domingo, 27 de novembro de 2016

2016 #AnoDaEspanha: Os autores que estamos lendo


Carlos Ruiz Zafón

Escritor barcelonês nascido em 25 de setembro de 1964, Zafón é autor do romance A Sombra do Vento. Vive desde 1993 em Los Angeles onde trabalha também como roteirista. 

Com o seu primeiro romance, O Príncipe da Névoa, ganhou em 1993 o prêmio espanhol Edebé de literatura infantil e juvenil. Seus trabalhos já foram publicados em 45 países e traduzidos em mais de 30 idiomas.

Atualmente o autor vem trabalhando em seu mais novo livro, El Laberinto de los Espíritus que irá completar a saga do Cemitério dos Livros Esquecidos, iniciado com A Sombra do Vento. O livro está previsto para ser publicado em 17 de novembro deste ano.

Site oficial: http://www.carlosruizzafon.com

Livros dele no blog: A Sombra do Vento






Federico García Lorca

Nascido em Fuente Vaqueros, Granada, no dia 5 de junho de 1898, Federico García Lorca é um dos mais importantes poetas espanhóis. Seu primeiro livro publicado, "Impressões e Paisagens" (1918), teve logo boa recepção da crítica. Foi também dramaturgo, tendo sido consagrado como um dos maiores da Espanha com o seu trabalho Bodas de Sangue (1932).  Sua obra foi fortemente influenciada pela sua infância na região da Andaluzia destacando na poesia elementos do local como o “cenário natural, os olivais, a arquitetura, os acidentes geográficos, os ciganos, a música, o modo típico da fala, o ambiente familiar”[1].

Na década de 30, com a vitória eleitoral da Frente Popular, ligada ao Partido Republicano Espanhol, a Espanha é conduzida pela oposição conservadora, representada pela Frente Nacionalista, de Franco, à uma guerra civil que culminaria na ditadura franquista. Lorca, que era visto pelos rebeldes como comunista, foi fuzilado na madrugada de 17 ou 18 de agosto de 1936, em Granada, por militantes franquistas, ainda no início da guerra.


Livros dele no blog: Antologia Poética

Postagens especiais relacionadas: Federico García Lorca: dois poemas selecionados




Arturo Pérez-Reverte

Nascido em Cartagena, em novembro de 1951, Arturo é novelista e jornalista e desde o ano de 2003 tornou-se membro da Real Academia Espanhola da língua.

Entre os anos de 1973 e 1994, trabalhou como repórter de imprensa, rádio e televisão, cobrindo diversos conflitos internacionais nesse período, a exemplo das guerras nas Malvinas, El Salvador e Nicarágua. 

A sua obra já foi traduzida em quase trinta idiomas e hoje se dedica exclusivamente a literatura. Desde abril 2016 é editor e co-fundador da rede de livros e autores Zenda.

Site oficial: http://www.perezreverte.com

Livros dele no blog: A Tábua de Flandres










Rosa Montero Gayo

Nascida em Madri, no dia 3 de janeiro de 1951, Rosa Montero é jornalista, escritora e doutora Honoris Causa pela Universidad de Puerto Rico. Despertou sua paixão pela literatura ainda na infância quando acometida por uma tuberculose encontrou nos livros o passatempo durante seu confinamento em casa. 

Desde 1976 a autora trabalha para o respeitável jornal espanhol El País, no qual foi redatora chefe do suplemento dominical durante os anos de1980 e 1981.

Estreara na literatura com o romance Crónica del Desamor no ano de 1979. Um ano antes foi ganhadora do Prêmio Mundo de Entrevistas, em 1980 do Prêmio Nacional de Periodismo e em 2005 Prêmio da Asociación de la Prensa de Madrid. Ganhou também, no ano de 2014, o Prêmio Internacional Colunistas do Mundo.

Sua última obra publicada foi El peso del corazón (2015), livro que representa o retorno da personagem de Lágrimas na Chuva, considerada pela autora como uma de suas preferidas e a mais parecida com ela.

Site oficial: http://www.rosamontero.es

Livros dela no blog: Lágrimas naChuva




Javier Cercas

Escritor, tradutor e periodista espanhol, Javier Cercas nasceu em 1962, em Ibahernando, Cáceres. Estudou Filologia na Universidade Autónoma de Barcelona e por dois anos trabalhou na Universidade de Illinois, EUA. Desde 1989, leciona literatura espanhola na Universidade de Gerona.

Embora tenha se dedicado a literatura desde a década de 1980, quando publicou seu primeiro livro, Mobile (1987), sua consagração como um dos mais importantes escritores contemporâneos da Espanha só se deu em 2001, com a publicação de seu romance Soldados de Salamina, adaptado para o cinema em 2003.

Com o livro Anatomia de um Instante ganhou o Prêmio Nacional de Ficção de 2010 e atualmente atua também como colaborador na edição catalã do jornal El País.

Livros dele no blog: Soldados de Salamina 







José María Sánchez Silva

Nascido em Madri, no ano de 1911, José María Sánchez-Silva y García-Morales se dedicou a literatura infantil e foi o único espanhol a ganhar o Prêmio Hans Christian Andersen.

Vinculado às ideias conservadoras da Igreja Católica foi também um dos jovens periodistas que se atrelou, durante os anos quarenta, à ideologia falangista, colaborando com as atividades da Falange Clandestina no mesmo período em que as tropas franquistas adentraram a cidade durante o episódio da Guerra Civil Espanhola.

Demonstrou uma intensa atividade jornalística na imprensa conservadora de sua época e, depois de uma série de histórias que passaram despercebidas, ganhou notoriedade com o seu romance mais famoso, Marcelino Pão e Vinho, publicado em 1953 e convertido em filme no ano seguinte.
Faleceu em janeiro de 2002, aos 90 anos, na cidade de Madri.

Livros dele no blog: MarcelinoPão e Vinho





Ildefonso Falcones

Escritor e advogado espanhol, nascido em 1959, o barcelonês Ildefonso Falcones ficou conhecido mundialmente graças ao seu livro de estreia, A Catedral do Mar, lançado na Espanha em 2006, após cinco anos de trabalho, e que já foi traduzido para 40 países.

Estudou direito e economia tendo abandonado este último para se dedicar ao primeiro, e hoje atua como advogado em seu próprio escritório, em Barcelona, e se dedicado também a literatura.

O sucesso do lançamento de seu segundo romance, A Mão de Fátima (2009), foi responsável direto por trazer uma grande popularidade ao município de Juviles, que, em reconhecimento, no ano de 2010, nomeou uma de suas ruas como "Rua Ildefonso Falcones".

O autor ainda recebeu vários prêmios, entre eles o Euskadi de Plata 2006, pela melhor romance em lingua casteliana, o prêmio Qué Leer pelo melhor libro em língua espanhola, no ano de 2006, o prêmio Fundación José Manuel Lara, pelo livro mais vendido em 2006, o prêmio literário italiano Giovanni Boccacio 2007 como o melhor autor estrangeiro e o prêmio Fulbert de Chartres de 2009.

Em agosto deste ano o autor lançou o livro Los herederos de la tierra (Grijalbo, 2016), ainda sem tradução no Brasil, e que dá continuidade ao mais aclamado livro do autor, A Catedral do Mar.

Site oficial: http://www.ildefonsofalcones.com/

Livros dele no blog: A Catedral do Mar 






Referências

http://globolivros.globo.com/autores/javier-cercas
http://www.biografiasyvidas.com/biografia/s/sanchez_silva.htm
http://www.ildefonsofalcones.com/biografia/
http://www.infoescola.com/historia/guerra-civil-espanhola/
http://www.perezreverte.com/biografia/
http://www.rosamontero.es/biografia-rosa-montero.html
http://www.travessa.com.br/Rosa_Montero/autor/b6c715f1-0b1a-4322-942a-4cf958c26d72
https://es.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Mar%C3%ADa_S%C3%A1nchez-Silva_y_Garc%C3%ADa-Morales
https://pt.wikipedia.org/wiki/Arturo_Pérez-Reverte
https://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Ruiz_Zafón
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ildefonso_Falcones
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Mar%C3%ADa_S%C3%A1nchez_Silva
https://www.ebiografia.com/garcia_lorca/
https://www.escritores.org/biografias/3985-cercas-javier
https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/zafon-revela-fim-da-saga-o-cemiterio-dos-livros-esquecidos-em-novembro-1742617

LORCA, Federico G. Antologia Poética. Organização e tradução William Agel de Mello. Martins Fontes: São Paulo, 2010.



[1] LORCA, Federico G. Antologia Poética. Organização e tradução William Agel de Mello. Martins Fontes: São Paulo, 2010.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

O Caçador de Pipas em quadrinhos – Khaled Hosseini – Resenha

Por Eric Silva, dedicado a Beatriz Brizolara

Em uma edição linda, e muito bem-acabada, com ilustrações de Fabio Celoni e Mirka Andolfo, a versão HQ de O Caçador de Pipas vem recontar a emocionante e delicada história de Amir e Hassan, dois garotos afegãos cuja amizade ultrapassou as barreiras do tempo e da geografia, mas que também sofreu seus dramas, percalços e tropeços em meio ao cenário de um país segregado, preconceituoso e martirizado pela guerra.

Sinopse

Amir e Hassan nasceram no mesmo país e na mesma casa, em Cabul, capital do Afeganistão, porém pertenciam a etnias diferentes e condições sociais distintas. Mas entre os dois garotos estas diferenças não foram, por muito tempo, grandes problemas, e Amir aceitava a amizade devotada de Hassan ao mesmo tempo que lutava pelo reconhecimento do pai.

Amir admirava a coragem de Hassan e também o talento em conseguir localizar qualquer pipa que tivesse sido cortada no céu, e Hassan se maravilhava com a beleza dos contos escritos pelo único amigo. Um caçador de pipas e um contador de histórias, cuja amizade seria abalada pela incapacidade do ser humano de enxergar a dádiva de se ter uma amizade sincera e gratuita. Vinte anos mais tarde, quando Amir já vivia nos Estados Unidos, após ter abandonado o Afeganistão com seu pai, no episódio da invasão soviética ao país, o passado o obriga a retornar a uma terra arrasada e dominada pelo talibã para cumprir a difícil tarefa de expiar os seus próprios pecados.


Resenha

Ouvi falar muito sobre O Caçador de Pipas quando este já era considerado um clássico moderno, porque na época de seu lançamento, em 2003, nos EUA, e, em 2005, no Brasil, ter acesso a livros não era para mim algo muito fácil. A maioria dos meus livros eram dados ou encontrados na rua. Algumas poucas vezes minha mãe comprou algum livro que precisasse para a escola. Hoje muita coisa mudou e, mesmo assim, nunca cheguei a ler O Caçador de Pipas. Hoje me arrependo de não tê-lo feito logo, de não tê-lo feito ainda, pelo menos não em sua concretude. Logo, o texto de hoje será diferente dos demais. Não vou analisar de forma profunda a história, nem seus personagens e focarei apenas em explicar um pouco de quem é O Caçador de Pipas e fazer uma apreciação crítica da edição de versão HQ da história e através da qual conheci o enredo da trama. Quando ler o livro em si, me dedicarei a resenhá-lo de forma mais profunda, como costumo fazer.

Sobre o livro

O autor
Amir é afegão, mas vive nos Estados Unidos onde é casado e trabalha como escritor. Há vinte anos ele e o pai fugiram do Afeganistão em decorrência da invasão soviética ao país, mas o passado volta a afligi-lo quando, no verão de 2001, recebe a ligação de um velho amigo do pai que lhe pedia que fosse vê-lo no Paquistão. É o abalo provocado pela ligação inesperada que faz com que Amir recorde da Cabul da década de 1970, do Afeganistão de sua infância e do amigo Hassan.

Quando crianças Amir e Hassan eram inseparáveis. Mesmo sendo Hassan um hazara e Amir um pashtun, as antigas hostilidades e preconceitos entre os dois grupos por muito tempo não afetaram a amizade dos dois meninos. Da mesma forma como o fato de Amir ser rico e Hassan o filho do empregado da família parecia ser algo pouco relevante.

Hassan nutria por Amir uma amizade devotada e franca. Corajoso, sempre defendia o amigo e estava pronto para protegê-lo, e é no campeonato de pipas da cidade que o menino reafirma a sinceridade de sua amizade. Porém, quando Hassan se vê em apuros, Amir não tem coragem de defender o amigo e foge. [SPOILER] Depois daquele dia a amizade entre os meninos já não seria a mesma, abalada pelas más escolhas de Amir e que acabariam por afastar Hassan. Contudo aquela ligação telefônica, tantos anos depois, mostraria a Amir a oportunidade de um recomeço e de redenção dos seus pecados.

Lançado nos Estados Unidos em 2003, O Caçador de Pipas foi o livro de estreia do escritor e médico afegão, Khaled Hosseini. Filho de diplomata e nascido na cidade de Cabul, Hosseini vive nos EUA desde 1976 quando sua família se exilou no país em decorrência da invasão soviética ao Afeganistão. Seria do próprio exílio que o autor tiraria parte da inspiração de O Caçador de Pipas que logo se tornou um sucesso mundial e hoje já é considerado por muitos como um clássico.

A verdade é que o livro que conta a história de amizade dos meninos Amir e Hassan surgiu em meio a um período em que as relações entre o Ocidente e o mundo islâmico se encontra muito fragilizadas.
Em 2001 os ataques do 11 de setembro haviam abalado os EUA e o mundo. No mesmo ano o país invade o Afeganistão, e, em 2003, o Iraque de Saddam Hussein. Durante todo esse tempo o mundo assistiria pelos noticiários os dramas e aspectos de dois países arrasados pelas guerras e conflitos sucessivos, pela tirania de governos autoritários e fundamentalistas, e novamente arrasados no conflito contra os estadunidenses. A “guerra contra o terror” parecia muito longe de encontrar seu desfecho e a imagem que se instaurara no imaginário do mundo era a de um Afeganistão pobre, arrasado e violento. É nesse contexto que a publicação da obra de Hosseini surgiu para lançar um olhar mais humano sobre o país muçulmano e também para seu povo. Tamanho sucesso rendeu para a obra, no ano de 2007, a sua primeira adaptação para o cinema em filme do diretor alemão Marc Forster.

Sobre a edição

Uma das cenas mais comoventes da obra. Notem a qualidade do desenho
 e a preocupação com os detalhes tanto na composição da paisagem
como das diferenças físicas dos personagens. 
Como mencionei não vou analisar o enredo, porque por mais que a edição lida seja baseada no livro ela não contém todas as nuances da narrativa, nem transmite todos os conflitos internos de seus personagens. Por isso acho que comecei errado.

O Caçador de Pipas em quadrinho é uma obra interessante e bem-acabada, mas, acho eu, deveria ser lida especialmente por aqueles que já leram o livro, como numa espécie de regresso ao texto e de nova experiência a partir de outra perspectiva: a visual. Não quero afirmar que quem ler O Caçador de Pipas em quadrinho não vá compreender a narrativa. O livro dá conta da história em seus principais aspectos, questões e dramas, mas pela sua extensão e forma não dispensa a leitura do livro se o objetivo for conhecer o íntimo de seus personagens, seus pensamentos e sentimentos. Por isso digo que comecei errado, como aquela pessoa que primeiro assiste ao filme e depois lê o livro. Gostaria de ter lido primeiro o livro, para sentir a densidade da narrativa e dos seus personagens, mas agora a experiência será diferente do que seria se já o tivesse feito.

Mas falando da edição. O Caçador de Pipas em quadrinho tem uma qualidade gráfica muito boa com desenhos de Fabio Celoni e Mirka Andolfo. Celoni é cartunista e escritor italiano e desde o ano de 1990 trabalha como designer da Walt Disney Company entre vários outros trabalhos que compõe seu currículo. Já ganhou vários prêmios e realizou mais de 30 exposições na Itália e em outros países europeus[1]. Mirka, por sua vez, é também ilustradora, cartunista e colorista italiana e a coloração da edição original de O Caçador de Pipas em quadrinho (Il cacciatore di aquiloni), realizado pela editora Edizioni Piemme, em 2010, foi seu primeiro trabalho profissional de certo peso[2]. Hoje o livro, que tem textos de Thomas Valsecchi, já foi publicado em mais de dez países[3].

É fácil perceber o cuidado Celoni e Mirka na elaboração dos desenhos que compõem a obra. Os desenhos além de uma excelente qualidade gráfica e coloração impecável, são bastante detalhados buscando exibir com riqueza os cenários e os aspectos físicos de seus personagens. Não é preciso nem ser muito atencioso para notar nos desenhos do personagem Hassan, e um pouco menos em seu pai, os traços físicos asiáticos que são típicos de sua etnia, o diferenciando enormemente dos demais personagens por sua beleza exótica (farei depois uma postagem especial sobre os Hazaras). Além disso, os cenários das paisagens naturais e culturais típicos do país são também apresentados em riqueza de detalhes: as montanhas, os mercados e as ruas pobres e nobres da cidade de Cabul antes e depois das guerras. A linguagem visual da obra, como tinha de ser, é pujante e minuciosa em seus detalhes.

Sem dúvida, foi para combinar com a arte elaborada por Celoni e Mirka e com a qualidade literária da obra original, que a editora Nova Fronteira deu à edição brasileira um aspecto bastante luxuoso para o que vejo comumente em HQs, em formato de livro com miolo de papel offset (120 g/m²) e capa de papel cartão (250 g/m²).

Recomendo o HQ para quem já leu o livro e gostou, mas para aqueles que não leram ainda, como eu, tenham certeza que ficarão tentados a fazê-lo.

A edição lida é da Editora Nova Fronteira, do ano de 2011 e possui 132 páginas.




[1]https://it.wikipedia.org/wiki/Fabio_Celoni
[2] https://it.wikipedia.org/wiki/Mirka_Andolfo
[3] Ibidem.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

7ª Arte: O Labirinto do Fauno – Resenha

Um filme que poderia ser também um livro

Por Eric Silva

Desafiando os limites entre fantasia e realidade, o filme espano-mexicano O Labirinto do Fauno é um filme impecavelmente bem construído que certamente daria um livro fabuloso. Pensando nisso a obra foi escolhida por nós para ser primeiro filme a integrar a campanha do #AnoDaEspanha e também o primeiro 7ª Arte de 2016. Nele a mágica dos contos de fadas toma uma atmosfera própria e taciturna e se funde com o horror vivido na Espanha franquista, logo após o fim da Guerra Civil, período que mergulhou o país em uma era de opressão e controle fascista.

Sinopse

1944. A Guerra Civil Espanhola já havia terminado com a vitória dos franquistas, mas alguns focos de resistências republicanas ainda persistiam. Próximo a um destes focos, nas montanhas ao norte de Navarra, o Capitão Vidal (Sergi López) se instala em um antigo moinho isolado no coração do bosque com o objetivo de eliminar os últimos resistentes que se escondiam ali. Para lá ele manda trazer também sua esposa, Carmen (Ariadna Gil), que está nos últimos meses de gravidez, e a enteada Ofélia (Ivana Baquero), uma menina que ainda acredita em contos de fada e que se recusa a aceitar o cruel e autoritário capitão como seu novo pai.

Sendo a única criança no posto militar improvisado, Ofélia faz amizade com Mercedes (Maribel Verdú), uma das cozinheiras da casa e logo descobre que esta trabalha também como informante dos rebeldes, mas decide não denunciá-la. Além disso, a menina descobre as ruínas de um antigo labirinto em cujo centro habitava um fauno (Doug Jones). A estranha criatura lhe conta que ela é a reencarnação de uma princesa que fugiu do submundo e que para ter o direito de retornar ao reino de seus pais deverá cumprir três tarefas que afetarão drasticamente e decidir os rumos da vida de todos, sobretudo da própria menina.

Resenha

Quando imaginei o 7ª Arte, minha inspiração havia nascido de O Labirinto do Fauno. Tinha assistido a película há alguns anos e pensando no conteúdo da campanha do #AnoDaEspanha me recordei dele e de como o mesmo seria um bom livro se assim tivesse sido idealizado. Foi aí que nasceu a ideia do 7ª Arte: falar de filmes que dariam ótimos livros por seus enredos bem elaborados e cativantes, e, claro, falar de adaptações fílmicas de obras literárias conhecidas.

A ideia se tornou ainda mais tentadora quando vi a possibilidade de integrá-la a campanha em homenagem a Espanha, resenhando obras fílmicas espanholas e assim ultrapassando os limites da proposta de itinerário literário, sem, no entanto, perder o foco deste. Pois agora estamos aqui com a resenha do primeiro filme dessa nossa nova linha paralela de discussão que obviamente começaria com O Labirinto do Fauno.

Cartaz promocional do filme
Do diretor mexicano Guillermo del Toro, O Labirinto do Fauno é uma produção espano-mexicana que se ambienta no final das sangrentas batalhas entre nacionalistas e republicanos durante a Guerra Civil Espanhola. No ano de 1944, quando se passa os acontecimentos narrados pelo filme, a guerra oficialmente já havia encontrado seu desfecho com a vitória do regime do General Francisco Franco. Contudo alguns grupos rebeldes ainda resistiam e, nas montanhas ao norte da região de Navarra, um deles buscavam fazer frente a um dos emissários do novo governo, o Capitão Vidal, interpretado no filme pelo ator espanhol Sergi López.

Vidal era um homem de visão estreita, cruel e autoritário, capaz de terríveis atrocidades para completar sua missão de pôr fim aos revoltosos que se escondiam em Navarra. Contudo, sua recente esposa, Carmem, estava grávida de seu primeiro filho, e, achando que este deveria nascer próximo ao pai, Vidal manda buscá-la para que viva com ele no entreposto militar montado nas montanhas onde se escondiam os revoltosos.

Obediente as ordens de seu novo marido Carmem enfrenta a desconfortável viagem de carro e leva consigo também sua primeira filha, Ofélia. Mesmo fragilizada pela gravidez, Carmem tinha a intensão de estreitar a fria e distante relação entre padrasto e enteada. Contudo, Ofélia desprezava a ideia de chamar Vidal de pai e mesmo ele era indiferente. A menina, então, em lugar de cumprir os desejos da mãe, se ocupa de explorar a propriedade.

Em suas andanças pelo bosque que circunda a casa, Ofélia descobre a existência de um antigo labirinto cujo centro abrigava uma passagem para uma câmara subterrânea. Guiada por um inseto que se transmuta em fada, a garota explora a câmara e ali descobre um fauno que dizia-se ser parte da terra e das árvores do bosque. Mais do que isso, a estranha criatura também revela que Ofélia era a reencarnação de uma princesa do reino subterrâneo que após fugir para a superfície havia encontrado a morte entre os homens. Contudo, a espera do retorno de sua filha, o rei havia espalhados pelo mundo passagens para que ela retornasse, e a câmara do labirinto seria a última destas passagens. Ainda assim, para que Ofélia pudesse regressar ao reino de seus pais, deveria realizar três difíceis desafios que poriam sua vida em risco e mudariam o curso de sua história.

O Labirinto do Fauno é um filme criativo e bonito, além de denunciar os horrores cometidos pelos fascistas espanhóis no período. Guilermo Del Toro, que também dirigiu os filmes Mutação, A Espinha do Diabo e Hellboy, capricha na estética de um enredo onde fantasia e realidade parece se fundir e se complementar, tornando o filme uma de suas principais obras, que, em 2016, completou 10 anos de existência.

O Fauno e Ofélia em seu primeiro encontro na camâra subterrânea
Um conto de fantasia sombria e uma narrativa de suspense que mistura ficção com o cenário de conflito de um dos momentos mais nebulosos da história da Espanha, O Labirinto do Fauno é um filme ao mesmo tempo mágico, dramático e soturno. Uma história que desafia o estreito limite entre realidade e fantasia, e que, da sua maneira, repovoa de mágica uma realidade ameaçadora e desesperançada, mas focando nos sentimentos humanos, desde os mais pueris aos mais perturbadores, através de personagens com naturezas por demais distintas e opostas.

Ao mesmo tempo em que acompanhamos as sombrias aventuras de Ofélia vamos presenciando os diversos dramas que percorrem a parte realista da história: os esforços de Vidal em esmagar os revoltosos; o sofrimento de Carmem que padece com as complicações de sua gravidez; e as dificuldades enfrentadas pela cozinheira Mercedes para apoiar secretamente o movimento rebelde e manter oculta as suas ações.

Vários são os motivos que tornam esta produção espanhola um bom filme, e estes mesmos elementos fazem com que o seu enredo seja perfeito para um livro que se encaixaria em diferentes gêneros literários, desde o romance histórico até o suspense e a fantasia.

O primeiro elemento é sua mistura única de fantasia e suspense. Apesar de Ofélia gostar de contos de fada, tudo no Fauno e nas tarefas dadas a ela é sombrio, duvidoso e perigoso. Por causa destas tarefas, Ofélia percorre lugares misteriosos e até repugnantes, além de enfrentar criaturas que mais pareciam sair de seus pesadelos mais sombrios. Mas as coisas se tornam ainda piores quando a menina não consegue cumprir à risca as recomendações do fauno. Desta forma a fantasia se encontra representada no filme pelas criaturas mágicas e pelo universo do reino subterrâneo, por outro lado tudo isso se encontra recoberto por um véu de obscuridade que dá um caráter taciturno ao que poderia ser um conto de fadas. Da incerteza de quais são os objetivos das tarefas de Ofélia, bem como das intensões do fauno, nasce a áurea de suspense da narrativa.

Se isso só já não bastasse, o filme ainda comporta um interessante enredo histórico. Enquanto Ofélia cumpre as tarefas indicadas pelo fauno, no acampamento muitas coisas acontecem. Vidal se demonstra um homem violento e intransigente e propenso a ultrapassar qualquer limite para alcançar os rebeldes. A cena mais forte é quando este, na revista de dois camponeses suspeitos, se irrita com o mais novo deles e o mata com sucessivas pancadas de uma garrafa de vinho. Pouco a pouco o rosto do rapaz se torna algo desforme enquanto o mesmo desfalece, tornando a cena brutal e realista, ao passo que demonstra a violência do regime autoritário que se instalava na Espanha naquele momento.

É notório como o diretor consegue incitar em seu público sentimentos profundos de horror, apreensão, desalento e desesperança. Nos agarramos, tal qual Ofélia, a uma promessa que nos parece uma saída miraculosa, mas que, ao mesmo tempo, soa duvidosa e insidiosa. Por outro lado, os acontecimentos que se desencadeiam em favor de Vidal, confluindo para a piora da saúde de Carmem e para que os segredos de Mercedes sejam descobertos, incitam a garota a ter fé na promissão do retorno ao reino subterrâneo. Elementos como esses, em uma narrativa, são tão perturbadores e atraentes quanto o são nas telas do cinema.

Capitão Vidal, interpretado por Sergi López
Em relação aos personagens, creio que o Capitão Vidal seja o mais impactante na trama. Certamente, Vidal foi concebido como um personagem a representar tudo de ruim que existia no regime franquista, bem como em todos os regimes totalitários da época.

Sádico, machista, autoritário, e movido por um ódio declarado aos esquerdistas, ele impõe o seu poder não só através da distribuição controlada de alimento para que os camponeses não alimentassem os rebeldes, como também através da repressão, da violência, da coesão e da tortura de seus inimigos. Se não fosse seu drama pessoal em relação a história do pai, morto em combate, não haveria um único momento do personagem em que ele não se mostraria como detestável e de natureza fria e desamorosa. Neste ponto concordo com Guilherme Araujo quando este afirma que o ator conseguiu com inteligência não deixar seu personagem caricatural, dando-lhe alguns momentos de vulnerabilidade emocional e o tornando mais realista para o espectador[1].

Na direção contrária, Ofélia é uma menina doce e inteligente, mas rodeada por uma atmosfera de tristeza que apenas se adensa. Em alguns momentos se demonstra ingênua e frágil, mas também bastante determinada. Em sua amizade com Mercedes é bastante madura ao compreender os riscos que a cozinheira corria em ajudar os rebeldes e decidir-se por não denunciá-la, mas também é claro o medo que o padrasto lhe infunde. É aí o reino subterrâneo e a promessa do fauno lhe surge como uma esperança de fuga de uma realidade opressora e sem esperanças.

Cena do filme com o fauno (Doug Jones) e Ofélia (Ivana Baquero)

Acho que, de uma forma única e com linguagem própria, O Labirinto do Fauno não só funde realidade e fantasia, como demonstra com bastante realismo a opressão daqueles tempos. Compõe personagens interessantes e idealistas. Há em seu enredo não só o embate entre grupos distintos como também entre ideais diferentes: socialismo X fascismo, realidade X fantasia. Ao mesmo tempo revisita as feridas da Guerra Civil que no tempo escolhido para trama ainda se encontravam completamente abertas e a desesperança teria lugar por bastante tempo.

O desfecho posso dizer que era esperado, tendo em vista que parte dele é revelado ainda no começo do filme, mas as circunstâncias em que se dá ainda abala o espectador.

Em resumo, penso que este filme daria um bom livro, porque sua história não é nenhum pouco enfadonha, é inteligentemente construída, como uma boa estética e com boas dosagens de fantasia, terror, ação e drama. Além disso é capaz de agradar a diversos gostos pelos diferentes enfoques que a narrativa possui. É ao mesmo tempo uma obra de denúncia histórica e de grande qualidade ficcional e com uma importante contribuição para a compreensão de seu momento histórico. Por fim, como afirma brilhantemente Guilherme Araujo: “Não é um filme que apenas nos deslumbra com estética ímpar, mas também com uma complexa densidade emocional”.

A película é uma produção dos estúdios Picasso, Tequila Gang, Esperanto Filmoj, Sententia Entertainment, Telecinco e OMM. Entrou em cartaz no ano de 2006 e foi ganhadora do Oscar como melhor direção de arte, melhor fotografia e melhor maquiagem. Venceu também o Globo de Ouro como melhor filme estrangeiro, além de conquistar premiações em categorias diversas do Independent Spirit Awards, do BAFTA e da premiação Goya.

Tem duração de 118 minutos e abaixo você pode conferir o trailer do filme que consegue traduzir a atmosfera sombria e ao mesmo tempo mágica que permeia todo o filme.

Trailer




Postagens Relacionadas







[1] http://www.loucosporfilmes.net/2016/10/estreou-ha-10-anos-o-labirinto-do-fauno.html

domingo, 6 de novembro de 2016

7ª Arte

Por Eric Silva

Olá, Pessoal.

Quando o Conhecer Tudo nasceu a ideia inicial era construir um blog de conhecimento geral, que falasse de tudo um pouco. Mas os anos foram passando e o projeto ficou parado por muito tempo. Neste ínterim a nossa proposta foi tomando outros contornos e Conhecer Tudo se tornou um blog literário. Mas se nossas veias são literárias, o sangue que nos nutre é múltiplo. Estamos aqui para conhecer o mundo nas suas mais diversas formas das formas mais diversas. Prova disso são as Postagens Especiais inspiradas nos livros que lemos mas cujo tema central não são literalmente estes livros, mas questões por eles abordadas, ou sobre lugares onde as histórias se passam.

Hoje, eu venho para apresentar aos nossos leitores uma outra vertente que pretendemos discutir em nossos textos: o cinema. Este projeto terá como título 7ª Arte e traremos para vocês nossa opinião de bons filmes, antigos e recentes que poderiam ser livros ou que forma inspirados em bons livros. Como vocês vêm, falaremos de cinema, mas a veia da discussão continuará permeando o universo literário. Dessa forma o que buscaremos explorar nas nossas resenhas é a história destes filmes: contextos, enredo e personagens. Não será uma visão crítica sobre a fotografia, o figurino, a atuação dos atores ou design de cenários, ainda que um ou outro desses elementos possam ser abordados.

Assim como em nossas resenhas sobre livros, no 7ª Arte falaremos um pouco dos filmes, nossa opinião sobre eles, paralelos entre a versão literária e fílmica e, no caso de filmes que ainda não são livros apontaremos porque achamos que estas películas dariam boas obras literárias. Assim o 7ª Arte unirá duas paixões: cinema e literatura.

Espero que gostem desse nosso novo projeto.

Obrigado pela atenção,
Eric Silva

Filmes do 7ª Arte

1. O Labirinto do Fauno (Espanha) - filme do diretor Guillermo del Toro
2. La Lengua de las Mariposas (Espanha) - filme do diretor José Luis Cuerda 
3. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (Brasil) - filme do diretor Daniel Ribeiro
4. Que Horas Ela Volta? (Brasil) - filme da diretora Anna Muylaert

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Marcelino Pão e Vinho – José María Sánchez-Silva – Resenha

Por Eric Silva
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“O menino foi dando a volta até colocar-se debaixo do seu olhar. Jesus estava muito fraco e a barba caía-lhe aos borbotões sobre o peito; tinha as faces encovadas e seu olhar despertava muita pena em Marcelino. Marcelino vira muitas vezes Jesus, mas sempre pintado no quadro do altar da capela ou em crucifixos pequenos, como se fossem de brinquedo, nos rosários dos frades. Mas nunca havia visto um “de verdade” como agora, com todo o corpo nu e que se podia contornar com os braços, havendo espaço por trás. Então, tocando-lhe as pernas magras e duras, ergueu os olhos para o Senhor e disse-lhe, sem rodeios:— Você tem cara de fome!


Sexto livro da Campanha 2016 #AnoDaEspanha, Marcelino Pão e Vinho é um pequeno e delicado livro religioso publicado na Espanha em 1953 e de autoria do escritor José María Sánchez-Silva. Nesta que foi sua obra mais conhecida, Sánchez-Silva conta a história de Marcelino, um menino inteligente, carinhoso e bastante travesso que tendo sido abandonado na porta de um convento franciscano foi criado e educado por doze frades que ali viviam. Numa narrativa singela mas carregada de significados, Sánchez-Silva traz uma história comovente e que cumpre também um claro papel de ensinar às crianças um pouco da crença e dos valores católicos.

Sinopse

Em um pequeno vilarejo do interior da Espanha fazia alguns anos que frades franciscanos haviam erguido, para que lhes servisse de abrigo, um pequeno e humilde convento. O pequeno prédio havia sido construído por eles mesmos a partir das ruínas de uma granja cedidas aos mesmos pela prefeitura para que ali os religiosos residissem da forma que melhor lhes provessem.

Na humildade de seu lar, os franciscanos viviam e realizavam suas obrigações religiosas, sobrevivendo das esmolas que recebiam, pois como lhes impunham os preceitos da Ordem, não podiam conservar bens próprios, devendo viver da caridade cristã. Mas eis que na manhã em que nascia um novo século, os frades despertaram com uma surpresa em sua porta que mudariam suas vidas e também de todo o vilarejo: uma criança que ali fora abandonada enrolada em uma trouxa, o pequeno Marcelino.

Após batizarem a criança e tendo sido em vão os esforços de encontrar responsáveis para ela, os religiosos decidem conservar o menino entre eles e criarem-no da melhor forma possível que a já humilde vida franciscana permitisse. É em meio aos frades que Marcelino crescerá levado e algumas vezes maldoso com os animais, mas com um destino que já mais ninguém poderia supor.

Resenha

Lembro que quando eu era criança havia visto algumas vezes na televisão um desenho sobre um menino travesso que vivia entre frades franciscanos e que aprontava grandes confusões no pequeno convento onde moravam, brincando com os animais e pregando peças nos religiosos. Naquela época Marcelino Pão e Vinho não me chamou muita atenção e, mesmo sendo um catequizando, um desenho religioso me causavam mais tédio do que interesse. Coisas da infância, porque quando já era um pouco maior acordava cedo aos domingos para assistir os desenhos bíblicos que passavam na televisão.

Contudo, jamais tinha suposto que voltaria a falar de Marcelino Pão e Vinho, obra do escritor espanhol José María Sánchez-Silva. Só esse ano, com a campanha do #AnoDaEspanha, descobri que aquele desenho, que na infância não havia me cativado, não era só mais uma obra voltada para o público infantil, mas a adaptação de uma obra espanhola de sucesso que nascera como livro e que depois fora adaptada para a TV e o cinema.

Marcelino Pão e Vinho é uma narrativa simples e delicada onde claramente se vê a intensão de Sánchez-Silva em transmitir às crianças as crenças e os dogmas da fé católica, ensinar-lhes sobre a vida e sobre a religião. 

A Plaza Major, na cidade de La Alberca, foi um dos cenário
da adpatação filmica do livro Marcelino Pão e Vinho. Criative Commons.
Marcelino é um menino arteiro, que passa seus dias a fazer diversas travessuras com os frades, brincando com seu amigo imaginário, Manuel, e fazendo maldades com os pequenos animais que encontra no terreiro do convento. Mas em todas as suas ações não existe uma maldade deliberada, mas apenas as traquinagens de uma criança solitária, que vivendo dentro de uma casa de adultos onde todos tinham tantos deveres a cumprir, buscava distrair-se do modo que podia. Tinha certeza que era amado e os frades procuravam lhe ser atenciosos, mas ainda faltava ao menino a referência de uma mãe, e a companhia de outras crianças.

[SPOILERS em itálico] Porém, tudo muda para Marcelino quando ele encontra no sótão do convento a imagem de um Cristo crucificado. Marcelino que nunca tinha visto uma representação tão grande de Cristo começa a falar com a imagem que lhe responde suas perguntas e desce da cruz para conversar e lhe contar histórias. Bastante comovido com as condições de penúria em que encontrara Jesus, o menino decide, todos os dias, leva-lhe, em segredo, algum alimento, principalmente o pão e o vinho que Jesus comia com agradecimento.

[SPOILERS] Com o tempo Marcelino vai mantendo escondido dos frades seu novo amigo, até que estes mesmos desconfiam da comida que some e das escapadelas do menino, até o dia em que Jesus resolve atender um pedido de Marcelino e reuni-lo com a mãe no céu. Os frades que, por detrás das frestas da porta do sótão, observavam a conversa entre o menino e a imagem deram tudo aquilo por milagre quando a imagem tomou em seu colo o menino e o conduziu ao sono eterno.

[SPOILERS] O restante do enredo centra-se na viagem de Marcelino pelo céu ao lado de seu Anjo da Guarda em busca de se reencontrar com sua mãe. A medida que caminham pelas várias paisagens do paraíso e conversam, em flashbacks, o autor vai contando algumas das traquinagens do menino quando ainda estava vivo. Também vai sendo narrado o que acontecia aos frades na Terra após a morte de Marcelino e de como as circunstancias como esta aconteceu ter sido tomada pelas pessoas como um sinal de um milagre divino. Nessas passagens vamos ficando sabendo de que forma Marcelino havia sido abandonado e o que acontecera aos seus pais, bem como o destino do convento onde por tantos anos o menino havia vivido.

Vista frontal da Capela de El Cristo Caloco que serviu de
cenário para a versão filmica do livro. Critive Commons.
Trata-se de uma narrativa curta e bastante singela, apesar de muito bem narrada, mas que emociona seus leitores pela delicadeza de sua história e pelo destino comovente dado a criança. Esta delicadeza se expressa no ato dos frades em abrigarem a criança, no carinho que tinham pelo menino, na forma como lhe ensinavam sobre o mundo e sobre a fé e até mesmo nas travessuras de Marcelino e na forma como este buscava fugir do castigo. [SPOILERS em itálico] Mesmo a forma como Marcelino deixa o mundo e a maneira como o menino nomeia cada frade com alusão aos papéis que cada um possuíam no convento (Frei Papinha, Frei Dodói, Frei Porta, Frei Blém-Blém), mesmo aí podemos sentir a delicadeza da história de Marcelino Pão e Vinho. Um livro que não fala só de religião – ainda que esse seja o foco majoritário – mas também, de amor, de abandono, da infância, da morte, do respeito aos animais e das pequenas maldades e traquinagens infantis que não enxergam maiores consequências em seus atos. São estes elementos que deixam claro o caráter educativo-religioso do livro.

[SPOILERS] Uma coisa que acho válida ressaltar é que mesmo com a morte de Marcelino, de forma tão inesperada e até abrupta, em minha leitura não tive aquela sensação de perda que o leitor sente quando no enredo um personagem morre. Não sofri. Acho que a caminhada de Marcelino ao lado do anjo, afasta da narrativa a imagem da morte como sendo o fim de tudo. Ao contrário ela evoca a ideia de continuidade, da morte como apenas uma passagem para uma outra vida melhor e mais plena. Acho que esta era a ideia inicial de Sánchez-Silva: falar da morte como algo que não se deve lamentar, mas como uma passagem.

O livro foi publicado por Sánchez-Silva no ano de 1953 e um ano depois a trama foi adaptada para o cinema pelo diretor húngaro Ladislao Vajda, sendo um dos maiores êxitos do cinema espanhol[1]. No papel do travesso Marcelino atuou, aos 8 anos de idade, o ator espanhol Pablito Calvo. Como em seu livro Sánchez-Silva não revela o nome do vilarejo que serve de cenário a trama, no filme Vajda usa como cenários a pequena cidade espanhola de La Alberca, localizada na província de Salamanca, e a capela do Cristo Caloco em El Espinar, província de Segóvia, onde é criada toda a atmosfera do pequeno convento franciscano[2].

Por fim, gostaria de deixar uma nota pessoal como comentário final. Coincidência ou não, durante a semana em que estive lendo este livro, meu vizinho, que é muito religioso, passou as manhãs ouvindo canções de canto gregoriano, muito comuns entre os monges franciscanos. Engraçado que eu nunca tinha ouvido ele escutar este tipo de música, o que me deixou bastante curioso. Nem imagina ele que, enquanto ouvia suas canções, eu lia a história de Marcelino e dos frades que em um gesto de amor e compaixão se dedicaram a sua criação.

A edição lida é da Editora Record, do ano de 2005 e possui 176 páginas. Abaixo deixo um trecho do filme de Ladislao Vajda que entrou em cartaz, na Espanha, no ano de 1954.

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