sábado, 8 de dezembro de 2018

Tsugumi – Banana Yoshimoto – Resenha


Por Eric Silva

 “Ao fitar o céu alaranjado na iminência do anoitecer, senti uma ligeira vontade de chorar.
Isso porque ocorre-me que o amor é um sentimento ilimitado e inesgotável que podemos doar à vontade, como a água canalizada distribuída pela rede de abastecimento do Japão. ”
(Tsugumi – Banana Yoshimoto).


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Nostálgico, intimista e poético Tsugumi (つぐみ), livro da japonesa Banana Yoshimoto (よしもと ばなな) fala de umas férias de verão e de dias singelos. Uma obra sobre uma amizade que supera as adversidades de um humor despótico e da saudade que a distância do lugar ao qual pertencemos pode imputar em nossa alma.

Confira a resenha do nono livro da III Campanha Anual de Literatura que em 2018 homenageia a literatura japonesa.

Sinopse

Deixar a terra natal não está sendo algo fácil para Maria Shirakawa que constantemente relembra o cheiro de maresia da raia onde crescera. Recém-instalada em Tóquio para onde se mudou com a mãe, ela rememora as lembranças da vida na pequena cidade litorânea e das primas Yoko e Tsugumi.

Apesar da bela Tsugumi sofrer de uma doença crônica séria, isso não impede que ela tenha uma personalidade forte, despótica e cruel, exigindo de todos a paciência digna de um santo. Mas por mais difícil que seja conviver com Tsugumi ela e a prima se compreendem e se gostam e, por isso, Maria aceita o convite de Tsugumi para voltar à cidade nas férias de verão, última estada juntas.

Publicado originalmente em 1988, Tsugumi é um livro sobre nostalgia e sobre a percepção que as pessoas possuem acerca da eminência da possibilidade do fim que não se concretiza, da possibilidade da morte e da separação. O livro rendeu à autora o prêmio Yamamoto Shūgorō e foi adaptada para o cinema por Jun Ichikawa, em 1990. No Brasil, só foi lançado em 2015, com tradução direta do japonês, pela Editora Estação Liberdade.

Resenha

Enredo

Narrado em primeira pessoa, Tsugumi (つぐみ) conta a história das últimas férias de verão de Maria na pousada de seus tios, ao lado das primas Yoko e Tsugumi. Uma narrativa bem cotidiana com duas protagonistas centrais: a que dá título ao livro e sua narradora.

Maria nasceu em uma pequena cidade pesqueira, na costa oeste de Izu, interior do Japão, onde viveu grande parte da sua vida sempre ligada ao mar e às primas. Durante muitos anos ela viveu com a mãe na edícula da pousada Yamamoto, propriedade de seus tios.

Seu pai durante muito tempo tentou se separar da primeira esposa sem obter sucesso e, por isso, levou anos até conseguir regularizar sua vida com a mãe de Maria e trazê-las para Tóquio para viverem com ele. Enquanto isso, a mãe de Maria ajudava na cozinha da pousada e suportava a situação em silêncio, mas por conta disso e por viver de favor na edícula, sempre se sentiu um parasita, sentimento que ocultava com bom humor e resignação.

Maria, por sua vez, era uma menina feliz e tinha uma vida alegre junto das primas que viviam na pousada. Apesar de se entristecer com a situação dos pais, ela gostava da cidade onde vivia, se sentia ligada ao mar e às suas amizades, mas sobretudo a Tsugumi, a prima mais nova.

Tsugumi desde a infância foi uma criança doente, de saúde muito delicada e possuía uma rotina de febres e internações que preocupavam a pequena família, no entanto, seu temperamento era dos mais difíceis. “Ríspida, boca suja, egoísta, mimada e ardilosa”, Tsugumi não hesitava em dizer o que pensava, ofender e ser desagradável, mas contraditoriamente todos buscavam ter paciência com ela e agiam de forma resignada. Apenas Maria costumava rebater as crueldades da prima e procurava ser dura com ela quando Tsugumi passava dos limites, mas também a compreendia e admirava, e a amizade entre as duas era mutuamente sincera. É narrando sua história simultaneamente a de Tsugumi, que Maria vai nos apresentando a peculiar figura da prima, seu gênio difícil e as pequenas aventuras irresponsáveis que muito prejudicavam a sua saúde. 

Apesar da alegria de finalmente se mudar para Tóquio com a mãe para viverem com o pai, a saudade do mar permanece no coração de Maria. Ela ganha a oportunidade de reviver aqueles dias quando sua prima a convida para passar as férias de verão na pequena cidade litorânea. A pousada seria vendida e a família de Tsugumi se mudaria para outra cidade onde abririam um novo negócio, por isso aquela seria então a despedida de ambas, a última oportunidade de viverem juntas a praia da infância.

Sobre nostalgia: tema e apreciação crítica

Fotografia da edição produzida por Eric Silva em dezembro de 2018.
Tsugumi é um livro moderno que fala do Japão contemporâneo, mas em sua essência incorpora traços da tradição literária japonesa.

Monotonia e contemplação são as principais marcas dos livros japoneses que já li esse ano, e isso não foi um problema para mim. Percebi isso logo com Beleza e Tristeza de Yasurai Kawabata, mas depois livros como A Fórmula Preferida do Professor, de Yoko Ogawa e Histórias da Outra Margem, de Nagai Kafu reforçaram essa impressão. O mesmo se deu com Botchan, de Natsume Soseki, e agora com Tsugumi, de Banana Yoshimoto. Todos são livros sobre o cotidiano em épocas distintas, mas voltados para falar da realidade cotidiana japonesa, hábitos e pequenos problemas. O que fez com que uma leitura fosse agradável e outra não foi exclusivamente o talento de escrita de seu respectivo autor.

Tsugumi tem uma leitura rápida, poética e com um drama sem tons de fato dramáticos – Tsugumi consegue espantar com seu humor excêntrico qualquer nuvem pesada que possa cair sobre a trama –, mas como não consegui me identificar com os personagens a leitura desse livro não conseguiu me causar nenhum arrebatamento ou vontade de tornar a lê-lo.

Banana Yoshimoto escreve bem e tem uma escrita por vezes profunda, lírica e bonita. A passagem que citei logo no começo dessa resenha é uma das mais belas e metafóricas e me inspirou bastante, contudo é a rotina de Maria, a narrativa repleta de repetitivos passeios, noites estreladas, dias de febre alta de Tsugumi e pores do sol que me causou monotonia.

Por ser é uma ficção realista pintado com tons de nostalgia, a realidade é que Tsugumi é verossímil demais, sem que seus personagens pareçam de fato reais. Todos que cercam Tsugumi são para mim calmos, pacientes e resignados demais com as travessuras da menina. Já aprendi que essa natureza serena e resignada dos japoneses é pura estereotipia. Eles são pessoas de carne e osso, e mais parecidos conosco do que se julga. Diferenças culturais são óbvias, mas há muito de ocidental no Japão moderno e, por isso, me custa acreditar que apenas porque Tsugumi era doente todos seriam assim tão pacientes e resignados diante de suas brincadeiras cruéis, de sua falta de noção e de educação.

Não digo que Tsugumi seja um livro ruim. Ele possui uma qualidade literária muito grande e o que mais gostei foi do seu tom poético, mas foram os personagens que não me cativaram. 

Tsugumi é um livro que dá pleno destaque as suas personagens femininas e cujo protagonismo é dividido entre mais de uma personagem. Tsugumi, Maria e Yoko cumprem o papel de uma tríade de protagonistas, no qual, no entanto, Maria e Tsugumi possuem o maior destaque dentro da narrativa.

Das três Tsugumi tem a personalidade mais forte. Ela é descrita com uma beleza estonteante que contrasta com a debilidade de sua saúde, porém, para se sobrepor a fragilidade de seu corpo, ela age de forma espontânea, impulsiva e até agressiva como se a todo momento exigisse de si mesma a energia para viver e isso se manifestasse na forma de traquinagens e atos impulsivos e irresponsáveis. Yoshimoto desenha uma personagem forte e determinada apesar de grosseira, altiva e mal-educada.

Maria e Yoko, por sua vez, possuem temperamentos mais brandos do que a de Tsugumi. Maria é ativa e forte, poética e determinada, mas também é bem mais responsável e sensata do que a prima. Yoko, por ser a mais velha, é madura e responsável, mas também frágil e chorosa. Na tríade ela é a mais apática e passiva, mas se revela uma boa amiga e uma irmã paciente e preocupada.

Esses três personagens foram muito bem construídos por Yoshimoto, mas os demais (os pais de Maria, a mãe de Yoko e Tsugumi, e, por fim, Kyoichi, o rapaz que se encontra na cidade durante o verão) não são muito convincentes. Mesmo Yoko não me convenceu o bastante. Digo isso por culpa de Tsugumi. Os atos da garota são revoltantes e de uma falta de educação e consideração que ultrapassam os limites do bom senso, mas todos a sua volta se mantêm resignados e aceitam-na como se fosse essa a única possibilidade. Foi essa resignação inverossímil que os fazem aceitar Tsugumi como ela é com pouca ou até sem nenhuma reclamação que os tornou, para mim, distantes da realidade. Excetuando Maria, parece que o pai de Tsugumi é a única exceção, o único a se revoltar – mesmo que silenciosamente –, mas ele é inativo na narrativa e quase não é mencionado.

Sou sincero em dizer que não gostei e nem me senti ligado aos personagens de Yoshimoto e, por consequência, também não me senti ligado ao livro.

Sinto que o propósito da escritora com seu livro é falar de nostalgia e recordações, mas também da possibilidade da morte e como cada um de nós reagimos a ela.

A primeira dessas percepções está ligada ao tom da obra e se confirma no epílogo do livro escrito pela autora. Tsugumi possui um tom nostálgico de uma recordação de um tempo perdido e impossível de ser recuperado. É como o resultado de alguém que mudou de vida deixando para trás a anterior, mas que por um curto período de tempo a resgata e se agarra a esta lembrança.

Maria viveu toda a sua vida naquela cidadezinha pesqueira e se sente ligada ao mar e as pessoas que ali vivem, por isso, ao se mudar para Tóquio ela se sente um tanto deslocada e a falta daquele lugar a acompanha. As férias de verão é uma oportunidade de reencontrar o passado recente, bem como de se despedir dele para aceitar um futuro em diferente que será construído em outro lugar.

Porém, é quando se lê o epílogo do livro que o leitor percebe que o significado dessa nostalgia é bem mais profundo. Yoshimoto inspira-se em sua própria experiência pessoal para escrever e compõe o livro com o objetivo de “registrar o estado de ócio” dos verões que ela costuma passar com a sua própria família numa localidade da costa de Izu e que serve de inspiração a sua trama. Ela resolve escrever uma trama que lembrasse aos seus os momentos em que viveram juntos, e que lhes fosse possível recordar a maresia, os passeios na praia, os banhos de mar.

Mas a outra temática é a possibilidade da morte. Tsugumi tem uma saúde frágil e debilitada, por conta disso o tema da morte lhe é rotineiro e uma sombra que paira sobre sua vida. A todo momento temos a perspectiva de que ela não sobreviverá. Porém, Tsugumi tem um posicionamento em relação a vida surpreendente: ela não se abate, não se faz de vítima, usa até o último fôlego de suas energias, não se sente deprimida e nem parece ter medo do fim, ela o aceita, mas, ao mesmo tempo, luta para viver de forma intensa cada um dos momentos mais banais ou sublimes de sua vida. Ela os vive ao seu modo e gosto, mas os vive sem arrependimentos. Trata-se de uma posição muito positiva em relação a vida e um desejo intenso de vivê-la. Esse aspecto é tão notável dentro da trama que me custa entender porque não me senti ligado a personagem.

Em conclusão: narração e escrita

Fotografia da edição produzida por Eric Silva em dezembro de 2018.
A narração se dá em primeira pessoa e é bastante linear, porém Maria usa de lembranças do passado que nos ajudam a compreender melhor sua vida passada e o temperamento de Tsugumi. Esses poucos e breves flashes se tornam, então, essenciais para a construção dos personagens e o entendimento de como vivem suas vidas. Mas os dois aspectos que mais marcar a narração e por consequência a escrita de Yoshimoto é o lado sensorial da história e a poética de sua escrita.

Apaixonada pelo mar Maria conduz uma narração bastante sensorial na qual os sentidos do olfato, do tato e da visão são constantemente invocados. Yoshimoto escreve cenas cheias de elementos naturais e poéticos e faz com que sensações como o cheiro da maresia sobretudo se torne um elemento desencadeador de lembranças e marcante na vida dos personagens. Do outro lado, ela também escreve a monotonia e tardes mornas cheias de poesia e lirismo, e este que é um livro intimista e sem grandes ápices se torne também muito poético, como nessa passagem à onde ele fala de noites estranhas e de sonhos:

"Às vezes a noite usa dessas pequenas artimanhas. O ar atravessa lentamente escuridão e, num local bem longínquo, encontra alguém com o mesmo estado de espírito formando uma estrela cadente que cai em suas mãos fazendo-o despertar. As duas pessoas sonham o mesmo sonho. Isso tudo ocorre durante a noite é uma sensação única. Na manhã seguinte, o que ocorreu se torna ambíguo e se confunde com a luz. Esse tipo de noite é longa. É eterna e brilhante como uma pedra preciosa."

Por fim, acrescento que o texto é fluido e a leitura muito rápida, sobretudo por conta dos capítulos pequenos (em geral 15 páginas) e por conta de uma escrita bem estruturada e com uma tradução impecável e numa linguagem acessível. Elogio ainda a edição que está belíssima e com notas de rodapé que economizam a pesquisa de termos japoneses que aparecem na trama com relativa frequência.

O desfecho surpreende porque nos dá uma possibilidade de esperança, mas não é um grande final. Yoshimoto prefere seguir o mesmo ritmo de toda a trama e fechar seu livro sem nenhuma grande reviravolta, mas com a expectativa de mudanças que estão por vir na vida de seus personagens.

A edição lida é da Editora Estação Liberdade, do ano de 2015 e possui 184 páginas.

Sobre o autor

Nascida em 24 de julho de 1964, em Tóquio, Banana Yoshimoto (よしもと ばなな) é o pseudônimo de Mahoko Yoshimoto.

Filha do filósofo, poeta e crítico literário Takaaki Yoshimoto, Banana é uma escritora contemporânea japonesa. Formou-se pela faculdade de Artes da Universidade Nihon, especializando-se em Literatura. Durante essa época, tomou para si o pseudônimo "Banana", por causa de seu amor por flores de bananeira.

Seu romance de estreia, Kitchen, foi um sucesso instantâneo no Japão e foi adaptado duas vezes para o cinema. Em novembro de 1987, recebeu o sexto Prêmio Kaien de Novos Escritores e o Prêmio Umitsubame de Primeiro Romance, bem como o décimo sexto Prêmio Literário Izumi Kyoka, em janeiro de 1988.

Alguns críticos dizem que muito de seu trabalho é superficial e comercial, mas seus fãs pensam que Banana Yoshimoto consegue capturar perfeitamente o que significa ser jovem e frustrado no Japão moderno. Os dois principais temas de sua obra, segundo a própria autora, são "a exaustão da juventude no Japão contemporâneo" e "a maneira como experiências terríveis modificam a vida de uma pessoa".

Preview do Issuu

Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Issuu.


Booktrailer





sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

[Enquete] Ajude-nos a escolher o país que será homenageado na quarta edição da Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo.


Olá pessoal,

Como nossos seguidores já sabem, aqui no Conhecer Tudo 2018 foi proclamado o #AnoDoJapão, país que foi escolhido para ser o homenageado da terceira edição da Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo. 

A ideia desta campanha surgiu em 2016, depois da leitura de A Sombra do Vento, livro de Carlos Ruiz Zafón. Foi daí que surgiu com a Campanha do #AnoDaEspanha, na qual buscamos conhecer um pouco da literatura desse país lendo autores como Zafón, Garcia Lorca, Arturo Pérez-Reverte e Rosa Montero, uma experiência interessante que nos fez conhecer um pouco mais deste pais e de seu povo através da literatura.

No final daquele ano, em uma enquete parecida com essa, o Brasil foi escolhido como o ano a ser homenageado em 2017. Em dezembro de 2017, o Japão foi escolhido. E agora é a hora de escolher o país da quarta edição do projeto. 

A campanha de 2018 ainda não acabou e está sendo uma experiência interessante. Contudo, a campanha se encerrará agora no final de dezembro e, em 2019, outro país será homenageado. Por isso, pedimos sua ajuda na escolha de qual será o próximo país, a nossa próxima viagem pela literatura. 

Para a votação forma escolhidos cinco países diferentes:
1. Representando o continente africano, a África do Sul.
2. Representando a Europa, a Itália.
3. Como representante americano, o Chile.
4. Para representar a Oceania, a Nova Zelândia.
5. E por fim, representando o continente asiático, a Coreia do Sul

A enquete de votação foi aberta no Google +, ficará fixa no nosso perfil e compartilharemos várias vezes nas comunidades em que somos membros para que o máximo de pessoas possam votar. Venha e participe e ajude-nos a traçar os nosso próximo itinerário pela literatura de um novo país. 

A votação será até 31 de Dezembro e você pode achar a enquete com o link ao lado: http://bit.ly/2ybv0Fe

Obrigado pela participação!



domingo, 2 de dezembro de 2018

7ª Arte: Koe no Katachi – Resenha


Por Eric Silva

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.

Diga-nos o que achou da resenha nos comentários.

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Sensível e comovente, Koe no Katachi (聲の形, lit. "A Voz do Silêncio") é um longa-metragem de animação japonesa que com uma profunda delicadeza aborda a questões sérias como a surdez, o bullying e o suicídio. Um filme com um enredo universal, mas que fala precisamente da realidade japonesa no que diz respeito ao drama do suicídio.

Sinopse

Shōko Nishimiya (西宮硝子) é uma menina com deficiência auditiva – baixa audição – que sofre bullying de um grupo de colegas ao entrar para uma escola de ensino regular. Atormentada pelo assédio de um dos garotos particularmente mais travesso, Shōya Ishida (石田将也), ela vive um inferno particular ainda que tente com todas as forças fazer o seu melhor e ser amiga de todos.
Ishida não consegue compreender nem aceitar a condição de Nishimiya e começa a assediá-la quebrando seus aparelhos auditivos, dando-lhe sustos, destruindo seu material escolar, até chegar ao ponto de ferir seus ouvidos, o que causa a revolta da família da menina que pouco depois sai da escola.

Em consequência de suas ações, a mãe de Ishida tem um prejuízo financeiro e o rapaz passa a ser hostilizado pelos colegas e desprezado por seus pares, o que o torna tímido e antissocial. Sua dificuldade de se relacionar com as pessoas é tão grande que ele passa a ignorar os sons do seu entorno e não consegue encarar os rostos de seus colegas. Anos depois, farto das atitudes de desprezo dos antigos amigos e dos colegas, Ishida tenta cometer suicídio, mas desiste no último segundo, tomando a atitude de tentar consertar seus erros cometidos no passado e viver uma vida nova.

Resenha

Baseado em um mangá homônimo, Koe no Katachi (2016) é um drama romântico, obra do diretor Naoko Yamada (K-On!) e escrito por Reiko Yoshida (Waka Okami wa Shōgakusei!)[1]. O filme tem uma trama universal pintado com as cores da realidade japonesa, país com elevadíssimo índice de suicídio. A ideia, porém é delicada, romântica, dramática e comovente.

Esta animação está entre meus longas animados favoritos e tenho por ele um carinho de fundo sentimental, por razões muito pessoais. Yamada faz um trabalho excepcional e singelo com uma trama simples, mas com cores complexas e profundas. O filme é sereno como carpas nadando em água cristalina e repleta de luz, mas seu caráter multitemático e a importância de seus temas o faz profundo como um poço.

Os diálogos são inteligentes e, por vezes, profundos. Uma de minhas falas preferidas é do personagem Tomohiro Nagatsuka (永束友宏), primeiro amigo que Ishida faz no novo colégio, após salvá-lo de um valentão. Na cena, Nagatsuka explica a Ishida porque se tornou seu amigo e num tom divertido e brincalhão diz uma das frases mais belas do filme: “amizade está além da lógica e das palavras.

O filme não possui tom de humor, mas uma curva dramática suave e constante que envolve seu expectador e emociona, sobretudo em seu clímax, parte mais dramática, chocante e comovente de todo o filme.

Na parte técnica, Koe no Katachi é um filme que explora sobretudo o uso da câmera e uma paleta de cores bem claras e luminosas que pintam cenários singelos em sua maioria urbanos, mas também do rio local, principal cenário natural da história. Esses elementos juntos com uma trilha sonora que se harmoniza com os humores de cada cena enchem a tela de delicadeza, beleza e simplicidade.

Muita luz e cores claras.
Os cenários de Koe no Katachi não tem a mesma beleza estética de outra animação japonesa que assisti recentemente, Your Name, mas, ainda assim, é um filme belo e bem desenhado, algo bem dentro do padrão de qualidade da maioria dos animes japoneses. A luminosidade das cenas é fantástica entregando um filme claro que condiz com sua delicadeza.

A câmera sempre busca alternar diferentes ângulos produzindo efeitos bonitos e delicados. Longshots, planos de detalhes e contra-plongées são os enquadramentos mais bem explorados, indo do distante passamos para o muito próximo, e por vezes esse próximo capta apenas gestos ou detalhes: uma parte do corpo como mão, pés e braços, um jarro de flores, flores tremulando ao vento, pequenos furtos que caem de uma árvore ou a imagem singela de carpas nadando no rio.

A música de Kensuke Ushio não tem nada de especial, mas sustenta o equilíbrio entre câmera, cenário e cena, indo de alguns ritmos mais rápidos e agitados a outros muito tranquilos, em sua maioria tranquilos.

Porém, são os personagens os pontos mais fortes do filme. Muito diversas suas “atuações” demonstram as mais diferentes facetas dos sentimentos humanos como culpa, gentileza, raiva, preconceito, arrependimento, amor, agressividade, arrogância, perdão e vulnerabilidade. Sem dúvida são personagens bem-feitos, complexos, redondos e críveis, cada qual com sua própria “humanidade” e trazem uma mensagem positiva frente a vida e sobre o valor do arrependimento sincero e do perdão.


Elenco principal
Nishimiya é uma garota gentil e sensível que sinceramente deseja ser amiga de todos e se relacionar bem com seus colegas de sala. Ela é, sem dúvidas, uma protagonista que intriga e encanta o expectador tanto quanto Ishida que se transforma ao longo da trama se tornando mais gentil e preocupado com as pessoas. Ele era travesso e insensível no começo da história, mas se torna alguém triste e reflexivo, mas, ao mesmo tempo, alguém que vem dando tudo de si para se tornar alguém melhor. O romance que parece se desenvolver entre os dois não é foco do filme, o que o torna algo bastante delicado. Mas os dois são responsáveis pelas cenas mais tensas e difíceis da obra.

Os protagonistas podem até parecer monótonos, mas é o conjunto com as personalidades mais ativas dos outros personagens que fazem o filme. Personalidades como da determinada Yuzuru Nishimiya (西宮結絃), irmã mais nova de Shoko; da arrogante de Naoka Ueno (植野直花), colega de Ishida e Shoko quando eram do fundamental; ou a atitude egoísta de outra das colegas da época, Miki Kawai (川井みき) que sempre se fazia de vítima quando, na verdade, por omissão, também tinha parcela de culpa no bullying cometido contra Shoko. O choque entre essas personalidades contrastantes e as mudanças que elas vivem ao longo da trama tornam mais tensa, real e profunda a história.

Multitemático: a surdez, o bullying e a questão do suicídio.

Apesar de seu um drama romântico, o romantismo da trama é bem suave e fica em segundo plano, não se sobressaindo em relação a temas mais pesados como o bullying e o suicídio. Koe no Katachi é um filme multitemático e que perfeitamente enquadrado em seu contexto histórico e local. O tema da surdez é o ponto de apoio da trama cujo título (em português, A voz do silêncio) faz referência.

A surdez é uma condição que ao longo da história foi vista de forma preconceituosa. No passado, os surdos não eram vistos como pessoas. O grande valor que era dado a oralidade fazia com que o olhar da sociedade tirasse dessas pessoas a sua humanidade, puramente pela incapacidade dos mesmos de falar.

Na Idade Média, por exemplo, os surdos não podiam ser herdeiros de sua família e para contornar essa situação algumas famílias abastadas pagavam preceptores que fossem capazes de ensiná-los a falar. A Igreja Católica por muito tempo teve um importante papel nesse processo discriminatório já que sua surdez fugia do padrão de “a imagem e semelhança de Deus”.

Na História, houve períodos em que a linguagem de sinais foi desenvolvida para permitir a comunicação dessas pessoas, e, em outras, ela foi vista como maléfica e por conta disso muito surdos foram obrigados a aprender a falar, a usar a oralidade a partir até mesmo de métodos perversos e completamente ineficientes.

Enfim, ao longo de séculos a surdez foi colocada em uma condição de discriminação e os surdos colocados em uma posição submissa. Hoje muita coisa mudou, mas os surdos ainda não se encontram realmente incluídos na sociedade. Os Estados ainda não vêm preparando a sociedade para socializar normalmente com os surdos e facilitar a comunicação com os mesmos. O preconceito sobrevive e pouco é feito para combatê-lo. Mas esse preconceito, quando se dá nas escolas, dá margem a outro problema da sociedade moderna: o bullying.


Cena de bullying cometido por Ishida contra Shoko.
O bullying é um fenômeno que nasce da incapacidade das pessoas de aceitaram o que é diferente e numa atitude de demonstração de poder cometem atos de violência psicológica e até física contra aqueles que não se encaixam num determinado padrão social. É também uma atitude de tentativa de se sobressair socialmente través de brincadeiras que divertem alguns em detrimento de outros, no caso da vítima.

A condição de surdo é algo que despertou em Ishida essa incapacidade de aceitação. Ele considerava a atitude e as necessidades de Shoko incômodas, achava, ainda mais perturbadoras suas tentativas de socializar e fazer amizades, sempre perdoando ou fingindo não perceber as maldades de seus colegas, as brincadeiras cruéis e as agressões. Ela buscava fazer o seu melhor e integrar-se naquele conjunto como uma igual. Suas atitudes eram positivas, humildes e resignadas, mesmo quando ela tinha tudo para se lamentar ou sentir raiva. A personalidade tão diferente de Shoko desperta o ódio de Ishida, porque ele era incapaz de entendê-la e se demonstrou igualmente incapaz de fazer o mesmo quando foi sua vez de estar do outro lado e ser a vítima do bullying, tentando recorrer ao suicídio.

O suicídio é outra temática muito bem explorada pela trama do filme. O Japão é conhecido por possuir uma elevada taxa de suicídios se comparado a muitos países.

Tentativa de suícidio de Ishida
Segundo uma reportagem da BBC Brasil, de 2015[2], mais de 25 mil pessoas cometeram suicídio no Japão, numa média de 70 por dia, sendo que o suicídio é a principal causa de morte entre os homens japoneses com idades entre 20 e 40 anos.

Como afirma essa reportagem, o principal fator dos suicídios é o isolamento que antecede a depressão e o próprio suicídio. Acredita-se que o suicídio em nome da honra que historicamente foi cometido pelos samurais ("seppuku") e pelos jovens pilotos "kamikazes" da Segunda Grande Guerra seria um dos motivos principais para a elevada frequência com a qual os japoneses tiram a própria vida. Ou seja, eles encaram o suicídio “como uma forma de assumir responsabilidade por alguma coisa". Mas essa não seria a razão tratada pelo filme, e sim o sofrimento pessoal.

A reportagem da BBC esclarece que no caso dos jovens japoneses a perda da esperança e a incapacidade de pedir ajuda são os principais motivos para se matarem. As crises financeiras se demonstraram como fator estimulador, uma vez que a realidade trabalhista e econômica se tornou bastante difícil e desfavorável com "condições precárias de emprego".

No caso de Ishida e Shoko o sofrimento pessoal causado pelo bullying os levaram a uma condição de desespero e inconformidade. Sentir-se socialmente deslocado e isolado fragilizou a vontade de ambos em tentarem se manter vivos. O suicídio se apresenta então como possibilidade real de amenizar o sofrimento pessoal. A própria estrutura social os impelem a isso:

"Esta é uma sociedade muito orientada por regras. Jovens são moldados para se encaixar em nichos existentes. Não há como alguém expressar seus sentimentos verdadeiros. Se são pressionados por seu chefe ou se deprimem, alguns acham que a única saída é morrer."[3]

Esse é o caso dos personagens do filme, que apesar de jovens não se sentem adequados e são incapazes de pedir ajuda, pois a cultura os impelem a resolver sozinhos os seus problemas. Levá-los a outras pessoas significaria ser inconveniente e incômodo.

A reportagem ainda esclarece que “o Japão é famoso por uma condição conhecida como "hikkimori", um tipo de isolamento social grave”, que seria alimentado pela tecnologia que incentiva esse isolamento. Por se tratarem de jovens com “muito conhecimento, mas pouca experiência de vida”, pessoas como Ishida e Shoko “não sabem como expressar suas emoções", as guardam para si e chegam a um extremo de inferno pessoal. Se isso não bastasse, aponta a reportagem, os sistemas de tratamento para os que sofrem de depressão são ruins e a doença mal compreendida, o que inviabiliza um tratamento adequado e eficiente. O sofrimento dessas pessoas chega a uma condição insuportável e a morte se torna algo bem mais atraente.

A mensagem trazida pelo filme é a de que lutemos para dar o melhor de nós mesmos tentando preservar a esperança na vida. Que busquemos ajuda e nos relacionar melhor. Ele ainda busca demonstrar os resultados nefastos do bullying e combatê-lo, trazendo uma mensagem de respeito às diferenças e as deficiências físicas.

Enfim, é um filme delicado e inspirador que joga uma reflexão sobre eventos e questões contemporâneas tanto japonesas como universais, promovendo uma discussão relevante e tecendo uma mensagem positiva que atinge em cheio seus expectadores. Um filme que cumpriu minhas expectativas e que já assisti diversas vezes por ser especial, educativo e louvável seja pela beleza de sua narrativa ou pela importante contribuição social que ele faz.

A película é uma produção dos estúdios Kyoto Animation, e entrou em cartaz no ano de 2016. Tem duração de 130 minutos. Abaixo você pode conferir o trailer do filme:



Trailer








[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Koe_no_Katachi_(filme)
[2] https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/07/150705_japao_suicidio_rb
[3] https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/07/150705_japao_suicidio_rb

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