sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

[Enquete] Ajude-nos a escolher o país que será homenageado na quarta edição da Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo.


Olá pessoal,

Como nossos seguidores já sabem, aqui no Conhecer Tudo 2018 foi proclamado o #AnoDoJapão, país que foi escolhido para ser o homenageado da terceira edição da Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo. 

A ideia desta campanha surgiu em 2016, depois da leitura de A Sombra do Vento, livro de Carlos Ruiz Zafón. Foi daí que surgiu com a Campanha do #AnoDaEspanha, na qual buscamos conhecer um pouco da literatura desse país lendo autores como Zafón, Garcia Lorca, Arturo Pérez-Reverte e Rosa Montero, uma experiência interessante que nos fez conhecer um pouco mais deste pais e de seu povo através da literatura.

No final daquele ano, em uma enquete parecida com essa, o Brasil foi escolhido como o ano a ser homenageado em 2017. Em dezembro de 2017, o Japão foi escolhido. E agora é a hora de escolher o país da quarta edição do projeto. 

A campanha de 2018 ainda não acabou e está sendo uma experiência interessante. Contudo, a campanha se encerrará agora no final de dezembro e, em 2019, outro país será homenageado. Por isso, pedimos sua ajuda na escolha de qual será o próximo país, a nossa próxima viagem pela literatura. 

Para a votação forma escolhidos cinco países diferentes:
1. Representando o continente africano, a África do Sul.
2. Representando a Europa, a Itália.
3. Como representante americano, o Chile.
4. Para representar a Oceania, a Nova Zelândia.
5. E por fim, representando o continente asiático, a Coreia do Sul

A enquete de votação foi aberta no Google +, ficará fixa no nosso perfil e compartilharemos várias vezes nas comunidades em que somos membros para que o máximo de pessoas possam votar. Venha e participe e ajude-nos a traçar os nosso próximo itinerário pela literatura de um novo país. 

A votação será até 31 de Dezembro e você pode achar a enquete com o link ao lado: http://bit.ly/2ybv0Fe

Obrigado pela participação!



domingo, 2 de dezembro de 2018

7ª Arte: Koe no Katachi – Resenha


Por Eric Silva

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.

Diga-nos o que achou da resenha nos comentários.

Está sem tempo para ler? Ouça a nossa resenha, basta clicar no play.


Sensível e comovente, Koe no Katachi (聲の形, lit. "A Voz do Silêncio") é um longa-metragem de animação japonesa que com uma profunda delicadeza aborda a questões sérias como a surdez, o bullying e o suicídio. Um filme com um enredo universal, mas que fala precisamente da realidade japonesa no que diz respeito ao drama do suicídio.

Sinopse

Shōko Nishimiya (西宮硝子) é uma menina com deficiência auditiva – baixa audição – que sofre bullying de um grupo de colegas ao entrar para uma escola de ensino regular. Atormentada pelo assédio de um dos garotos particularmente mais travesso, Shōya Ishida (石田将也), ela vive um inferno particular ainda que tente com todas as forças fazer o seu melhor e ser amiga de todos.
Ishida não consegue compreender nem aceitar a condição de Nishimiya e começa a assediá-la quebrando seus aparelhos auditivos, dando-lhe sustos, destruindo seu material escolar, até chegar ao ponto de ferir seus ouvidos, o que causa a revolta da família da menina que pouco depois sai da escola.

Em consequência de suas ações, a mãe de Ishida tem um prejuízo financeiro e o rapaz passa a ser hostilizado pelos colegas e desprezado por seus pares, o que o torna tímido e antissocial. Sua dificuldade de se relacionar com as pessoas é tão grande que ele passa a ignorar os sons do seu entorno e não consegue encarar os rostos de seus colegas. Anos depois, farto das atitudes de desprezo dos antigos amigos e dos colegas, Ishida tenta cometer suicídio, mas desiste no último segundo, tomando a atitude de tentar consertar seus erros cometidos no passado e viver uma vida nova.

Resenha

Baseado em um mangá homônimo, Koe no Katachi (2016) é um drama romântico, obra do diretor Naoko Yamada (K-On!) e escrito por Reiko Yoshida (Waka Okami wa Shōgakusei!)[1]. O filme tem uma trama universal pintado com as cores da realidade japonesa, país com elevadíssimo índice de suicídio. A ideia, porém é delicada, romântica, dramática e comovente.

Esta animação está entre meus longas animados favoritos e tenho por ele um carinho de fundo sentimental, por razões muito pessoais. Yamada faz um trabalho excepcional e singelo com uma trama simples, mas com cores complexas e profundas. O filme é sereno como carpas nadando em água cristalina e repleta de luz, mas seu caráter multitemático e a importância de seus temas o faz profundo como um poço.

Os diálogos são inteligentes e, por vezes, profundos. Uma de minhas falas preferidas é do personagem Tomohiro Nagatsuka (永束友宏), primeiro amigo que Ishida faz no novo colégio, após salvá-lo de um valentão. Na cena, Nagatsuka explica a Ishida porque se tornou seu amigo e num tom divertido e brincalhão diz uma das frases mais belas do filme: “amizade está além da lógica e das palavras.

O filme não possui tom de humor, mas uma curva dramática suave e constante que envolve seu expectador e emociona, sobretudo em seu clímax, parte mais dramática, chocante e comovente de todo o filme.

Na parte técnica, Koe no Katachi é um filme que explora sobretudo o uso da câmera e uma paleta de cores bem claras e luminosas que pintam cenários singelos em sua maioria urbanos, mas também do rio local, principal cenário natural da história. Esses elementos juntos com uma trilha sonora que se harmoniza com os humores de cada cena enchem a tela de delicadeza, beleza e simplicidade.

Muita luz e cores claras.
Os cenários de Koe no Katachi não tem a mesma beleza estética de outra animação japonesa que assisti recentemente, Your Name, mas, ainda assim, é um filme belo e bem desenhado, algo bem dentro do padrão de qualidade da maioria dos animes japoneses. A luminosidade das cenas é fantástica entregando um filme claro que condiz com sua delicadeza.

A câmera sempre busca alternar diferentes ângulos produzindo efeitos bonitos e delicados. Longshots, planos de detalhes e contra-plongées são os enquadramentos mais bem explorados, indo do distante passamos para o muito próximo, e por vezes esse próximo capta apenas gestos ou detalhes: uma parte do corpo como mão, pés e braços, um jarro de flores, flores tremulando ao vento, pequenos furtos que caem de uma árvore ou a imagem singela de carpas nadando no rio.

A música de Kensuke Ushio não tem nada de especial, mas sustenta o equilíbrio entre câmera, cenário e cena, indo de alguns ritmos mais rápidos e agitados a outros muito tranquilos, em sua maioria tranquilos.

Porém, são os personagens os pontos mais fortes do filme. Muito diversas suas “atuações” demonstram as mais diferentes facetas dos sentimentos humanos como culpa, gentileza, raiva, preconceito, arrependimento, amor, agressividade, arrogância, perdão e vulnerabilidade. Sem dúvida são personagens bem-feitos, complexos, redondos e críveis, cada qual com sua própria “humanidade” e trazem uma mensagem positiva frente a vida e sobre o valor do arrependimento sincero e do perdão.


Elenco principal
Nishimiya é uma garota gentil e sensível que sinceramente deseja ser amiga de todos e se relacionar bem com seus colegas de sala. Ela é, sem dúvidas, uma protagonista que intriga e encanta o expectador tanto quanto Ishida que se transforma ao longo da trama se tornando mais gentil e preocupado com as pessoas. Ele era travesso e insensível no começo da história, mas se torna alguém triste e reflexivo, mas, ao mesmo tempo, alguém que vem dando tudo de si para se tornar alguém melhor. O romance que parece se desenvolver entre os dois não é foco do filme, o que o torna algo bastante delicado. Mas os dois são responsáveis pelas cenas mais tensas e difíceis da obra.

Os protagonistas podem até parecer monótonos, mas é o conjunto com as personalidades mais ativas dos outros personagens que fazem o filme. Personalidades como da determinada Yuzuru Nishimiya (西宮結絃), irmã mais nova de Shoko; da arrogante de Naoka Ueno (植野直花), colega de Ishida e Shoko quando eram do fundamental; ou a atitude egoísta de outra das colegas da época, Miki Kawai (川井みき) que sempre se fazia de vítima quando, na verdade, por omissão, também tinha parcela de culpa no bullying cometido contra Shoko. O choque entre essas personalidades contrastantes e as mudanças que elas vivem ao longo da trama tornam mais tensa, real e profunda a história.

Multitemático: a surdez, o bullying e a questão do suicídio.

Apesar de seu um drama romântico, o romantismo da trama é bem suave e fica em segundo plano, não se sobressaindo em relação a temas mais pesados como o bullying e o suicídio. Koe no Katachi é um filme multitemático e que perfeitamente enquadrado em seu contexto histórico e local. O tema da surdez é o ponto de apoio da trama cujo título (em português, A voz do silêncio) faz referência.

A surdez é uma condição que ao longo da história foi vista de forma preconceituosa. No passado, os surdos não eram vistos como pessoas. O grande valor que era dado a oralidade fazia com que o olhar da sociedade tirasse dessas pessoas a sua humanidade, puramente pela incapacidade dos mesmos de falar.

Na Idade Média, por exemplo, os surdos não podiam ser herdeiros de sua família e para contornar essa situação algumas famílias abastadas pagavam preceptores que fossem capazes de ensiná-los a falar. A Igreja Católica por muito tempo teve um importante papel nesse processo discriminatório já que sua surdez fugia do padrão de “a imagem e semelhança de Deus”.

Na História, houve períodos em que a linguagem de sinais foi desenvolvida para permitir a comunicação dessas pessoas, e, em outras, ela foi vista como maléfica e por conta disso muito surdos foram obrigados a aprender a falar, a usar a oralidade a partir até mesmo de métodos perversos e completamente ineficientes.

Enfim, ao longo de séculos a surdez foi colocada em uma condição de discriminação e os surdos colocados em uma posição submissa. Hoje muita coisa mudou, mas os surdos ainda não se encontram realmente incluídos na sociedade. Os Estados ainda não vêm preparando a sociedade para socializar normalmente com os surdos e facilitar a comunicação com os mesmos. O preconceito sobrevive e pouco é feito para combatê-lo. Mas esse preconceito, quando se dá nas escolas, dá margem a outro problema da sociedade moderna: o bullying.


Cena de bullying cometido por Ishida contra Shoko.
O bullying é um fenômeno que nasce da incapacidade das pessoas de aceitaram o que é diferente e numa atitude de demonstração de poder cometem atos de violência psicológica e até física contra aqueles que não se encaixam num determinado padrão social. É também uma atitude de tentativa de se sobressair socialmente través de brincadeiras que divertem alguns em detrimento de outros, no caso da vítima.

A condição de surdo é algo que despertou em Ishida essa incapacidade de aceitação. Ele considerava a atitude e as necessidades de Shoko incômodas, achava, ainda mais perturbadoras suas tentativas de socializar e fazer amizades, sempre perdoando ou fingindo não perceber as maldades de seus colegas, as brincadeiras cruéis e as agressões. Ela buscava fazer o seu melhor e integrar-se naquele conjunto como uma igual. Suas atitudes eram positivas, humildes e resignadas, mesmo quando ela tinha tudo para se lamentar ou sentir raiva. A personalidade tão diferente de Shoko desperta o ódio de Ishida, porque ele era incapaz de entendê-la e se demonstrou igualmente incapaz de fazer o mesmo quando foi sua vez de estar do outro lado e ser a vítima do bullying, tentando recorrer ao suicídio.

O suicídio é outra temática muito bem explorada pela trama do filme. O Japão é conhecido por possuir uma elevada taxa de suicídios se comparado a muitos países.

Tentativa de suícidio de Ishida
Segundo uma reportagem da BBC Brasil, de 2015[2], mais de 25 mil pessoas cometeram suicídio no Japão, numa média de 70 por dia, sendo que o suicídio é a principal causa de morte entre os homens japoneses com idades entre 20 e 40 anos.

Como afirma essa reportagem, o principal fator dos suicídios é o isolamento que antecede a depressão e o próprio suicídio. Acredita-se que o suicídio em nome da honra que historicamente foi cometido pelos samurais ("seppuku") e pelos jovens pilotos "kamikazes" da Segunda Grande Guerra seria um dos motivos principais para a elevada frequência com a qual os japoneses tiram a própria vida. Ou seja, eles encaram o suicídio “como uma forma de assumir responsabilidade por alguma coisa". Mas essa não seria a razão tratada pelo filme, e sim o sofrimento pessoal.

A reportagem da BBC esclarece que no caso dos jovens japoneses a perda da esperança e a incapacidade de pedir ajuda são os principais motivos para se matarem. As crises financeiras se demonstraram como fator estimulador, uma vez que a realidade trabalhista e econômica se tornou bastante difícil e desfavorável com "condições precárias de emprego".

No caso de Ishida e Shoko o sofrimento pessoal causado pelo bullying os levaram a uma condição de desespero e inconformidade. Sentir-se socialmente deslocado e isolado fragilizou a vontade de ambos em tentarem se manter vivos. O suicídio se apresenta então como possibilidade real de amenizar o sofrimento pessoal. A própria estrutura social os impelem a isso:

"Esta é uma sociedade muito orientada por regras. Jovens são moldados para se encaixar em nichos existentes. Não há como alguém expressar seus sentimentos verdadeiros. Se são pressionados por seu chefe ou se deprimem, alguns acham que a única saída é morrer."[3]

Esse é o caso dos personagens do filme, que apesar de jovens não se sentem adequados e são incapazes de pedir ajuda, pois a cultura os impelem a resolver sozinhos os seus problemas. Levá-los a outras pessoas significaria ser inconveniente e incômodo.

A reportagem ainda esclarece que “o Japão é famoso por uma condição conhecida como "hikkimori", um tipo de isolamento social grave”, que seria alimentado pela tecnologia que incentiva esse isolamento. Por se tratarem de jovens com “muito conhecimento, mas pouca experiência de vida”, pessoas como Ishida e Shoko “não sabem como expressar suas emoções", as guardam para si e chegam a um extremo de inferno pessoal. Se isso não bastasse, aponta a reportagem, os sistemas de tratamento para os que sofrem de depressão são ruins e a doença mal compreendida, o que inviabiliza um tratamento adequado e eficiente. O sofrimento dessas pessoas chega a uma condição insuportável e a morte se torna algo bem mais atraente.

A mensagem trazida pelo filme é a de que lutemos para dar o melhor de nós mesmos tentando preservar a esperança na vida. Que busquemos ajuda e nos relacionar melhor. Ele ainda busca demonstrar os resultados nefastos do bullying e combatê-lo, trazendo uma mensagem de respeito às diferenças e as deficiências físicas.

Enfim, é um filme delicado e inspirador que joga uma reflexão sobre eventos e questões contemporâneas tanto japonesas como universais, promovendo uma discussão relevante e tecendo uma mensagem positiva que atinge em cheio seus expectadores. Um filme que cumpriu minhas expectativas e que já assisti diversas vezes por ser especial, educativo e louvável seja pela beleza de sua narrativa ou pela importante contribuição social que ele faz.

A película é uma produção dos estúdios Kyoto Animation, e entrou em cartaz no ano de 2016. Tem duração de 130 minutos. Abaixo você pode conferir o trailer do filme:



Trailer








[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Koe_no_Katachi_(filme)
[2] https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/07/150705_japao_suicidio_rb
[3] https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/07/150705_japao_suicidio_rb

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Botchan – Natsume Soseki – Resenha


Por Eric Silva

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.

Diga-nos o que achou da resenha nos comentários.

Está sem tempo para ler? Ouça a nossa resenha, basta clicar no play.


Um humorado clássico japonês que retrata de forma irônica a relação entre cidade grande e pequena, Botchan é o segundo livro publicado por Natsume Soseki, um dos mais importantes nomes da literatura japonês. Frequentemente comparado pela crítica com O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger, esse bildungsroman[1] de grande sucesso em seu país acompanha a trajetória de vida e as aventuras de um impulsivo professor recém-formado que saí de Tóquio para ensinar numa escola do ginásio de uma pequena cidade litorânea da ilha de Shikoku. Um romance que fala de forma bem-humorada sobre a complexidade das relações humanas.

Confira a resenha do oitavo livro da III Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo, que em 2018 homenageia a literatura japonesa.

Sinopse

Em um livro com estilo bem-humorado e que satiriza a condição humana Botchan, segundo livro publicado pelo japonês de Natsume Soseki aborda o tema das diferenças: o choque cultural que opõe a cidade grande e o interior. Botchan é um professor de matemática inexperiente que nasceu e viveu toda a sua vida em Tóquio, mas que aceita partir para uma pequena cidade do interior do Japão, na ilha de Shikoku, para lecionar, contudo, habilidade social não é seu forte, cuja personalidade ríspida e a falta de paciência lhe geram sérios problemas na nova cidade. Por consequência, ele acaba por se tornar alvo das brincadeiras e das maldades dos colegas e dos alunos da província.

Resenha

Lançado apenas um ano depois da publicação de seu primeiro grande sucesso, o livro Eu Sou Um Gato, Botchan é um clássico famoso e muito apreciado no Japão. Com um narrador único e uma história descontraída e carregada de humor, esse é um livro que, apesar de um tema sobre o cotidiano e ter sido escrito a pouco mais de um século, agrada bastante e até mesmo diverte o leitor acostumado ou conhecedor da cultura japonesa.

Concordo com Vilto Reis[2] quando este afirma que para entender o livro de Soseki é “precisamos ter certa noção cultural”. O livro faz referência ao modelo de educação japonesa, à sua etiqueta, às tradições culinárias e aos banhos públicos, além de citar as gueixas, os haikus (haicais), o ikebana, as artes figurativas e as danças tradicionais. Se não bastasse Botchan é um personagem atrevido e deslinguado que diz e age conforme suas convicções, por mais extremas que elas pareçam, e não se limitando a isso desdenha da cultura tradicional japonesa mostrando o quão ocidentalizados são os seus gostos. 

Comparado por muitos críticos com O Apanhador do Campo de Centeio, de J.D. Salinger, Botchan é um livro com um narrador marcante, de língua afiada, convicto de seus ideais e que mesmo sem entendê-lo por completo nos guia pelo universo tumultuoso das relações interpessoais e sociais.

Botchan: o enredo de um bildungsroman

Fotografia: Eric Silva, 2018.
Escrito por Nastume Soseki, no ano de 1906, Botchan é um bildungsroman, termo alemão dado aos romances de aprendizagem ou de formação, e é também um romance clássico contemporâneo da literatura japonesa. Como é comum aos romances de formação, Botchan é uma obra que transpassa todo o processo de desenvolvimento moral, psicológico e social de seu protagonista desde a infância até a idade adulta quando ele se torna professor de matemática em uma escola do interior do Japão.

Em Botchan, temos a história de um narrador que se identifica apenas por seu apelido de infância (o mesmo do título) e que narra sua própria história de vida começando pela infância vivida à sombra do irmão mais velho.

Botchan, como lhe chama a empregada da família, era um menino que por sua impulsividade se metia a fazer muitas travessuras pelas quais acabava sempre metido em confusões e brigas. Por elas também recebia reclamações dos vizinhos do bairro localizado em algum lugar da capital imperial japonesa, Tóquio. 

Por suas muitas traquinagens – as quais ele nunca negou ou fingiu inocência – Botchan sofria também com o desprezo do pai que, assim como a mãe, tinha suas atenções dirigidas para o mais velho e era particularmente mais severo com Botchan, dizendo que ele “nunca seria nada na vida”. Em casa, o garoto só possuía o apoio da empregada, Kiyo, que lhe emprestava dinheiro, dava-lhe presentes e pedia para que quando fosse adulto e tivesse sua própria casa, a contratasse como sua empregada. Bastante insociável, Botchan não entendia com qual propósito Kiyo lhe estimava e de certa forma se sentia desconfortável com seus carinhos e atenção mesmo sendo eles inocentes.

Após a morte da mãe, e alguns anos depois também do pai, o irmão mais velho herda os bens e a casa, e dá ao mais novo, agora um jovem adulto, uma certa quantia de dinheiro para que montasse um negócio ou investisse em seus estudos. Botchan aceita a quantia e se separa do irmão e Kiyo que o faz prometer que quando tivesse casa própria a mandaria buscar para trabalhar para ele.

O rapaz então se hospeda em uma pensão e por impulso investe o dinheiro em um curso de física, pelo qual, depois de formado, é convidado a trabalhar como professor de matemática em uma pequena cidade no litoral da ilha de Shikoku. Novamente por rompante ele aceita a proposta de trabalho e muda-se de Tóquio para a cidade provinciana, experimentando pela primeira vez um pouco da vida no interior, mas nada sai como ele imaginava. É hostilizado pelos alunos que estranham seu sotaque e fazem brincadeiras mordazes sobre seu apetite voraz. Se não bastasse, passa a viver em atrito com alguns professores por quem alterna confiança, admiração e aversão.

Tantas são as confusões, desencontros e equívocos na qual Botchan se envolve que o personagem vai se tornando divertido e até certo ponto jocoso ao longo do progresso da história.

Jovem Mestre: o narrador personagem e a oposição cidade grande X cidade pequena

Narrado em primeira pessoa pelo olhar de seu protagonista, Botchan é daqueles livros que possui um personagem que beira ao caricato, mas que ainda assim consegue ser marcante. Ele é um rapaz de cidade grande desbocado, corajoso e brigão, de personalidade impulsiva e teimosa, mas extremamente honesto, moral e ético. Uma de suas tiradas mais cômicas é quando revoltado com alguns alunos que não assumiram sua culpa em uma traquinagem cometida contra ele, afirma que na infância ele nunca negou nenhuma de suas travessuras e sempre as sustentou com honra e dignidade, pronto para qualquer castigo que lhe viesse por conta da ação feita.

Mas Botchan é também alguém extremamente ingênuo e influenciável por ser muito pouco sociável. Sem moderações ele possui seus rompantes e toma decisões de forma quase sempre impulsiva no calor de suas emoções, mas facilmente é levado a desistir de suas decisões, mesmo que temporariamente, quando vencido pelas argumentações. Por esse seu gênio que Kiyo o apelidou de botchan, que tudo indica significa jovem mestre, mas pode fazer referência também alguém puro e sincero.

“Quando por vezes veem alguém sincero e puro, eles o criticam e humilham, chamando-o de garotinho mimado ou Botchan”.

Apesar da crítica, mesmo ele dá apelidos a seus companheiros de trabalho tomando por referência certas manias e caraterísticas físicas dos mesmos como Porco-Espinho, Camisa Vermelha, Texugo e Fanfarrão.  

Em geral, não gosto de personagens planas, aquelas construídas em redor de uma qualidade ou de um defeito único, e isso, à primeira vista, me faria odiar esse livro e seu narrador porque Botchan é quase todo marcado pela sua integridade firme e impulsividade. Mas ele também não é exatamente plano, nem exatamente redondo ou evolutivo. Percebi que ele, assim como a maioria dos profissionais atuantes na escola funcionam como uma sátira aos intelectuais japoneses da época. Além disso, algumas mudanças operam no íntimo de Botchan ao longo da narrativa como efeito das experiências experimentadas por ele, que como efeito o mudam um pouco, mas não tão profundamente. Entretanto o que me encantou e me fez gostar do livro de Soseki, também no geral, foi o seu humor discreto e um narrador ácido e convicto de suas ideias transloucadas e de sua moral tão rígidas quanto a vareta de um bambu.

Como vimos, na infância, Botchan foi desprezado pelos pais e muitos destes traços que marcam o personagem do livro se deve a isso. Mas o curioso, como aponta Cadão Volpato[3], é que a biografia de Soseki se aproxima com esta parte da história de Botchan. Assim como seu protagonista Soseki, assinala Volpato, teve uma infância solitária, passou muitos anos vivendo com outra família, perdeu cedo a mãe, e foi rejeitado pelo pai.

Contudo, o principal tema que emerge de Botchan é a clássica oposição que se faz em relação a pequena e a grande cidade. Carregada de preconceitos essa oposição tenta ressaltar uma pretensa superioridade da grande cidade sobre a pequena que não se limitaria ao nível econômico e técnico, mas também cultural e social. Botchan é a caricatura do homem metropolitano que olha com arrogância e altanaria a “pequenez” que torna a cidade pequena, aos seus olhos, inferior e atrasada.

Botchan tem gostos cosmopolitas e por isso olha para a pequena cidade com um olhar crítico e ácido que não perdoa nenhum aspecto. Ele critica sua pequenez, os hábitos de seus moradores, sua falta de atrativos tanto turísticos como estéticos, o nível de seus restaurantes, a qualidade das pensões e o atendimento despendido por elas. Nada ali naquela cidade – que ele nem se dá o trabalho de dar nome – o satisfaz, mesmo a escola, os alunos, o diretor, a metodologia de trabalho, os colegas de profissão, nada o satisfaz ou o alegra. A tudo ele olha por um prisma arrogante e pretensioso, e tende a achar-se superior a tudo e a todos da pequena povoação, reprovando os gostos e costumes.

No entanto, a medida que a história se desenvolve percebemos que aquela altivez de citadino de uma grande metrópole, esconde, na verdade, suas enormes fraquezas e inabilidades.  Apesar de se portar como superior, gradativamente, sua falta de traquejo social e personalidade rústica e simplória vai se tornando evidente. À proporção que a narrativa se desenvolve o leitor nota que as pessoas que ele inicialmente despreza eram mais argutos e astutos do que ele e, mesmo quando eram igualmente rústicos, eram por outra via bem menos influenciáveis.

Além disso, como professor Botchan se revela um inábil. Ele não sabe lidar com os alunos e suas brincadeiras. Sua grande dificuldade de conviver socialmente não lhe permite saber de qual maneira neutralizar as travessuras e maldades dos estudantes e impor respeito às turmas que não o reconhecem e não o respeitam. O fato de ser novato e muito diferente de todos ali faz com que o choque cultural seja inevitável, e ele, o alvo preferido dos alunos que escapam quase sempre ilesos.

Sua inabilidade também se demonstra na facilidade com o qual ele é manipulado por um dos professores mais velhos. Ele simplesmente não consegue perceber as sutilezas e as diferenças entre os professores tomando seus comportamentos como referência e facilmente se deixa levar pelo maquiavelismo e dissimulação de um deles, não reconhecendo de imediato o caráter de outro que como ele é alvo do primeiro.

Notas finais: escrita, leitura e desfecho

Botchan é um livro que apesar de buscar não se influenciar pelo cenário político de sua época faz menção ao que acontecia no Japão do início do século XX. Essa menção fica ainda mais evidente quando, nos últimos capítulos, ele fala das comemorações a vitória japonesa provavelmente da guerra sino-japonesa (1894-1895), além de fazer uma menção mais breve as batalhas dos nipônicos contra os russos (1904-1905)[4].

Na provável época em que se passa a história e também no período em que o livro foi publicado (1906), o Japão ainda vivia o período Meiji, um momento marcado pelo desenvolvimento econômico e pelo expansionismo imperialista japonês. 

Ainda que mencione alguns acontecimentos nacionais da época, Botchan ainda mantém grande parte da sua neutralidade política contando uma história do cotidiano do povo japonês. A narração do jovem Botchan é linear e irônica –junto com o humor esse é o principal tom da história – e possui um certo carisma que somado as confusões vividas pelo seu protagonista prende o leitor, espantando qualquer possível monotonia em que a narrativa possa cair. Por isso o texto flui com tranquilidade.

A escrita de Soseki é muito bem estruturada e compreensível não exagerando nas descrições ou metáforas. A tradução realizada por Jefferson José Teixeira é impecável, mas senti falta de mais notas de rodapé com textos explicativos que ajudassem os leitores leigos em relação a cultura japonesa.

O que mais gostei na trama foram os seus personagens sobretudo o protagonismo de Botchan e sua personalidade forte e cômica. O livro não te faz rir, mas te diverte e descontrai. Mas seu principal ponto fraco foi, sem sombras de dúvidas, o desfecho. Apesar de fechado e ter uma passagem legal e surpreendente, o livro termina de forma súbita e com poucos detalhes sobre o desenrolar dos últimos acontecimentos. Botchan faz um breve resumo dos fatos ocorridos com ele e encerra a narrativa sem dar notícias sobre alguns fatos que interessariam ao leitor saber.

Do mais, Botchan é um livro descontraído, um clássico agradável e que justifica sua predileção por parte do público japonês. Um livro que nas entrelinhas fala da ocidentalização do Japão e satiriza o charlatanismo intelectual de alguns japoneses de sua época. Além disso, é um livro que aborda o contraste cultural entre as populações de cidades grandes e pequenas e que fala muito da ainda pouco conhecida cultura japonesa.

A edição lida é da editora Estação Liberdade, do ano de 2016 e possui 184 páginas.

Sobre o autor

Natsume Soseki (夏目 漱石), era o pseudônimo de Natsume Kinnosuke (夏目金之助). Nascido em 9 de fevereiro de 1867, em Edo, atualmente conhecida como Tóquio, foi um importante romancista japonês do período Meiji e o primeiro a retratar o moderno japonês intelectualmente alienado. Além de escritor foi filósofo.

Sua infância foi solitária. Os pais o deixaram com outra família quando era bebê, sendo devolvido apenas aos nove anos. Perdeu cedo a mãe, quando ainda tinha 14 anos e foi rejeitado pelo pai.

Se formou em inglês pela Universidade de Tóquio (1893) e lecionou nas províncias até 1900, quando foi para a Inglaterra em uma bolsa do governo. Sua reputação como romancista foi feita com seus dois primeiros romances Eu Sou um Gato (1905) e Botchan (1906).

Depois de 1907, quando desistiu de ensinar e dedicar-se à escrita, produziu seus trabalhos mais característicos, que eram sombrios, sem exceção.

Apesar de sua pouca tradição literária nativa e da sua modernidade, seus romances têm um lirismo delicado que é exclusivamente japonês. Foi através de Natsume que o romance moderno e realista, que tinha sido essencialmente um gênero literário estrangeiro, criou raízes no Japão.

Faleceu em 9 de dezembro de 1916, na cidade de Tóquio.

Confira quem são os outros autores participantes da Campanha deste ano no link: http://bit.ly/2n5OK6U.

Conheça os pontos do nosso itinerário no mapa do link: http://bit.ly/2G9Mkwx.

No link abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Issuu:

Preview do Issuu




[1] Termo alemão para designar o romance de aprendizagem, ou de formação. Segundo Felipe Araújo “sua característica principal é apresentar um personagem principal em jornada, da infância à maturidade, em busca de crescimento espiritual, político, social, psicológico, físico ou moral”.
[2] https://homoliteratus.com/botchan-ou-necessidade-do-contexto-para-entender-o-que-foi-um-romance-japones-transgressivo/

[3] https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2016/03/1751566-livro-de-soseki-percorre-terreno-acidentado-das-relacoes-humanas.shtml
[4] https://pt.wikipedia.org/wiki/Era_Meiji

Postagens populares

Conhecer Tudo