seus principais best-sellers. Por acaso encontrei a trilha sonora de dois dos melhores livros que lemos na campanha do #AnoDaEspanha e hoje vou apresentá-las a vocês.

A Sombra do Vento

A Sombra do Vento é o primeiro livro da série O Cemitério dos Livros Esquecidos escrito pelo autor Carlos Ruiz Zafón. O livro foi publicado na Espanha em 2001 pela editora Planeta e se tornou um sucesso de vendas em vários países. 

Em a Sombra do Vento Zafón conta as aventuras de Daniel Sempere, um garoto barcelonês filho de um livreiro, que busca com afinco desvendar o passado de Julián Carax, um autor pouco conhecido, mas que desapareceu do mapa deixando para trás um misterioso passado. Mas mais do que uma história sombria Carax vem tendo ao longo de anos todos os seus livros sistematicamente destruídos por um misterioso incendiário [resenha completa].

O livro de Zafón já foi traduzido para 36 idiomas diferentes com mais de dez milhões de exemplares vendidos. Tanto sucesso rendeu ao livro sua própria trilha sonora com 24 composições de autoria do próprio Zafón e em sua maioria para piano. Todas elas estão disponíveis para download ou ouvir online no site oficial do autor [http://www.carlosruizzafon.com/es/la-sombra-del-viento/musica.php], mas encontre as músicas também em uma playlist do Youtube.


Dos 24 tracks achei as mais bonitas La Sombra del Viento, No puedo acordarme de su rostro (que faz referência ao começo do livro quando Daniel conta que em uma noite acordou desesperado por não conseguir lembrar do rosto da mãe) e Memoria De Aparecidos.




A Catedral do Mar

Livro do espanhol Ildefonso Falcones, A Catedral do Mar narra a história de Arnau Estanyol um filho de um camponês da Idade Média que, em busca de liberdade e fugido dos abusos de seu senhor feudal, se refugiara em Barcelona do século XIV na esperança de tornar-se um cidadão livre. Vivendo a sombra da Catedral de Santa Maria del Mar, Arnau conhece a tirania dos nobres, a revolta, a pobreza e a fome, mas de estivador do porto de Barcelona se torna barão [resenha completa].

Publicado em 2006 na Espanha pela editora Grijalbo, o livro de Ildefonso se tornou um sucesso, principalmente na Espanha e já foi publicado em pelo menos 15 idiomas em 40 países com mais de 6 milhões de exemplares vendidos.

O CD do livro de Ildefonso possui um caráter de época com 11 tracks de canções do período da Idade Média, tocadas com instrumentos comuns do período ora no ritmo festivo das danças populares medievais, ora em um ritmo mais introspectivo e até palaciano. O CD completo está disponível para download no site oficial do autor [http://www.ildefonsofalcones.com/banda-sonora/], mas também pode ser ouvida online através da playlist da página. Das canções, minha preferida é Rotta.






[1]“Rima de um outro verão”
[2]“Foi aqui”

sábado, 10 de dezembro de 2016

Cinema: Comentários sobre o filme Volver – 2016 #AnoDaEspanha

Por Eric Silva

O filme desta vez não entrou para o 7ª arte, porque não consigo pensar em Volver como um bom livro, mesmo que ele seja um filme interessante em alguns momentos. Mas de qualquer forma eu queria comentar esse que foi um dos últimos filmes espanhóis que assisti. Volver é uma produção do diretor espanhol Pedro Almodóvar Caballero que entrou em cartaz no ano de 2006 tendo como atriz principal Penélope Cruz.

O meu objetivo inicial era resenhar outro filme de Almodóvar, A Pele que habito, que a julgar pela sinopse parecia bastante interessante e adequado para a proposta do 7ª Arte: falar de filmes que dariam bons livros e filmes que são adaptações de obras literárias. Porém quando assisti a película do cineasta espanhol, o filme me pareceu um tanto perturbador e me senti pouco à vontade para falar dele. Desisti de colocá-lo no 7ª arte, mas não havia desistido de Almodóvar e busquei outro de seus filmes. O filme que encontrei foi Volver. Porém Volver não me parecesse uma obra que daria um bom livro, ainda que seja um filme interessante. Por isso ele também não fará parte do 7ª Arte, contudo farei alguns comentários sobre a película. 

Volver conta a história de um grupo de mulheres cujo passado enterrava sérios dramas familiares. Raimunda (Penélope Cruz) e Sole (Soledade, interpretado por Lola Dueñas) são irmãs e há muito tempo haviam perdido os país em um incêndio que consumiu toda a casa da família. De parentes restavam-nas apenas a filha de Raimunda, Paula (Yohana Cobo), e uma tia já idosa e quase inválida também chamada Paula (Chus Lampreave).

Depois de muito tempo as duas irmãs retornam à casa da tia para visita-la e estranham a organização impecável da casa, tendo em vista que a tia já não possuía a saúde necessária para fazer todo o trabalho sozinha. Ao questionarem à idosa que vinha cuidando da casa tia Paula afirma que era a mãe das sobrinhas, Irene (Carmem Maura), falecida anos antes no incêndio. Devido ao estado de esclerose da tias, Raimunda e Sole ignoram a história absurda e voltam a suas vidas normais, mesmo depois de uma antiga vizinha, Agustina (Blanca Portillo), afirmar que algumas pessoas da vila também alegavam terem visto o fantasma da mãe delas vagando pela casa de tia Paula.

Passado um tempo, Raimunda ao retornar de seu trabalho encontra sua filha vagando pela rua paralisada de medo. Procurando saber o que se passava com Paula, descobre que a menina quase foi violentada pelo próprio pai e que para se defender acabou matando o homem a facadas. Para proteger a filha, Raimunda resolve ocultar o corpo e destruir qualquer vestígio do homicídio afirmando a todos que o marido havia as abandonado. Nesta mesma noite sua irmã lhe dá a notícia do falecimento da tia Paula. Mas apenas Sole vai ao enterro da idosa e na antiga casa da família encontra-se com o espirito da mãe, que a convence a levá-la consigo para casa. Mesmo temerosa em relação aos mortos, Sole aceita e passa a conviver com o fantasma da mãe, escondendo-a de Raimunda apesar do desejo de Irene de pedir perdão à filha mais velha.

Por um bom pedaço do filme a história é monótona e só aos poucos vamos conhecendo os dramas familiares que circundam as mulheres desta família, sobretudo o passado de Raimunda, de sua mãe Irene e da prestativa vizinha Agustina. Confesso que o que me levou a continuar assistindo foi mais a curiosidade de saber o que Raimunda faria para ocultar o corpo do marido, se ela seria descoberta e qual seria o desfecho daquele homicídio. Só na aproximação do desfecho da história com a inserção de Irene na trama é que um outo ponto começou a me intrigar: ela estaria realmente morta? Como um fantasma podia ser tão palpável? Tão real? Ou a intensão do cineasta era nos enganar fazendo-nos pensar uma coisa e depois seria outra? Com mais este elemento continuei prosseguindo no enredo até que o passado de Irene e Raimunda vai sendo gradativamente desenterrado, mas aí já estamos no fim do filme. Ou seja, fui levado por osmose, conduzido pela corrente lenta da narrativa! Contudo não diria que Volver é um filme ruim, ele consegue prender nossa atenção em alguns momentos, consegue ser monótono em outros.

Raimunda é de fato uma mulher decidida e corajosa. É impressionante como passado o primeiro choque da morte do marido, Paco (Antonio de la Torre), ela reúne força e sangue frio para encarar a situação de forma prática e rápida. A verdade é que em raros momentos ela parece sentir a morte de Paco, mas ao mesmo tempo não demonstra guardar rancor ou ódio dele. Um comportamento que estranhei bastante, mas que aos poucos vai ficando claro, principalmente quando descobrimos que Paco não era de fato pai da menina, mas que a tinha assumido quando Raimunda saiu grávida da casa dos pais, e quando, por fim, é revelado quem de fato era o pai de Paula.

Completamente o oposto de sua irmã, Sole é vacilante, temerosa. Tudo nela transparece uma fragilidade que beira a estultícia e a inocência. Não é de perto um personagem cativante, bem como a filha de Raimunda, interpretada por Yohana Cobo, porém achei Paula mais esperta. Raimunda é quem de fato toma conta da cena e de todo o filme.

A trama se passa em parte na cidade Madri e nos dá uma noção de como são os bairros suburbanos da capital, mas também tem como cenário uma das pequenas vilas espanholas. Inclusive, achei interessante alguns elementos dos casarios da vila onde tia Paula vivia. São casarões bem antigos, com paredes azulejadas, com pátios cercados por colunas e que ainda preservam aquelas portas antigas e pesadas que lembram os tempos em que a Espanha ainda colonizavam a América.O filme teve como locação: Almagro e Puertollano, ambas em Ciudad Real, além de Madri e La Mancha. 

Volver também foi o primeiro filme espanhol que vi mostrar como as relações entre os espanhóis são bem próximas e bastante pessoais, sobretudo entre as mulheres, o que difere bastante de outros povos europeus, a exemplo dos ingleses e dos franceses que considero mais distantes e formais em suas relações interpessoais.

Também é um filme que fala da força da mulher em si, daquelas que possuem a coragem para batalhar pela sobrevivência, de suas forças e de suas fraquezas. É também um filme que fala sobre o perdão e que dá espaço a discutir sobre os dramas familiares que só podem ser resolvidos com união e diálogo. O melhor do filme na minha opinião foram as revelações do desfecho, mas duvido que o filme desse um livro muito interessante. 

A película é uma produção dos estúdios da El Deseo com participação do Canal+ España, do Ministério da Cultura Espanhol e da Televisión Española e entrou em cartaz no ano de 2006. Tem duração de 121 minutos. Foi indicado para diversos prêmios: entre eles o Oscar 2007 na categoria de melhor atriz (Penélope Cruz), Globo de Ouro 2007, nas categorias de melhor atriz - drama (Penélope Cruz) e melhor filme estrangeiro e o BAFTA 2007, indicado nas categorias de melhor atriz (Penélope Cruz) e melhor filme estrangeiro.

Abaixo você pode conferir o trailer do filme e da música tema do filme, Volver, em interpretação de Estrella Morente:

Trailer



Clipe da música tema






segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Quem eram os bastaixos do livro A Catedral do Mar? – Postagem Especial

Por Eric Silva

Ao longo da história da humanidade muitas profissões desapareceram e muitas outras mudaram de forma. Mesmo em nossa era o desenvolvimento tecnológico acelerado é responsável por fazer desaparecer profissões tão rápido quanto cria novas áreas de atuação profissional.

Bastaix é uma palavra que não aparece nos dicionários da língua portuguesa, e mesmo na península ibérica, onde teve origem, ela caiu em desuso e quase desapareceu, mas para a Barcelona dos séculos XIII e XV aquela era uma palavra tão corrente quanto a profissão a ela associada era considerada indispensável ao funcionamento do porto barcelonês.
Figura de metal representando um dos muitos bastaixos que contribuíram com a construção da Catedral de Santa Maria del Mar em Barcelona.

Os bastaixos eram, na Barcelona, medieval os descarregadores do porto, responsáveis pelo carregamento e descarregamento das mercadorias dos navios mercantes que chegavam a cidade. Na época eram chamados também de “macips de ribeira” devido a condição escrava que possuíam antes que no século XIV a profissão passasse a ser exercida por homens livres que se agrupavam entorno de uma confraria. A confraria além de organizar o trabalho de seus membros com seus parcos recursos, também se dedicava a reunir esforços para garantir assistência às viúvas dos bastaixos e aqueles que já se encontravam em idade avançada para realizar o trabalho.

No trabalho como estivadores do porto, os bastaixos carregavam nas costas os fardos de mercadorias, tendo apenas como proteção a capçana, uma espécie de almofada que se colocava sobre a cabeça para evitar ferimentos e sustentar melhor o peso e que tinha preso a ela uma correia de couro para atá-la. Além de atravessarem ruas da cidade sustentando nas costas o peso das mercadorias, os mesmos deveriam ter todo o cuidado para não as estragarem, caso acontecesse, eram deles a responsabilidade de arcar com os prejuízos do mercador.

Na época, o trabalho dos bastaixos era muito importante para o comércio marítimo de Barcelona, sobretudo, porque o porto da cidade não possuía um lugar resguardado do mar, o que deixava todas as embarcações a mercê do perigo de naufragarem em caso de temporal as pegassem ancoradas muito próxima à praia. Por isso eram barqueiros os responsáveis por desembarcarem e embarcarem as mercadorias nos navios e aos bastaixos cabia o transporte pelas ruas da cidade até os armazéns. Porém a ambos cabiam agir de forma rápida e eficiente a fim de abreviar o tempo de ancoragem dos navios.

Mas não foi por sua importância como estivadores do porto que os bastaixos ficaram conhecidos na história de Barcelona, mas pela sua importante participação na construção de um dos mais formidáveis momentos da cidade e grande representante do gótico catalão: a Catedral de Santa Maria del Mar.

Fachada da Catedral de Santa Maria del Mar.
Wikimedia Commons.
Nos mais de 50 anos de construção da catedral os bastaixos foram importantes personagens para concretização do projeto dos arquitetos Berenguer de Montagut e Ramón Despuig. Construída em Barcelona entre os anos de 1329 e 1383, a igreja foi edificada, sobretudo, graças à devoção e ao trabalho devotado do povo mais humilde do bairro da Ribeira.

Junto aos trabalhadores do mar e moradores do entorno, os bastaixos foram importantes impulsionadores para a construção da catedral do bairro da Ribeira. Foram eles os responsáveis por carregar (gratuitamente e nas costas!) as pesadas pedras que serviram para a construção do templo. Traziam as pedras da pedreira real de Montjuïc ou de navios aportados na praia e que traziam-nas de outros lugares, e deixavam-nas no campo de obra para serem lavradas.

Graças a esta participação e grande demonstração de devoção que o trabalho como bastaix, mesmo sendo um dos mais humildes da cidade condal, foi imortalizada em diversas figuras de metal que decoram as portas do templo.

A primeira vez que ouvi o termo bastaix foi no livro A Catedral do Mar (Rocco, 2007), do também barcelonês Ildefonso Falcones – este foi o último livro da campanha do #AnoDaEspanha. Em seu romance, Ildefonso conta a história da construção da catedral gótica de Santa Maria del Mar em paralelo a épica trajetória de vida de Arnau Estanyol, que de filho de um camponês fugido do feudo de seus senhores se torna uma importante figura de Barcelona (confira a resenha).

Capa do livro de Ildefonso (Rocco, 2007) 
Em
A Catedral do Mar, Ildefonso dá amplo destaque à caracterização do trabalho dos bastaixos, à sua devoção a padroeira do templo que ajudavam a erigir, as origens humildes de seus trabalhadores e, sobretudo, as rígidas regras que a confraria lhes impunham. Os bastaixos ganham tamanho espaço e importância na narrativa que o próprio personagem principal se torna um dos mais jovens e dedicados bastaix de Barcelona. Arnau admirava a força e a alegria daqueles homens que viviam de forma digna e honesta, e que apesar da dureza de sua tarefa estavam sempre contentes (talvez um pouco fantasioso).

Mas como já deve ter ficado bem claro o trabalho de um bastaix era duro e por demais sacrificante, mas igualmente perigoso. No livro de Ildefonso aprendemos que os bastaixos principiantes deviam pegar o peso de forma controlada e gradativa até que em suas costas se formasse calos onde os fardos carregados atritavam a pele. As chagas produzidas pelo peso secavam e formavam calos, estes, por sua vez, ajudavam no trabalho diminuindo a agressão do peso sobre a pele do trabalhador. Para obter o resultado esperado, ou seja, a formação dos calos, o iniciante deveria limpar os ferimentos e aplicar sobre eles unguentos que ajudavam a cicatrização das feridas e na formação dos calos.

Além disso, os bastaixos estavam submetidos a regras de conduta muito severas. A principal delas era a proibição de relações adulteras. Todo bastaix que cometesse adultério ou convivesse com uma mulher desonesta era condenado a expulsão da confraria, e justamente por isso esta imposição torna-se um fator complicador na trama. Também em decorrência desta regra, os bastaixos não podiam permanecer muito tempo na condição de homens solteiros, devendo contrair matrimônio com uma mulher que fosse honesta e manter-se fiel a ela.

Confesso que fiquei impressionado com os sacrifícios, a humildade e devoção destes homens. Comovido pela união e pela solidariedade existente entre eles e são estes aspectos que Ildefonso busca ressaltar em seu livro e o faz com maestria. Em respeito a esta profissão, a muito tempo esquecida, como um nome quase extinto que achei que os bastaixos mereciam uma postagem especial, ainda mais que na internet só encontrei referências em castelhano, italiano e catalão.
Obrigado pela paciência.

Faça um tour virtual pela catedral dos bastaixos: Santa Maria del Mar




Referências

https://es.wikipedia.org/wiki/Bastaixos
https://es.wikipedia.org/wiki/Bas%C3%ADlica_de_Santa_Mar%C3%ADa_del_Mar

terça-feira, 29 de novembro de 2016

A Catedral do Mar – Ildefonso Falcones – Resenha

Por Eric Silva

“Livre é o estado daquele que tem liberdade. Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”.

(Ilha das Flores – Jorge Furtado)

Sétimo e último livro do nosso itinerário pela literaturaEspanhola, A Catedral do Mar, livro de estreia do barcelonês Ildefonso Falcones, é um romance intenso e uma verdadeira aula de História sobre a Idade Média. Com uma ampla diversidade de temas como a questão religiosa e a injustiça social no período, este é um livro intenso e épico que narra a vida conturbada de Arnau, desde os trágicos acontecimentos de sua concepção até os diversos desafios que a vida e a busca pela sobrevivência lhe impuseram. Um livro sobre fé, intrigas e injustiças, que fala da luta pela liberdade em um mundo marcado pela servidão e exploração dos camponeses que garantiam os privilégios de uma nobreza soberba e cruel.

Sinopse

A Barcelona do século XIV já era uma cidade próspera e orgulhosa para onde se dirigiam todos os anos muitos camponeses fugidos de seus senhores, atraídos pela promessa de liberdade oferecida pela grande cidade condal. Também ali, no bairro da Ribeira, os barceloneses mais humildes, à custa de seus esforços e da contribuição de mercadores e pessoas importantes da cidade, erigiam a imponente Catedral de Santa Maria del Mar, a conclamada igreja do povo. Uma grandiosa construção que seria paralela a intensa e conturbada história de um dos seus mais devotados filhos, Arnau Estanyol, que de estivador chegaria a se tornar barão.

Arnau era filho de um camponês que em busca de liberdade e fugido dos abusos de seu senhor feudal, se refugiara em Barcelona na esperança de tornar-se um cidadão livre. Ainda menino conhece a tirania dos nobres, a revolta, a pobreza e a fome, mas buscando sobreviver às injustiças de sua época torna-se estivador, palafreneiro, soldado e depois cambista. Vive uma vida fatigante, sempre à sombra de Santa Maria do Mar, mas marcada por aventuras que lhe conduziriam a um destino surpreendente e épico.

Resenha

A catedral de Santa Maria del Mar em ilustração de 1851
Quando encontrei este livro, já havia me decidido que encerraria a campanha do #AnoDaEspanha com o livro Marcelino Pão e Vinho, obra do espanhol José María Sánchez Silva. Mas A Catedral do Mar apareceu para mim antes que divulgasse minha decisão. Um romance histórico passado na Barcelona Medieval, a cidade espanhola que por mim é a mais querida, me deixou tentado a inserir mais um livro no itinerário. Depois de A Sombra do Vento, primeiro livro da campanha, este seria o meu retorno literário à Barcelona. Eu tinha vinte dias para ler suas 589 páginas e me dediquei a fazê-lo com afã, por sorte, a qualidade da narrativa fez tudo sozinha e terminei antes do prazo. Hoje lhes apresento aquela que foi uma das melhoras leituras que fiz no ano de 2016.

Bernat Estanyol era um simples camponês, mas que crescera ouvindo de seu pai as histórias de seus corajosos antepassados, que um dia foram livres das obrigações feudais e donos da terra. Porém seu pai, como todos os outros camponeses, nascera preso à terra dos nobres e sujeito a sua violência e exploração, e deixara a Bernat a mesma condição servil e o direito de uso da terra de onde tirava o sustento e o pagamento dos pesados impostos.

Na festa de seu casamento com a jovem Francesca, Bernat é surpreendido pela chegada do senhor das terras onde viviam, Llorenç de Bellera, que tomando parte na festa de seu servo, exige-lhe o direito de deitar-se com a noiva em sua primeira noite. Fruto da violência sofrida por Francesca nasceria Arnau por quem a moça não demonstrava nenhum afeto. Porém as perseguições de Llorenç se intensificam, e para salvar a vida de Arnau, Bernat foge do feudo levando consigo a criança. Acossado pelos homens de Bellera, Bernat vê como único refúgio possível a cidade de Barcelona que na época prometia cidadania e liberdade a todos que nela vivesse por um ano e um dia. Ali também poderia recorrer a única irmã, Guiamona, que vivia com o esposo em Barcelona e poderia abrigá-lo durante o tempo necessário para conseguir a cidadania barcelonesa.

É aí que se inicia a história épica de Arnau, o verdadeiro protagonista da trama, que cresce junto com a cidade, sendo testemunha e vítima das injustiças e atrocidades de uma época conduzida pela lei da tradição, da exploração e dos jogos de interesses, e governada pelo fanatismo, pelo ódio e pela nobreza indiferente a miséria por ela imposta ao restante da população.

Quem ler A Catedral do Mar logo percebe que esse livro é o retrato de uma época, mas que não se limita a falar apenas dela e conduz o seu leitor à reflexão acerca das nuanças da natureza humana por vezes soberba, injusta e mesquinha, mas igualmente capaz de nobreza e hombridade.

Inveja, intriga, soberba, ambição, preconceito e fanatismo, tudo está presente neste romance que transcursa cinco centenas de páginas sem jamais se tornar cansativo ou monótono. Mas o seu tema principal é, sem dúvida, a luta pela liberdade e contra as injustiças que os homens cometem uns contra os outros em nome de valores distorcidos pela conveniência dos interesses.
Em diversas passagens este livro me fez refletir, que não é o destino ou um plano divino que inflige ao homem o sofrimento, mas que é o homem o lobo do homem (homo homini lupus), como afirma a máxima do filósofo inglês Thomas Hobbes. Não são a Inquisição e os direitos feudais consequências da vontade divina ou por ela legitimadas, mas obra unicamente da vontade dos homens, que outorga para si o direito de infligir sofrimento ao outro em prol de seus próprios interesses.

O título do livro se deve a catedral gótica de Santa Maria del Mar, construída em Barcelona entre os anos de 1329 e 1383 a partir do projeto dos arquitetos Berenguer de Montagut e Ramón Despuig. A igreja do povo, como é chamada, levou meio século para ser concluída e foi construída, graças, sobretudo, ao trabalho devotado do povo mais humilde da cidade, sobretudo dos bastaixos, os descarregadores do porto de Barcelona que carregavam nas costas as pesadas pedras que serviram para a construção do templo. Em homenagem aos esforços e devoção destes trabalhadores diferentes insígnias dos bastaixos carregando as pedras da construção foram gravados na porta da catedral e existem até hoje.
Visão interna da Catedral. Wikimedia Commons.


No romance a construção da Catedral e a santa homenageada são importantes vetores na determinação da história dos personagens principais, como se fosse o tempo também um dos personagens da narrativa. Mas a construção de del Mar não é o único tema tratado pela história. Ao longo de suas páginas a obra de Ildelfonso vai perfilando um esboço da Idade Média, das relações servis e do poder da nobreza e da Igreja. Como poucos livros, A Catedral do Mar não segue a trilha das novelas cavaleirescas, que exaltam os feitos da nobreza forjando para época uma imagem que só cabe aos contos de fadas. Ao contrário, o livro de Idelfonso é uma sinopse das leis severas e das pesadas obrigações impostas aos camponeses, bem como aos cidadãos das poucas cidades livres da época, a exemplo de Barcelona, a principal cidade catalã do período. O livro é um esboço da perseguição religiosa aos judeus, da intolerância religiosa dos católicos e da intransigência dos Tribunais do Santo Ofício.

Acho que por ser advogado, o autor tenha dado um foco privilegiado às regras sociais, às leis injustas que privilegiavam a minoria bem-nascida e também as regras comerciárias da época. Porém não o fez como um livro didático que enumera lei e normas, mas as utilizou como pano de fundo para determinar o destino de seus personagens, influenciando suas decisões e os rumos de suas vidas. O episódio do estupro de Francesca é o principal exemplo disso, uma vez que fora legitimado pelo jus primae noctis ou o direito da primeira noite, uma antiga lei medieval que determinava que o senhor feudal tinha direito de desvirginar as noivas dos camponeses em sua primeira noite. Foi este episódio o grande desencadeado de toda a trama: o nascimento de Arnau, as dúvidas sobre sua paternidade, a fuga de Bernat meses depois e o destino humilhante de Francesca.

O trabalho de pesquisa histórica de Idelfonso é também um ponto imprescindível a se destacar. No final da edição, algumas páginas foram dedicadas pelo autor a explicação das suas inspirações para o livro e é ali que descobrimos que A Catedral do Mar é uma grande narrativa que mistura fatos históricos verídicos, pessoas e lugares reais com a capacidade imaginativa de seu autor.

Para compor suas personagens e as tramas por elas vividas, Idelfonso se dedicou por anos a uma apurada pesquisa histórica em documentos do acervo do Ateneu Barcelonês, um importante centro cultural de Barcelona que já foi tema de uma de nossas postagens [link]. O resultado foi uma narrativa de dimensões épicas que a cada capítulo reserva ao leitor uma nova surpresa, alguma nova complicação e outros panoramas da época e da vida de seus contemporâneos.

Mas mais do que um panorama da idade média ou da vida na Barcelona medieval, A Catedral do Mar abriga um séquito de personagens surpreendentes e pulsantes. Pessoas simples do povo, da elite soberba, do alto e do baixo clero, meretrizes, escravos e judeus. Mas de todos os que figuram o elenco da narrativa, o personagem mais cativante é o próprio Arnau.

Ainda criança Arnau já demonstrava sua simplicidade, a retidão de seu caráter e um coração sincero e determinado. É comovente a coragem e a determinação do garoto quando ainda adolescente passa a trabalhar como bastaix do porto, carregando nas costas os pesados fardos que eram descarregados das embarcações ou para elas encaminhados, além das enormes pedras que serviriam à construção da Catedral e que eram carregadas por todos os bastaixos. É como bastaix que Arnau vive alguns de seus anos mais duros, porém felizes.
Gravura de bastaix gravado nas portas da Catedral de Santa Maria do Mar, Barcelona. Foto: Tom B.

O trabalho de um bastaix era difícil e fatigante, mas eram todos eles trabalhadores unidos que aceitavam de bom grado as dores de seu trabalho e orgulhavam-se da catedral que ajudavam a construir. Arnau, que tinha pelos bastaix uma grande admiração e amava a Virgem del Mar como sua própria mãe, foi recebido pelos bastaixos como um irmão, e ao lado deles conseguia sustento para si e para o irmão adotivo, Joan, quando o pai lhes falta. Mas a vida lhe reservaria muitas reviravoltas e novos desafios que o levariam a uma posição muito diferente da qual poderia um dia imaginar. Mas ao contrário de muitos, nem a dureza da vida, nem as injustiças que sofrera e nem aquelas que ainda sofreria, não tornaram Arnau um homem amargo ou frio. Ao contrário, sua personalidade não se dilui, nem sua inclinação à humildade e a justiça. Um personagem admirável sem deixar de ser, no entanto, um humano que erra, que tem suas fraquezas e seus momentos de covardia e hesitação.

Ainda mais surpreendente é como, ao longo de sua vida, Arnau vai se envolvendo nas situações mais complicadas, sobrevivendo à morte do pai, à guerra e à peste até encontrar seu desfecho. Por isso ele me fez lembrar de outro personagem muito famoso da literatura clássica universal: Jean Valjean, o protagonista de Os Miseráveis, livro do francês Victor Hugo. Como Arnau, Jean passa por diversos desafios em sua vida enfrentando a ambição e a injustiça daqueles que se interpõem em seu caminho. Os Miseráveis é também um livro centrado na história de vida de seu personagem principal e ao mesmo tempo é o retrato de uma época. Um livro também fantástico e épico.

Após 10 anos da publicação de A Catedral do Mar na Espanha, em agosto deste ano Idelfonso lançou, pela editora espanhola Grijalbo, o livro Los herederos de la tierra, que dá prosseguimento aos acontecimentos narrados na Barcelona Medieval de Arnau Estanyol. O livro ainda não tem previsão de publicação no Brasil.

Em conclusão, para os que não gostam de história talvez as descrições históricas da narrativa pareçam cansativas, mas para mim que amo história, que sou fascinado pela Idade Média e que tenho um amor platônico por Barcelona, este livro terá para sempre um lugar de honra na estante, junto com A Sombra do Vento e Os Miseráveis.


A edição lida é da Editora Rocco, do ano de 2007 e possui 589 páginas.



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