terça-feira, 29 de novembro de 2016

A Catedral do Mar – Ildefonso Falcones – Resenha

Por Eric Silva

“Livre é o estado daquele que tem liberdade. Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”.

(Ilha das Flores – Jorge Furtado)

Sétimo e último livro do nosso itinerário pela literaturaEspanhola, A Catedral do Mar, livro de estreia do barcelonês Ildefonso Falcones, é um romance intenso e uma verdadeira aula de História sobre a Idade Média. Com uma ampla diversidade de temas como a questão religiosa e a injustiça social no período, este é um livro intenso e épico que narra a vida conturbada de Arnau, desde os trágicos acontecimentos de sua concepção até os diversos desafios que a vida e a busca pela sobrevivência lhe impuseram. Um livro sobre fé, intrigas e injustiças, que fala da luta pela liberdade em um mundo marcado pela servidão e exploração dos camponeses que garantiam os privilégios de uma nobreza soberba e cruel.

Sinopse

A Barcelona do século XIV já era uma cidade próspera e orgulhosa para onde se dirigiam todos os anos muitos camponeses fugidos de seus senhores, atraídos pela promessa de liberdade oferecida pela grande cidade condal. Também ali, no bairro da Ribeira, os barceloneses mais humildes, à custa de seus esforços e da contribuição de mercadores e pessoas importantes da cidade, erigiam a imponente Catedral de Santa Maria del Mar, a conclamada igreja do povo. Uma grandiosa construção que seria paralela a intensa e conturbada história de um dos seus mais devotados filhos, Arnau Estanyol, que de estivador chegaria a se tornar barão.

Arnau era filho de um camponês que em busca de liberdade e fugido dos abusos de seu senhor feudal, se refugiara em Barcelona na esperança de tornar-se um cidadão livre. Ainda menino conhece a tirania dos nobres, a revolta, a pobreza e a fome, mas buscando sobreviver às injustiças de sua época torna-se estivador, palafreneiro, soldado e depois cambista. Vive uma vida fatigante, sempre à sombra de Santa Maria do Mar, mas marcada por aventuras que lhe conduziriam a um destino surpreendente e épico.

Resenha

Quando encontrei este livro, já havia me decidido que encerraria a campanha do #AnoDaEspanha com o livro Marcelino Pão e Vinho, obra do espanhol José María Sánchez Silva. Mas A Catedral do Mar apareceu para mim antes que divulgasse minha decisão. Um romance histórico passado na Barcelona Medieval, a cidade espanhola que por mim é a mais querida, me deixou tentado a inserir mais um livro no itinerário. Depois de A Sombra do Vento, primeiro livro da campanha, este seria o meu retorno literário à Barcelona. Eu tinha vinte dias para ler suas 589 páginas e me dediquei a fazê-lo com afã, por sorte, a qualidade da narrativa fez tudo sozinha e terminei antes do prazo. Hoje lhes apresento aquela que foi uma das melhoras leituras que fiz no ano de 2016.

Bernat Estanyol era um simples camponês, mas que crescera ouvindo de seu pai as histórias de seus corajosos antepassados, que um dia foram livres das obrigações feudais e donos da terra. Porém seu pai, como todos os outros camponeses, nascera preso à terra dos nobres e sujeito a sua violência e exploração, e deixara a Bernat a mesma condição servil e o direito de uso da terra de onde tirava o sustento e o pagamento dos pesados impostos.

Na festa de seu casamento com a jovem Francesca, Bernat é surpreendido pela chegada do senhor das terras onde viviam, Llorenç de Bellera, que tomando parte na festa de seu servo, exige-lhe o direito de deitar-se com a noiva em sua primeira noite. Fruto da violência sofrida por Francesca nasceria Arnau por quem a moça não demonstrava nenhum afeto. Porém as perseguições de Llorenç se intensificam, e para salvar a vida de Arnau, Bernat foge do feudo levando consigo a criança. Acossado pelos homens de Bellera, Bernat vê como único refúgio possível a cidade de Barcelona que na época prometia cidadania e liberdade a todos que nela vivesse por um ano e um dia. Ali também poderia recorrer a única irmã, Guiamona, que vivia com o esposo em Barcelona e poderia abrigá-lo durante o tempo necessário para conseguir a cidadania barcelonesa.

É aí que se inicia a história épica de Arnau, o verdadeiro protagonista da trama, que cresce junto com a cidade, sendo testemunha e vítima das injustiças e atrocidades de uma época conduzida pela lei da tradição, da exploração e dos jogos de interesses, e governada pelo fanatismo, pelo ódio e pela nobreza indiferente a miséria por ela imposta ao restante da população.

Quem ler A Catedral do Mar logo percebe que esse livro é o retrato de uma época, mas que não se limita a falar apenas dela e conduz o seu leitor à reflexão acerca das nuanças da natureza humana por vezes soberba, injusta e mesquinha, mas igualmente capaz de nobreza e hombridade.

Inveja, intriga, soberba, ambição, preconceito e fanatismo, tudo está presente neste romance que transcursa cinco centenas de páginas sem jamais se tornar cansativo ou monótono. Mas o seu tema principal é, sem dúvida, a luta pela liberdade e contra as injustiças que os homens cometem uns contra os outros em nome de valores distorcidos pela conveniência dos interesses.
Em diversas passagens este livro me fez refletir, que não é o destino ou um plano divino que inflige ao homem o sofrimento, mas que é o homem o lobo do homem (homo homini lupus), como afirma a máxima do filósofo inglês Thomas Hobbes. Não são a Inquisição e os direitos feudais consequências da vontade divina ou por ela legitimadas, mas obra unicamente da vontade dos homens, que outorga para si o direito de infligir sofrimento ao outro em prol de seus próprios interesses.

O título do livro se deve a catedral gótica de Santa Maria del Mar, construída em Barcelona entre os anos de 1329 e 1383 a partir do projeto dos arquitetos Berenguer de Montagut e Ramón Despuig. A igreja do povo, como é chamada, levou meio século para ser concluída e foi construída, graças, sobretudo, ao trabalho devotado do povo mais humilde da cidade, sobretudo dos bastaixos, os descarregadores do porto de Barcelona que carregavam nas costas as pesadas pedras que serviram para a construção do templo. Em homenagem aos esforços e devoção destes trabalhadores diferentes insígnias dos bastaixos carregando as pedras da construção foram gravados na porta da catedral e existem até hoje.
Visão interna da Catedral. Wikimedia Commons.


No romance a construção da Catedral e a santa homenageada são importantes vetores na determinação da história dos personagens principais, como se fosse o tempo também um dos personagens da narrativa. Mas a construção de del Mar não é o único tema tratado pela história. Ao longo de suas páginas a obra de Ildelfonso vai perfilando um esboço da Idade Média, das relações servis e do poder da nobreza e da Igreja. Como poucos livros, A Catedral do Mar não segue a trilha das novelas cavaleirescas, que exaltam os feitos da nobreza forjando para época uma imagem que só cabe aos contos de fadas. Ao contrário, o livro de Idelfonso é uma sinopse das leis severas e das pesadas obrigações impostas aos camponeses, bem como aos cidadãos das poucas cidades livres da época, a exemplo de Barcelona, a principal cidade catalã do período. O livro é um esboço da perseguição religiosa aos judeus, da intolerância religiosa dos católicos e da intransigência dos Tribunais do Santo Ofício.

Acho que por ser advogado, o autor tenha dado um foco privilegiado às regras sociais, às leis injustas que privilegiavam a minoria bem-nascida e também as regras comerciárias da época. Porém não o fez como um livro didático que enumera lei e normas, mas as utilizou como pano de fundo para determinar o destino de seus personagens, influenciando suas decisões e os rumos de suas vidas. O episódio do estupro de Francesca é o principal exemplo disso, uma vez que fora legitimado pelo jus primae noctis ou o direito da primeira noite, uma antiga lei medieval que determinava que o senhor feudal tinha direito de desvirginar as noivas dos camponeses em sua primeira noite. Foi este episódio o grande desencadeado de toda a trama: o nascimento de Arnau, as dúvidas sobre sua paternidade, a fuga de Bernat meses depois e o destino humilhante de Francesca.

O trabalho de pesquisa histórica de Idelfonso é também um ponto imprescindível a se destacar. No final da edição, algumas páginas foram dedicadas pelo autor a explicação das suas inspirações para o livro e é ali que descobrimos que A Catedral do Mar é uma grande narrativa que mistura fatos históricos verídicos, pessoas e lugares reais com a capacidade imaginativa de seu autor.

Para compor suas personagens e as tramas por elas vividas, Idelfonso se dedicou por anos a uma apurada pesquisa histórica em documentos do acervo do Ateneu Barcelonês, um importante centro cultural de Barcelona que já foi tema de uma de nossas postagens [link]. O resultado foi uma narrativa de dimensões épicas que a cada capítulo reserva ao leitor uma nova surpresa, alguma nova complicação e outros panoramas da época e da vida de seus contemporâneos.

Mas mais do que um panorama da idade média ou da vida na Barcelona medieval, A Catedral do Mar abriga um séquito de personagens surpreendentes e pulsantes. Pessoas simples do povo, da elite soberba, do alto e do baixo clero, meretrizes, escravos e judeus. Mas de todos os que figuram o elenco da narrativa, o personagem mais cativante é o próprio Arnau.

Ainda criança Arnau já demonstrava sua simplicidade, a retidão de seu caráter e um coração sincero e determinado. É comovente a coragem e a determinação do garoto quando ainda adolescente passa a trabalhar como bastaix do porto, carregando nas costas os pesados fardos que eram descarregados das embarcações ou para elas encaminhados, além das enormes pedras que serviriam à construção da Catedral e que eram carregadas por todos os bastaixos. É como bastaix que Arnau vive alguns de seus anos mais duros, porém felizes.
Gravura de bastaix gravado nas portas da Catedral de Santa Maria do Mar, Barcelona. Foto: Tom B.

O trabalho de um bastaix era difícil e fatigante, mas eram todos eles trabalhadores unidos que aceitavam de bom grado as dores de seu trabalho e orgulhavam-se da catedral que ajudavam a construir. Arnau, que tinha pelos bastaix uma grande admiração e amava a Virgem del Mar como sua própria mãe, foi recebido pelos bastaixos como um irmão, e ao lado deles conseguia sustento para si e para o irmão adotivo, Joan, quando o pai lhes falta. Mas a vida lhe reservaria muitas reviravoltas e novos desafios que o levariam a uma posição muito diferente da qual poderia um dia imaginar. Mas ao contrário de muitos, nem a dureza da vida, nem as injustiças que sofrera e nem aquelas que ainda sofreria, não tornaram Arnau um homem amargo ou frio. Ao contrário, sua personalidade não se dilui, nem sua inclinação à humildade e a justiça. Um personagem admirável sem deixar de ser, no entanto, um humano que erra, que tem suas fraquezas e seus momentos de covardia e hesitação.

Ainda mais surpreendente é como, ao longo de sua vida, Arnau vai se envolvendo nas situações mais complicadas, sobrevivendo à morte do pai, à guerra e à peste até encontrar seu desfecho. Por isso ele me fez lembrar de outro personagem muito famoso da literatura clássica universal: Jean Valjean, o protagonista de Os Miseráveis, livro do francês Victor Hugo. Como Arnau, Jean passa por diversos desafios em sua vida enfrentando a ambição e a injustiça daqueles que se interpõem em seu caminho. Os Miseráveis é também um livro centrado na história de vida de seu personagem principal e ao mesmo tempo é o retrato de uma época. Um livro também fantástico e épico.

Após 10 anos da publicação de A Catedral do Mar na Espanha, em agosto deste ano Idelfonso lançou, pela editora espanhola Grijalbo, o livro Los herederos de la tierra, que dá prosseguimento aos acontecimentos narrados na Barcelona Medieval de Arnau Estanyol. O livro ainda não tem previsão de publicação no Brasil.

Em conclusão, para os que não gostam de história talvez as descrições históricas da narrativa pareçam cansativas, mas para mim que amo história, que sou fascinado pela Idade Média e que tenho um amor platônico por Barcelona, este livro terá para sempre um lugar de honra na estante, junto com A Sombra do Vento e Os Miseráveis.


A edição lida é da Editora Rocco, do ano de 2007 e possui 589 páginas.



domingo, 27 de novembro de 2016

2016 #AnoDaEspanha: Os autores que estamos lendo


Carlos Ruiz Zafón

Escritor barcelonês nascido em 25 de setembro de 1964, Zafón é autor do romance A Sombra do Vento. Vive desde 1993 em Los Angeles onde trabalha também como roteirista. 

Com o seu primeiro romance, O Príncipe da Névoa, ganhou em 1993 o prêmio espanhol Edebé de literatura infantil e juvenil. Seus trabalhos já foram publicados em 45 países e traduzidos em mais de 30 idiomas.

Atualmente o autor vem trabalhando em seu mais novo livro, El Laberinto de los Espíritus que irá completar a saga do Cemitério dos Livros Esquecidos, iniciado com A Sombra do Vento. O livro está previsto para ser publicado em 17 de novembro deste ano.

Site oficial: http://www.carlosruizzafon.com

Livros dele no blog: A Sombra do Vento






Federico García Lorca

Nascido em Fuente Vaqueros, Granada, no dia 5 de junho de 1898, Federico García Lorca é um dos mais importantes poetas espanhóis. Seu primeiro livro publicado, "Impressões e Paisagens" (1918), teve logo boa recepção da crítica. Foi também dramaturgo, tendo sido consagrado como um dos maiores da Espanha com o seu trabalho Bodas de Sangue (1932).  Sua obra foi fortemente influenciada pela sua infância na região da Andaluzia destacando na poesia elementos do local como o “cenário natural, os olivais, a arquitetura, os acidentes geográficos, os ciganos, a música, o modo típico da fala, o ambiente familiar”[1].

Na década de 30, com a vitória eleitoral da Frente Popular, ligada ao Partido Republicano Espanhol, a Espanha é conduzida pela oposição conservadora, representada pela Frente Nacionalista, de Franco, à uma guerra civil que culminaria na ditadura franquista. Lorca, que era visto pelos rebeldes como comunista, foi fuzilado na madrugada de 17 ou 18 de agosto de 1936, em Granada, por militantes franquistas, ainda no início da guerra.


Livros dele no blog: Antologia Poética

Postagens especiais relacionadas: Federico García Lorca: dois poemas selecionados




Arturo Pérez-Reverte

Nascido em Cartagena, em novembro de 1951, Arturo é novelista e jornalista e desde o ano de 2003 tornou-se membro da Real Academia Espanhola da língua.

Entre os anos de 1973 e 1994, trabalhou como repórter de imprensa, rádio e televisão, cobrindo diversos conflitos internacionais nesse período, a exemplo das guerras nas Malvinas, El Salvador e Nicarágua. 

A sua obra já foi traduzida em quase trinta idiomas e hoje se dedica exclusivamente a literatura. Desde abril 2016 é editor e co-fundador da rede de livros e autores Zenda.

Site oficial: http://www.perezreverte.com

Livros dele no blog: A Tábua de Flandres










Rosa Montero Gayo

Nascida em Madri, no dia 3 de janeiro de 1951, Rosa Montero é jornalista, escritora e doutora Honoris Causa pela Universidad de Puerto Rico. Despertou sua paixão pela literatura ainda na infância quando acometida por uma tuberculose encontrou nos livros o passatempo durante seu confinamento em casa. 

Desde 1976 a autora trabalha para o respeitável jornal espanhol El País, no qual foi redatora chefe do suplemento dominical durante os anos de1980 e 1981.

Estreara na literatura com o romance Crónica del Desamor no ano de 1979. Um ano antes foi ganhadora do Prêmio Mundo de Entrevistas, em 1980 do Prêmio Nacional de Periodismo e em 2005 Prêmio da Asociación de la Prensa de Madrid. Ganhou também, no ano de 2014, o Prêmio Internacional Colunistas do Mundo.

Sua última obra publicada foi El peso del corazón (2015), livro que representa o retorno da personagem de Lágrimas na Chuva, considerada pela autora como uma de suas preferidas e a mais parecida com ela.

Site oficial: http://www.rosamontero.es

Livros dela no blog: Lágrimas naChuva




Javier Cercas

Escritor, tradutor e periodista espanhol, Javier Cercas nasceu em 1962, em Ibahernando, Cáceres. Estudou Filologia na Universidade Autónoma de Barcelona e por dois anos trabalhou na Universidade de Illinois, EUA. Desde 1989, leciona literatura espanhola na Universidade de Gerona.

Embora tenha se dedicado a literatura desde a década de 1980, quando publicou seu primeiro livro, Mobile (1987), sua consagração como um dos mais importantes escritores contemporâneos da Espanha só se deu em 2001, com a publicação de seu romance Soldados de Salamina, adaptado para o cinema em 2003.

Com o livro Anatomia de um Instante ganhou o Prêmio Nacional de Ficção de 2010 e atualmente atua também como colaborador na edição catalã do jornal El País.

Livros dele no blog: Soldados de Salamina 







José María Sánchez Silva

Nascido em Madri, no ano de 1911, José María Sánchez-Silva y García-Morales se dedicou a literatura infantil e foi o único espanhol a ganhar o Prêmio Hans Christian Andersen.

Vinculado às ideias conservadoras da Igreja Católica foi também um dos jovens periodistas que se atrelou, durante os anos quarenta, à ideologia falangista, colaborando com as atividades da Falange Clandestina no mesmo período em que as tropas franquistas adentraram a cidade durante o episódio da Guerra Civil Espanhola.

Demonstrou uma intensa atividade jornalística na imprensa conservadora de sua época e, depois de uma série de histórias que passaram despercebidas, ganhou notoriedade com o seu romance mais famoso, Marcelino Pão e Vinho, publicado em 1953 e convertido em filme no ano seguinte.
Faleceu em janeiro de 2002, aos 90 anos, na cidade de Madri.

Livros dele no blog: MarcelinoPão e Vinho





Ildefonso Falcones

Escritor e advogado espanhol, nascido em 1959, o barcelonês Ildefonso Falcones ficou conhecido mundialmente graças ao seu livro de estreia, A Catedral do Mar, lançado na Espanha em 2006, após cinco anos de trabalho, e que já foi traduzido para 40 países.

Estudou direito e economia tendo abandonado este último para se dedicar ao primeiro, e hoje atua como advogado em seu próprio escritório, em Barcelona, e se dedicado também a literatura.

O sucesso do lançamento de seu segundo romance, A Mão de Fátima (2009), foi responsável direto por trazer uma grande popularidade ao município de Juviles, que, em reconhecimento, no ano de 2010, nomeou uma de suas ruas como "Rua Ildefonso Falcones".

O autor ainda recebeu vários prêmios, entre eles o Euskadi de Plata 2006, pela melhor romance em lingua casteliana, o prêmio Qué Leer pelo melhor libro em língua espanhola, no ano de 2006, o prêmio Fundación José Manuel Lara, pelo livro mais vendido em 2006, o prêmio literário italiano Giovanni Boccacio 2007 como o melhor autor estrangeiro e o prêmio Fulbert de Chartres de 2009.

Em agosto deste ano o autor lançou o livro Los herederos de la tierra (Grijalbo, 2016), ainda sem tradução no Brasil, e que dá continuidade ao mais aclamado livro do autor, A Catedral do Mar.

Site oficial: http://www.ildefonsofalcones.com/

Livros dele no blog: A Catedral do Mar 






Referências

http://globolivros.globo.com/autores/javier-cercas
http://www.biografiasyvidas.com/biografia/s/sanchez_silva.htm
http://www.ildefonsofalcones.com/biografia/
http://www.infoescola.com/historia/guerra-civil-espanhola/
http://www.perezreverte.com/biografia/
http://www.rosamontero.es/biografia-rosa-montero.html
http://www.travessa.com.br/Rosa_Montero/autor/b6c715f1-0b1a-4322-942a-4cf958c26d72
https://es.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Mar%C3%ADa_S%C3%A1nchez-Silva_y_Garc%C3%ADa-Morales
https://pt.wikipedia.org/wiki/Arturo_Pérez-Reverte
https://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Ruiz_Zafón
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ildefonso_Falcones
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Mar%C3%ADa_S%C3%A1nchez_Silva
https://www.ebiografia.com/garcia_lorca/
https://www.escritores.org/biografias/3985-cercas-javier
https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/zafon-revela-fim-da-saga-o-cemiterio-dos-livros-esquecidos-em-novembro-1742617

LORCA, Federico G. Antologia Poética. Organização e tradução William Agel de Mello. Martins Fontes: São Paulo, 2010.



[1] LORCA, Federico G. Antologia Poética. Organização e tradução William Agel de Mello. Martins Fontes: São Paulo, 2010.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

O Caçador de Pipas em quadrinhos – Khaled Hosseini – Resenha

Por Eric Silva, dedicado a Beatriz Brizolara

Em uma edição linda, e muito bem-acabada, com ilustrações de Fabio Celoni e Mirka Andolfo, a versão HQ de O Caçador de Pipas vem recontar a emocionante e delicada história de Amir e Hassan, dois garotos afegãos cuja amizade ultrapassou as barreiras do tempo e da geografia, mas que também sofreu seus dramas, percalços e tropeços em meio ao cenário de um país segregado, preconceituoso e martirizado pela guerra.

Sinopse

Amir e Hassan nasceram no mesmo país e na mesma casa, em Cabul, capital do Afeganistão, porém pertenciam a etnias diferentes e condições sociais distintas. Mas entre os dois garotos estas diferenças não foram, por muito tempo, grandes problemas, e Amir aceitava a amizade devotada de Hassan ao mesmo tempo que lutava pelo reconhecimento do pai.

Amir admirava a coragem de Hassan e também o talento em conseguir localizar qualquer pipa que tivesse sido cortada no céu, e Hassan se maravilhava com a beleza dos contos escritos pelo único amigo. Um caçador de pipas e um contador de histórias, cuja amizade seria abalada pela incapacidade do ser humano de enxergar a dádiva de se ter uma amizade sincera e gratuita. Vinte anos mais tarde, quando Amir já vivia nos Estados Unidos, após ter abandonado o Afeganistão com seu pai, no episódio da invasão soviética ao país, o passado o obriga a retornar a uma terra arrasada e dominada pelo talibã para cumprir a difícil tarefa de expiar os seus próprios pecados.


Resenha

Ouvi falar muito sobre O Caçador de Pipas quando este já era considerado um clássico moderno, porque na época de seu lançamento, em 2003, nos EUA, e, em 2005, no Brasil, ter acesso a livros não era para mim algo muito fácil. A maioria dos meus livros eram dados ou encontrados na rua. Algumas poucas vezes minha mãe comprou algum livro que precisasse para a escola. Hoje muita coisa mudou e, mesmo assim, nunca cheguei a ler O Caçador de Pipas. Hoje me arrependo de não tê-lo feito logo, de não tê-lo feito ainda, pelo menos não em sua concretude. Logo, o texto de hoje será diferente dos demais. Não vou analisar de forma profunda a história, nem seus personagens e focarei apenas em explicar um pouco de quem é O Caçador de Pipas e fazer uma apreciação crítica da edição de versão HQ da história e através da qual conheci o enredo da trama. Quando ler o livro em si, me dedicarei a resenhá-lo de forma mais profunda, como costumo fazer.

Sobre o livro

O autor
Amir é afegão, mas vive nos Estados Unidos onde é casado e trabalha como escritor. Há vinte anos ele e o pai fugiram do Afeganistão em decorrência da invasão soviética ao país, mas o passado volta a afligi-lo quando, no verão de 2001, recebe a ligação de um velho amigo do pai que lhe pedia que fosse vê-lo no Paquistão. É o abalo provocado pela ligação inesperada que faz com que Amir recorde da Cabul da década de 1970, do Afeganistão de sua infância e do amigo Hassan.

Quando crianças Amir e Hassan eram inseparáveis. Mesmo sendo Hassan um hazara e Amir um pashtun, as antigas hostilidades e preconceitos entre os dois grupos por muito tempo não afetaram a amizade dos dois meninos. Da mesma forma como o fato de Amir ser rico e Hassan o filho do empregado da família parecia ser algo pouco relevante.

Hassan nutria por Amir uma amizade devotada e franca. Corajoso, sempre defendia o amigo e estava pronto para protegê-lo, e é no campeonato de pipas da cidade que o menino reafirma a sinceridade de sua amizade. Porém, quando Hassan se vê em apuros, Amir não tem coragem de defender o amigo e foge. [SPOILER] Depois daquele dia a amizade entre os meninos já não seria a mesma, abalada pelas más escolhas de Amir e que acabariam por afastar Hassan. Contudo aquela ligação telefônica, tantos anos depois, mostraria a Amir a oportunidade de um recomeço e de redenção dos seus pecados.

Lançado nos Estados Unidos em 2003, O Caçador de Pipas foi o livro de estreia do escritor e médico afegão, Khaled Hosseini. Filho de diplomata e nascido na cidade de Cabul, Hosseini vive nos EUA desde 1976 quando sua família se exilou no país em decorrência da invasão soviética ao Afeganistão. Seria do próprio exílio que o autor tiraria parte da inspiração de O Caçador de Pipas que logo se tornou um sucesso mundial e hoje já é considerado por muitos como um clássico.

A verdade é que o livro que conta a história de amizade dos meninos Amir e Hassan surgiu em meio a um período em que as relações entre o Ocidente e o mundo islâmico se encontra muito fragilizadas.
Em 2001 os ataques do 11 de setembro haviam abalado os EUA e o mundo. No mesmo ano o país invade o Afeganistão, e, em 2003, o Iraque de Saddam Hussein. Durante todo esse tempo o mundo assistiria pelos noticiários os dramas e aspectos de dois países arrasados pelas guerras e conflitos sucessivos, pela tirania de governos autoritários e fundamentalistas, e novamente arrasados no conflito contra os estadunidenses. A “guerra contra o terror” parecia muito longe de encontrar seu desfecho e a imagem que se instaurara no imaginário do mundo era a de um Afeganistão pobre, arrasado e violento. É nesse contexto que a publicação da obra de Hosseini surgiu para lançar um olhar mais humano sobre o país muçulmano e também para seu povo. Tamanho sucesso rendeu para a obra, no ano de 2007, a sua primeira adaptação para o cinema em filme do diretor alemão Marc Forster.

Sobre a edição

Uma das cenas mais comoventes da obra. Notem a qualidade do desenho
 e a preocupação com os detalhes tanto na composição da paisagem
como das diferenças físicas dos personagens. 
Como mencionei não vou analisar o enredo, porque por mais que a edição lida seja baseada no livro ela não contém todas as nuances da narrativa, nem transmite todos os conflitos internos de seus personagens. Por isso acho que comecei errado.

O Caçador de Pipas em quadrinho é uma obra interessante e bem-acabada, mas, acho eu, deveria ser lida especialmente por aqueles que já leram o livro, como numa espécie de regresso ao texto e de nova experiência a partir de outra perspectiva: a visual. Não quero afirmar que quem ler O Caçador de Pipas em quadrinho não vá compreender a narrativa. O livro dá conta da história em seus principais aspectos, questões e dramas, mas pela sua extensão e forma não dispensa a leitura do livro se o objetivo for conhecer o íntimo de seus personagens, seus pensamentos e sentimentos. Por isso digo que comecei errado, como aquela pessoa que primeiro assiste ao filme e depois lê o livro. Gostaria de ter lido primeiro o livro, para sentir a densidade da narrativa e dos seus personagens, mas agora a experiência será diferente do que seria se já o tivesse feito.

Mas falando da edição. O Caçador de Pipas em quadrinho tem uma qualidade gráfica muito boa com desenhos de Fabio Celoni e Mirka Andolfo. Celoni é cartunista e escritor italiano e desde o ano de 1990 trabalha como designer da Walt Disney Company entre vários outros trabalhos que compõe seu currículo. Já ganhou vários prêmios e realizou mais de 30 exposições na Itália e em outros países europeus[1]. Mirka, por sua vez, é também ilustradora, cartunista e colorista italiana e a coloração da edição original de O Caçador de Pipas em quadrinho (Il cacciatore di aquiloni), realizado pela editora Edizioni Piemme, em 2010, foi seu primeiro trabalho profissional de certo peso[2]. Hoje o livro, que tem textos de Thomas Valsecchi, já foi publicado em mais de dez países[3].

É fácil perceber o cuidado Celoni e Mirka na elaboração dos desenhos que compõem a obra. Os desenhos além de uma excelente qualidade gráfica e coloração impecável, são bastante detalhados buscando exibir com riqueza os cenários e os aspectos físicos de seus personagens. Não é preciso nem ser muito atencioso para notar nos desenhos do personagem Hassan, e um pouco menos em seu pai, os traços físicos asiáticos que são típicos de sua etnia, o diferenciando enormemente dos demais personagens por sua beleza exótica (farei depois uma postagem especial sobre os Hazaras). Além disso, os cenários das paisagens naturais e culturais típicos do país são também apresentados em riqueza de detalhes: as montanhas, os mercados e as ruas pobres e nobres da cidade de Cabul antes e depois das guerras. A linguagem visual da obra, como tinha de ser, é pujante e minuciosa em seus detalhes.

Sem dúvida, foi para combinar com a arte elaborada por Celoni e Mirka e com a qualidade literária da obra original, que a editora Nova Fronteira deu à edição brasileira um aspecto bastante luxuoso para o que vejo comumente em HQs, em formato de livro com miolo de papel offset (120 g/m²) e capa de papel cartão (250 g/m²).

Recomendo o HQ para quem já leu o livro e gostou, mas para aqueles que não leram ainda, como eu, tenham certeza que ficarão tentados a fazê-lo.

A edição lida é da Editora Nova Fronteira, do ano de 2011 e possui 132 páginas.



[1]https://it.wikipedia.org/wiki/Fabio_Celoni
[2] https://it.wikipedia.org/wiki/Mirka_Andolfo
[3] Ibidem.
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