domingo, 2 de setembro de 2018

Relatos de Um Gato Viajante – Hiro Arikawa – Resenha


Por Eric Silva

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.

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Uma história tocante, leve e gostosa de ler, que num tom bem-humorado vai falando da vida cotidiana, de perdas e de desafios que encontramos no caminho trilhado por cada um dos personagens. Esse é Relatos de Um Gato Viajante (旅猫リポート), primeiro livro da japonesa Hiro Arikawa (有川 浩) publicado no Brasil. Um livro que, através da voz narrativa de um gato sarcástico, mas fiel ao seu amigo e dono, conta a história de uma viagem pelo Japão e de retorno ao passado.

Confira a resenha do quarto livro da III Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo que neste ano homenageia a literatura japonesa.

Sinopse

Nana (ナナ) era um autêntico gato de rua: esperto, caçador, livre e destemido. Mas não apenas isso, era um felino sarcástico e senhor de sua própria vontade. Foi dormindo em cima de uma van prata estacionada na rua, quando ainda não possuía um nome, que conheceu Satoru Miyawaki (宮脇 悟), o dono da van. A amizade começaria ali e se estreitaria muito devagar, à medida que Nana foi, gradativamente, aceitando os mimos de Satoru e permitindo alguns tímidos afagos em retribuição.

Todavia, seria um acidente que uniria definitivamente os dois. Atropelado por um carro, Nana buscaria por socorro próximo ao apartamento de Satoru e seria resgatado por ele, que além de socorrê-lo, cuida de sua recuperação. Nesse processo, o rapaz, um gateiro incorrigível, se afeiçoa ainda mais ao animal e o gato a ele. Ligados um ao outro, o gato acaba por ficar com Satoru, que, em alusão ao rabo torto do felino, lhe dá o nome de Nana, o número sete em japonês.

Nana e Satoru permanecem juntos ao longo de cinco anos, mas, por razões pessoais, Satoru não pode continuar cuidando do animal. Relatos de Um Gato Viajante é a narrativa de uma viagem de despedida sob a perspectiva de Nana. Os dois atravessam o Japão de sul a norte visitando pessoas do passado de Satoru em busca de alguém que pudesse adotar o gato.

Resenha

Logo nas primeiras linhas, o livro de Hiro Arikawa faz referência a obra Eu sou um gato, de Natsume Soseki (夏目 漱石), um dos mais importantes escritores e filósofos do Japão na era Meiji. Mas, ao contrário do personagem que dá título ao livro de estreia de Soseki, o felino da história Arikawa não possui o dom da telepatia, mas é dono de um nome feminino e de um humor sarcástico ímpar.

Trata-se um livro de temas bastante cotidianos e universais, e, por isso, não espelha apenas a realidade japonesa. Por outro lado, o livro de Arikawa faz um breve retrato do Japão moderno, descrevendo alguns dos muitos estilos de vida que são comuns aos nipônicos: pais ausentes que trabalham excessivamente, adolescentes que vivem com autonomia, jovens que realizam trabalhos de meio período para sustentar seus gastos pessoais, além de profissionais que, por conta de seus trabalhos, vivem mudando de cidade.

Muito atual, a obra faz também uma rápida menção à última grande crise econômica que afetou todo o mundo e gerou, entre outras consequências, recessão e demissões no Japão. Essa realidade vivida pelos nipônicos não é esquecida pela autora que faz menções às demissões cada vez mais comuns:

“Cerca de três anos já haviam se passado desde que Shusuke Sugi e a esposa, Chikako, abriram uma pousada com esse slogan.

A oportunidade surgiu quando, por causa da recessão, a empresa onde ele trabalhava fez um programa de demissão voluntária. A família de Chikako era dona de um sítio de fruticultura, e justo naquela época havia uma pousada ao lado à venda, por uma pechincha. Então, o casal comprou a pousada, já mobiliada, para reabri-la.”

Contudo, essa não é uma obra sobre problemas econômicos, mas sobre amizade, infância, família, perdas e resignação. De forma leve, o livro fala de sentimentos, ao mesmo tempo que demonstra como a vida pode ser difícil e marcada por perdas e sofrimentos. Os dramas da vida são citados como se tudo pertencesse a um passado longínquo. Mas, ao mesmo tempo, o eco do que se foi reverbera no presente deixando marcas evidentes como arrependimentos, dúvidas, alguns sentimentos remanescentes e nostalgia. No entanto, ao abordar questões como família e amizade, o livro também esboça um retrato das relações interpessoais contemporâneas japonesas que, em alguns aspectos, são tão universais e, em outros, bastante singulares e próprias da cultura do Japão, país onde as pessoas são bem contidas quanto aos seus sentimentos e se tratam com bastante discrição e reserva.

Um gato sarcástico e seu dono: os personagens principais

Nana e Satoru são indiscutivelmente os personagens mais importantes da trama, mas suas histórias são contadas intercaladamente ou simultaneamente a dos amigos de Satoru, o que dá a sensação de um protagonismo móvel, ou compartilhado.

Nana é um gato bastante rabugento e algumas vezes beira a megalomania. Seu forte senso de fidelidade e companheirismo, quando somados aos seus comentários e observações sarcásticas sobre o comportamento humano, dão ao personagem um ar cativante, e reserva à história um tom de humor leve e inteligente.

Ele acha seu nome estranho e feminino, mas, sobre protestos, acaba cedendo à vontade do dono. É o tipo do personagem que mobiliza a história, quebra momentos monótonos e até mesmos os tristes, tornando o tom geral da narrativa mais dinâmico e variado.

Satoru, por sua vez, é a paciência, resignação e preocupação em formas humanas. Desde a infância se mostra como um amigo fiel e paciente. Um garoto corajoso que enfrenta os desafios que a vida lhe impusera sem, no entanto, se queixar ou demonstrar autopiedade. Sempre muito reservado, Satoru a todo o momento se demonstra aberto a ajudar seus amigos, mas não costumava dividir com eles os seus sofrimentos, demonstrando resignação quanto ao seu destino e um desejo forte de não incomodar os outros com seus problemas.

Com Nana, Satoru se revela um dono zeloso e preocupado, sempre buscando assegurar o bem-estar de seu companheiro. Mudar-se para um prédio que aceitasse animais, buscar garantir o conforto de Nana durante toda a viagem, desistir várias vezes de confiá-lo a alguém quando percebia que aquele não era o melhor lugar para deixar o felino, são algumas das ações empreendidas pelo personagem e que demonstram seu zelo pelo amigo.

Contudo, se muito do zelo extremado do personagem é típico de sua personalidade, também é igualmente decorrente aos problemas do passado. Quando ainda era menino, Satoru foi obrigado a se separar de seu primeiro animal de estimação, o gato Hachi (八). A experiência traumática e o fato de Nana lembra seu antigo gato acabam por ampliar ainda mais o afeto do rapaz pelo animal.

Outros personagens importantes compõem o pequeno, mas marcante elenco do livro: Kosuke Sawada (澤田 幸介), amigo de infância de Satoru, Daigo Yoshimine (吉峯 大吾), o amigo do começo da adolescência, Shusuke Sugi (杉 修介) e Chikako Sakita(杉 千佳子), o casal de amigos do fim da adolescência e início do período universitário, e, por fim, a tia de Satoru, Noriko Kashima (香島 法子).

Apreciação crítica

O livro de Hiro Arikawa é narrado sob o ponto de vista de duas perspectivas, com duas vozes narrativas intercaladas. A primeira e principal delas é a do inteligente e sarcástico Nana. Quando não está ele próprio narrando todo o capítulo, a voz de Nana interfere na segunda voz de narração e dá a narrativa um tom humorado e cheio de críticas, comentários e perspectivas próprias que vão da “rabugentisse” gostosa dos gatos ao carinho velado de um animal amoroso e amigo fiel.

O outro narrador é onisciente e se encarrega de narrar tanto fatos do presente que não foram presenciados por Nana ou Satoru, como os fatos passados que, em flashbacks, vão narrando o passado de Satoru, as pessoas que cruzaram o seu caminho e as histórias que marcaram profundamente sua vida.

O livro, como sugere o título, está dividido em relatos, cada um deles contando a história de um novo encontro de Nana e Satoru com uma nova pessoa do passado do rapaz, até que se alcança o último relato, que narra o final da viagem empreendida pelos dois. No fim, todo o conjunto do livro se torna o relato delicado e comovente de duas viagens simultâneas: uma ao redor do Japão, indo de Tóquio à Sapporo, e a outra, em regresso ao passado, num longo recordar de acontecimentos e pessoas importantes que transpuseram, mexeram ou mudaram o destino de Satoru.

Trata-se de uma história que o rapaz vai dividindo com seu gato a partir de suas recordações com os amigos. Enquanto isso, os dois presenciam paisagens triviais e cotidianas pelo caminho, mas que se tornam momentos sublimes de contemplação do mundo e da vida, lembranças para serem guardadas e servirem de elo com o passado.

Arikawa não se preocupa em tecer uma narrativa nem complexa nem inusitada ou inverossímil. Sua aposta é em uma narrativa simples e cotidiana, com dramas (pequenos e grandes) que podem ser comuns a vida de qualquer um: pais ausentes e pouco afetuosos, relações desgastadas, amizades, separação, perdas e orfandade. Mas apostar no cotidiano não significa que seu livro é pobre em movimento ou pouco estimulante. A escritora japonesa rompe com o enfadonho com uma escrita impecável, atual e bem-humorada sem se tornar banal ou cansativa. Nana com sua personalidade marcante transforma a atmosfera do livro, tornando interessante o que poderia ser apenas a história de um homem que perdeu muitas coisas ao longo da vida, mas que nunca deixou de olhar a beleza das coisas ou ter uma atitude positiva.

É um livro muito fácil de ler, com uma linguagem limpa e acessível. O texto é muito fluido e a narrativa bem estruturada entrono dos fatos narrados por Nana e os flashbacks que contam progressivamente passagens da infância e da mocidade de Satoru. Mas é o bom humor de Nana, aliado a uma tradução impecável e uma escrita tão bem-feita quanto divertida, que fazem a história instigante e nem um pouco cansativa.

Arikawa cria um livro com algum relevo e profundidade, mesmo tratando de um tema bastante universal e desgastado. Ela nos faz conhecer lentamente os seus personagens, envolve-nos com seus dramas, medos, fragilidades e personalidades e gradativamente faz com que nos simpatizemos com eles, com que se torne significativos e maiores do que a narrativa em si.

Enfim, gostei desse livro como um todo: escrita, narrativa, personagens e narração. Porém, não digo que Relatos de um Gato Viajante se tornou um dos meus livros preferidos, pois sua narrativa não traz nada de novo ou de surpreendente. Já li, mas sobretudo assisti, muitas histórias semelhantes, especialmente em animes japoneses que tratam do dia a dia do povo nipônico e os dramas pessoais de seus protagonistas. Ainda que tenha me comovido bastante em sua reta final, o livro está para mim mais como uma leitura agradável, divertida e de fácil digestão, do que uma obra marcante e profunda que você procura ter sempre à mão. O caso é que se trata de um bom livro, delicado e sereno, cuja narrativa não possui pontos fracos relevantes, mas que também não se destaca como uma obra-prima.

O desfecho é fechado e foi, para mim, uma surpresa que me comoveu bastante. Chegou até mesmo a influiu no meu humor durante todo o dia, me deixando pensativo e um pouco melancólico. Porém, para os mais perspicazes o final do livro é fácil de ser lido nas entrelinhas e não causa grandes assombros. Mas de qualquer forma, este é um livro que certamente agrada muitos e diferentes tipos de leitores, mesmo os que não são, como eu, fanáticos por gatos.

Em conclusão, é um livro delicado, verossímil e sentimental. Pelo sucesso alcançado em terras nipônicas, foi adaptado para o cinema, em filme do diretor Koichiro Miki que entrará em cartaz no dia 26 de outubro deste ano no Japão[1]. Um livro que fala de sentimentos, de amizade e de perdas. Uma história que fala de amor e respeito aos animais e de como esta parceria entre animais e pessoas pode ser consoladora e fundamental à vida, tanto quanto as relações interpessoais. Uma leitura leve, agradável e cheia de humanidade.

A edição lida é da Editora Alfaguara, do ano de 2017 e possui 256 páginas.

Sobre o autor


Hiro Arikawa (有川 浩) nasceu em 1972 em Kochi, no Japão. Seus romances são best-sellers no país e muitos deles já foram adaptados tanto para a TV japonesa, quanto para o cinema.
Frequentemente escreve sobre as Forças de Autodefesa do Japão (JSDF) e seus três primeiros romances sobre esse ramo são conhecidos como Jieitai Sanbusaku (A Trilogia SDF). Em 2003, ganhou o décimo prêmio Dengeki Novel de novos escritores pelo seu romance Shio no Machi: Wish on My Precious, primeiro volume da série.

No Brasil, seu único livro publicado é Relatos de Um Gato Viajante, lançado originalmente no Japão em 2011.

Confira quem são os outros autores participantes da Campanha deste ano no link: http://bit.ly/2n5OK6U.

Conheça os pontos do nosso itinerário no mapa do link: http://bit.ly/2G9Mkwx.

Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books.

Preview do Google Books







[1] http://asianwiki.com/The_Travelling_Cat_Chronicles

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Mães solo no Japão e a personagem Keiko de Ninguém Pode Saber – Postagem Especial


Por Eric Silva

“Eu só queria alimentar o meu filho o suficiente para satisfazê-lo.”
(trecho de bilhete suicida de uma mãe solo japonesa).


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Recentemente resenhei o filme japonês Dare mo Shiranai (誰も知らない), traduzido no Brasil como Ninguém Pode Saber. Baseado em fatos reais, o filme dirigido por Hirokazu Kore-eda (是枝 裕和) conta a história de quatro crianças que tentam sobreviver, ao longo de meses, ao desamparo e a pobreza, após serem abandonadas pela mãe em um apartamento diminuto no subúrbio da cidade de Tóquio.

Nessa resenha falei um pouco sobre o filme, minhas impressões e também sobre seus principais personagens, sobretudo o menino Akira (福島明), e, de forma mais breve, sua mãe, Keiko Fukushima (福島けい子), esta última, o personagem mais intrigante e oblíquo da narrativa.

A família Fukushima

Ao longo dos meus comentários e análise da personagem interpretada por You (江原由希子 Ehara Yukiko), apontei que Keiko é uma mulher de fala e lógica muito infantil e que, por sua imaturidade, não foi capaz de seguir um planejamento familiar, tendo muitos filhos de pais diferentes e ausentes. Ao mesmo tempo, ela foi incapaz de manter-se junto as quatro crianças e após escondê-las da sociedade, privando-as de uma vida normal, também as abandona em troca de uma proposta de casamento. Ou seja, afirmei categoricamente que a família Fukushima é nitidamente desestruturada e o centro dessa falta de estrutura é a mãe das quatro crianças, principal responsável pela desventura dos filhos. Mas, na ocasião, também levantei um outro questionamento: seria realmente só isso? Não estaria fazendo uma análise superficial da personagem?

A minha tese é que analisar a personagem Keiko apenas por suas características psicológicas, desconsiderando o contexto social no qual ela se encontra é se manter na superfície dos fatos. Por mais desequilibrado, imaturo ou irresponsável que seja o ser humano, suas escolhas e atitudes não são determinadas de forma aparte do contexto social no qual se encontra inserido, porque ser humano algum está imune das influências e determinações sociais.

Essa linha de raciocínio fez então com que eu me questionasse qual seria, no Japão, a realidade das mães solteiras, ou mães solo. E ao fazer algumas pesquisas, constatei que, por detrás da Keiko que Kore-eda nos permite conhecer, há o peso de uma sociedade na qual centenas ou até milhares de mães japonesas solteiras passam por profundas dificuldades financeiras junto com seus filhos, a despeito do avanço social apresentado pelo país.

Conhecer essa realidade até então ignorada por mim, permitiu com que eu tivesse uma outra visão sobre a personagem de Dare mo Shiranai. Não uma visão que justifica suas ações, mas que ao menos volta-se para ela com um olhar mais humano.

Nessa postagem especial apresento algumas informações sobre a situação da mãe solo no Japão e falo um pouco da minha interpretação da personagem Keiko do filme de Kore-eda.

***

A mãe solo (solteira) no Japão

As condições de vida das famílias monoparentais chefiadas por mulheres no Japão nem sempre são as melhores possível, podendo variar bastante de acordo com fatores como: a escolaridade individual da mulher, seu histórico de trabalho, círculo social e até mesmo recursos internos.

Segundo algumas pesquisas que realizei na internet, muitas das mães de família solteiras se encontram na linha da pobreza e até mesmo passam fome. Seus filhos são em média mais pobres e apresentam níveis de escolaridade menor, além de menores perspectivas de crescimento social[1].

No Japão, existe a tendência de que as mulheres ganhem muito menos do que os homens na realização de tarefas similares. Contudo, a situação se tornou ainda mais grave após muitos anos de estagnação econômica ao qual o país se encontrou submetido. Segundo afirma Yoshiaki Nohara, jornalista da agência de notícias nova-iorquina Bloomberg[2], muitos postos de trabalho permanentes no Japão foram sendo gradativamente substituídos por empregos de baixa remuneração com carga horária de meio período ou por contratos. Essa nova realidade trabalhista teria afetado o modo de vida de muitos japoneses, mas de forma especial às mães solo do país que tiveram suas perspectivas de trabalho consideravelmente diminuídas.

Ainda segundo Nohara, a maioria dessas mulheres conseguem se empregara apenas em ocupações temporárias, de meio período ou por contratação, o que lhes dão não só rendimentos menores como poucas garantias de benefícios sociais ou previdenciários. Por conta disso, não é incomum que essas mulheres procurem vários empregos que lhe garantam, no conjunto, o mínimo para suprimir as necessidades do núcleo familiar que chefiam.

Ainda assim, segundo estatísticas apresentadas por Akaishi Chieko, membro do Painel de Especialistas em Apoio a Famílias Monoparentais no Conselho de Segurança Social do governo japonês[3], “mães solteiras que conseguem encontrar e manter posições regulares recebem em média ¥2,7 milhões (R$ 80.730,00) anualmente”, em contraposição àquelas que trabalham no regime de trabalhos temporários, de meio período ou de pagamento por hora, e que acabam por receber entorno de ¥1,25 milhões (R$ 37.375,00) valor que se encontra abaixo da metade da média em relação a todas as famílias japonesas de classe média.

Chieko explica que a origem do problema de tantas mães solo viverem em condição de pobreza está enraizado na discriminação de gênero existente no país e que se combina com o aumento da pobreza e da desigualdade de renda. Segundo a especialista, a desigualdade salarial entre os gêneros no Japão está entre as maiores do mundo industrializado, com as mulheres ganhando salários que no geral são baixos. Ela afirma, inclusive, que a pobreza não é um caso isolado das mães solo, mas um problema que vem crescendo para as mulheres japonesas no geral.

No caso específico das mães que trabalham, afirma Chieko, estas recebem até 60% menos do que os pais que trabalham. Em suas palavras esta disparidade de renda é resultante de “um sistema social construído com base na concepção de que o marido é o chefe da família”. Ela ainda complementa:

“O sistema formou suas raízes nas décadas de 1950 e 1960 para dar apoio à estrutura familiar padrão que consistia em um marido que trabalhava por longas horas fora de casa; uma esposa que ficava em casa para fazer os serviços domésticos, cuidar das crianças e dos idosos (suplementando a renda de seu marido através de trabalhos de meio período quando necessário); e seus filhos. O sistema dá tratamento preferencial para famílias com esposas dependentes através do pagamento de pensões para cônjuges dependentes, da isenção de imposto de renda para o cônjuge e subsídios para o cônjuge pagos por empregadores corporativos”.

Por conta desse sistema, mais da metade das mulheres japonesas param de trabalhar quando casam ou tem seu primeiro filho e passam a se dedicar a família por tempo integral, tornando-se dependente de seu cônjuge. Contudo, declara Chieko, “o peso econômico que o sistema impõe sobre aqueles que se afastam da norma cai desproporcionalmente em cima das mães solteiras, as quais encaram o desafio de conseguir dinheiro o suficiente para criar seus filhos em um mercado de trabalho que foi montado para oferecer nada mais do que ganhos suplementares às mulheres durante os anos de educação de seus filhos”.

O resultado é que as mulheres que chefiam famílias monoparentais encontram dificuldades muito grande para manter seus filhos em um país com elevado custo de vida. Quando não conseguem postos regulares de trabalho, suas famílias entram para a lista daqueles na linha de pobreza ou abaixo delas. Por isso, não é incomum que elas evitem compartilhar com amigos e familiares a realidade de seus relacionamentos, como declara a redação da revista Marie Claire em reportagem de 2017[4].

Paulo Sakamoto, do IPC Digital[5], menciona um caso de 2013, ocorrido no distrito de Kita, em Osaka, no qual uma mãe e seu filho foram encontrados mortos em um apartamento. Segundo ele não havia alimento algum no local e fora encontrado um bilhete com as seguintes palavras: “Eu só queria alimentar o meu filho o suficiente para satisfazê-lo.” Segundo Sakamoto, esse caso foi o motivador para o surgimento de uma ONG japonesa, o grupo “Ação Contra a Pobreza Infantil de Osaka”, que vem trabalhando com mães solteiras em condições de pobreza.

O nível de escolaridade é outro ponto que, conforme declara Chieko, se configura como fator impulsionador das dificuldades encontradas pelas mães solo do Japão. A especialista explica que, no país, possuir um diploma de conclusão do ensino médio é pré-requisito para licenças profissionais e também certificados. Segundo ela, aqueles que não completaram o ensino médio possuem opções de carreira muito limitadas e acabam ou desempregados ou em subempregos nos quais são muito mal pagos. Por conta disso, o nível de escolaridade da mulher é um fator importante no que diz respeito as condições de vida por ela enfrentadas quando se torna uma mãe solo.

Chieko afirma que no Japão existem medidas e programas adotados pelo Estado japonês para prestar auxílio social às mães solteiras ou divorciadas, mas ela adianta que essa assistência pública é inadequada e, por isso, pouco auxiliam para a melhoria da qualidade de vida das famílias monoparentais em situação de pobreza. Segundo a especialista as duas principais formas de assistência públicas disponíveis no país são: o subsídio de educação para as crianças (jidō fuyō teate), que é utilizado principalmente por pais divorciados, e o subsídio infantil (jidō teate), um benefício para famílias de baixa renda com filhos. Porém, ambos possuem pagamentos muito baixos e o governo não oferece ajuda quanto aos custos de seguro social, que, segundo Chieko, são “uniformemente elevados” e “que as famílias japonesas devem pagar aos sistemas de seguro de saúde e de pensões”.

Em suma, pode-se perceber que as condições de vida das mães solo (solteiras) no Japão, mesmo em tempos modernos, podem ser muito difíceis, marcadas por tabus e problemas econômicos, a depender da escolaridade, histórico trabalhista e círculo social da mulher. Isso me fez cogitar a ideia de que situações como estas podem levar muitas mães desesperadas ou que ambicionam para si uma condição de vida mais estável e favorável às atitudes extremadas e criminosas como as adotadas pela personagem de Kore-eda e pela mulher real que inspirou o filme. Todo esse contexto social parece estar nas entre linhas da história de Dare mo Shiranai, mas nem sempre é possível deduzi-lo ou cogitá-lo.

Depois de apresentar algumas estatísticas falarei mais sobre Keiko Fukushima.

Algumas estatísticas

De acordo com o Ministério da Saúde do Japão, 16% das crianças japonesas vivem abaixo da linha da pobreza, número esse que aumenta para 55% entre famílias monoparentais[6].

De acordo com o Ministério do Trabalho, no Japão, o número de famílias de mães solteiras aumentou cerca de 50% entre os anos de 1992 e 2016 (712.000 famílias)[7].

A taxa de pobreza infantil para famílias de mãe solteira que trabalha é de 56%, a mais alta entre os países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico)[8].

Segundo relatório do Governo Metropolitano de Tóquio, dos 1.447 casos de maltrato infantil computados entre março de 2003 e 2004, 32% ocorreram em famílias monoparentais e 31% em domicílios com dificuldades econômicas[9].

A idade média das mães solteiras no Japão é de 40 anos. Destas, 80,8% são divorciadas, 7,8% não se casaram e 7,5% são viúvas[10].

Apenas cerca de 40% das mães solteiras são classificadas como empregadas regulares e mais de 50% são empregadas não-regulares. A proporção entre não-regulares e regulares vem crescendo anualmente[11].

A porcentagem de mães solteiras que possuem apenas o ensino fundamental é de 13,3%[12].

A renda média anual para mães solteiras que não concluíram o ensino médio é de ¥1,29 milhões (R$ 38.571,00)[13].



Keiko Fukushima


Keiko
Se no filme Dare mo Shiranai o menino Akira é o personagem mais notável e interessante, Keiko, sua mãe, é, sem dúvidas, o mais intrigante para mim.

Mais infantil que as próprias crianças, tudo na personagem da atriz You (江原由希子 Ehara Yukiko) mostra um posicionamento estranho, imaturo e irresponsável em relação a vida. Desconsiderar a importância dos estudos, deixar crianças cuidarem de si como se fossem adultos, escondê-las da sociedade, depender delas nas tarefas domésticas, trocar constantemente de parceiro e arriscar a vida de duas crianças pequenas só para omitir sua existência são apenas algumas das ações de Keiko que nos faz pensar que a personalidade da japonesa é das piores possíveis.

É obvio que a atitude de Keiko ao abandonar seus filhos à própria sorte demostra bastante desumanidade por sua parte, mas analisá-la apenas por suas características psicológicas, desconsiderando o contexto social que apresentei acima e no qual ela se encontra, é se manter na superfície dos fatos. Keiko não aparenta ser apenas o algoz, mas, ao mesmo tempo, parece ser também vítima de algo maior do que ela, maior do que aquele apartamento diminuto e com o qual a moça, por sua infantilidade explícita, por sua falta de maturidade contundente, não teve nem forças nem jeito para lidar. Numa sociedade na qual as mães solteiras muitas vezes se vem em condições muito difíceis, Keiko cedeu às soluções fáceis e muito pouco morais.

Primeiramente, é evidente que Keiko é imatura e irresponsável, isso não se discute, porque quem analisa com cuidado a trama criada por Kore-eda percebe que Keiko é pouco afeita a encarar a realidade de forma objetiva. Suas aventuras amorosas inconsequentes deram origem a quatro crianças não planejadas, em um país onde os cultos de vida e para criar um filho são elevadas, levando os casai japoneses a optarem por ter poucos filhos. Entretanto, nem tudo nessa mulher é verdadeiramente infantil, há ali também muito de malícia e isso é fácil de notar quando ela se demonstra empenhada a esconder literalmente a existência de seus filhos. E aqui chegamos ao ponto em que constatamos essa malícia: esconder da sociedade a existência dos filhos nada mais é do que uma estratégia para se alcançar um fim, um casamento que lhe dê estabilidade.

A vida de uma mãe solo (mãe solteira) no Japão está longe de ser uma das melhores. Como vimos, uma grande parcela delas vive com extrema dificuldade financeira estando na linha de pobreza e trabalham em diferentes empregos para conseguirem manterem seus lares. Keiko seria uma delas.

Pertencente ao grupo dos 7,8% das mães solteiras que não se casaram, a personagem do filme não parece ter vários empregos, mas trabalha até muito tarde, quando os seus atrasos não são decorrentes a farras e bebedeiras com conhecidos seus. Além disso, a pouca importância que ela dá a escolarização demonstra que mesmo ela deve ter um nível educacional muito baixo, o que limitariam ainda mais suas possibilidades de conseguir uma colocação profissional com salário maior do que seu trabalho em um departamento de venda de roupas. Ela muito provavelmente possuía uma renda tão baixa quanto as estatísticas japonesas apresentam e notadamente ela jamais conseguiria atingir uma ascensão social por outras vias que não fossem um casamento bem-arranjado.

Cartaz francês do filme.
Diante disso, Keiko prefere sonhar com um futuro melhor e estável que poderia ser garantido pelo casamento, aparentemente a forma mais fácil de ascensão social para a japonesa. Contudo, esse sonho esbarra no mecanismo pelo qual funciona uma sociedade que é ainda muito machista e até certo ponto tradicional: mães solteiras dificilmente se casam, porque dificilmente um homem deseja assumir os filhos de outro.

Keiko, no meu ponto de vista, abandona os filhos porque desejava a estabilidade de um casamento que ela jamais conseguiria sendo mãe de quatro crianças. Que homem se casaria com ela sabendo de sua prole numerosa quando nem os pais biológicos das crianças assumiram a paternidade? Silenciosamente ela tinha consciência disso e, por isso, era fundamental que o mínimo de pessoas soubesse da existência dos filhos.

Como mãe solteira e profissional de baixo nível de escolarização, ela tinha poucas perspectivas de ascender socialmente, ainda mais com quatro crianças para vestir e alimentar. Além disso faltava-lhe a maturidade e a força de vontade para enfrentar esse desafio enorme e cheio de privações.

Aparenta inicialmente ser uma boa mãe, zelosa, gentil e atenciosa, mas ao longo de toda a trama ela age de forma bastante egoísta. Para ela escondê-los estava acima de garantir o bem-estar e a integridade física e emocional das crianças. Transportar os filhos menos em malas de viagem e submetê-los a essa condição aponta para uma negligência velada pela máscara de mãe carinhosa. Além disso, ainda pode-se mencionar a forma como ela põe sobre as costas de Akira um peso desproporcional a sua idade: cuidar da família como se fosse um pequeno adulto. Se não bastasse, ainda questiona ao menino – quando este se queixa de seu novo relacionamento – se ela não podia ser feliz, e culpa o pai de Akira pelo seu infortúnio.

Em resumo, aquela família era produto da falta de maturidade e sentimento de dever e responsabilidade de Keiko e ao mesmo tempo era a amarra que a impedia de ascender à vida que desejava para si. Essa mesma falta de maturidade e responsabilidade condena ela e os filhos a uma vida cheia de mudanças e inconstâncias, onde tudo é provisório e irregular. Sempre que a vizinhança descobre a existência das crianças eles se mudam e, para manter sua condição oficial de solteira, os quatro são impedidos de frequentar uma escola, de sentirem a liberdade de espaços amplos e abertos e de viverem uma vida normal, como a de outra criança qualquer.

Mas porque ela esconde a existência de seus filhos? A resposta não seria tão simples, em boa parte já a respondemos, mas algumas evidências são passiveis de ponderação.

Em primeiro lugar, omitir a existência de quatro crianças reduzindo-as a uma, ajudava conseguir locatários que aceitassem alugar um imóvel para ela e seu filho. Escondê-las era também uma forma de mantê-las incógnitas da sociedade, tornando, inclusive, mais fácil abandoná-las depois.

Em segundo lugar, e bem mais óbvio que o primeiro motivo, não admitir a existência de seus filhos significava manter mais facilmente a imagem de uma mulher solteira e desimpedida, o que facilitava a busca por um parceiro, como já explicamos.

Em terceiro lugar, não matricular as crianças na escola representava uma economia, tendo em vista os gastos elevados com escolarização sem o devido apoio de programas sociais que poderiam ser oferecidos pelo Estado. Se isso não bastasse, a pouca escolarização dela própria poderia ser uma justificativa para a visão estreita e reducionista da mesma em relação a importância das crianças frequentarem a escola.

Em conclusão, sem estruturas psicológicas ou morais suficientes e vítima de um sistema social injusto, Keiko acaba por se tornar algoz de seus filhos. Com um nível de escolaridade baixo e menores perspectivas de crescimento social e profissional, além de uma renda muito baixa, sem ajuda governamental e com muitos filhos para sustentar sozinha, Keiko escolheu a solução mais fácil: abandonar suas crianças à própria sorte e recomeçar com um novo parceiro.

Diria eu que ela é produto de uma sociedade onde a mulher é desvalorizada profissionalmente, onde manter-se empregado é muito difícil, e que força, sobretudo os menos escolarizados, a se submeterem a formas de trabalho não-regulares. Um sistema no qual as mães solos são submetidas à grandes privações e desafios para garantir a alimentação e a escolarização mínima de seus filhos. Desse modo, de forma egoísta ela sacrifica o bem-estar de seus filhos – os únicos inocentes em toda essa trama – em nome de seu próprio conforto. Essa é a Keiko tal qual eu a vejo.






[1] Filhos de mães solteiras se tornam classe baixa no Japão. Disponível em: https://economia.uol.com.br/noticias/bloomberg/2018/06/25/filhos-de-maes-solteiras-se-tornam-classe-baixa-no-japao.htm.
[2] Filhos de mães solteiras se tornam classe baixa no Japão. Disponível em: https://economia.uol.com.br/noticias/bloomberg/2018/06/25/filhos-de-maes-solteiras-se-tornam-classe-baixa-no-japao.htm.
[3] A situação difícil enfrentada pelas "mães solteiras" japonesas. Disponível em: http://www.rukhnoteikoku.com/2016/11/traducao-situacao-dificil-enfrentada.html?m=1.
[4] Preconceito leva mães solo à pobreza, no Japão. Disponível em: https://revistamarieclaire.globo.com/Noticias/noticia/2017/05/preconceito-leva-maes-solo-pobreza-no-japao.html.
[5] ONG: Mães solteiras do Japão enfrentam pobreza, fome e abusos.  Disponível em: http://www.ipcdigital.com/nacional/ong-maes-solteiras-do-japao-enfrentam-pobreza-fome-e-abusos/.
[6] https://revistamarieclaire.globo.com/Noticias/noticia/2017/05/preconceito-leva-maes-solo-pobreza-no-japao.html
[7] https://economia.uol.com.br/noticias/bloomberg/2018/06/25/filhos-de-maes-solteiras-se-tornam-classe-baixa-no-japao.htm
[8] Ibidem.
[9] Ibidem.
[10] http://www.rukhnoteikoku.com/2016/11/traducao-situacao-dificil-enfrentada.html?m=1
[11] Ibidem.
[12] Ibidem.
[13] Ibidem.

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