terça-feira, 8 de novembro de 2016

7ª Arte: O Labirinto do Fauno – Resenha

Um filme que poderia ser também um livro

Por Eric Silva

Desafiando os limites entre fantasia e realidade, o filme espano-mexicano O Labirinto do Fauno é um filme impecavelmente bem construído que certamente daria um livro fabuloso. Pensando nisso a obra foi escolhida por nós para ser primeiro filme a integrar a campanha do #AnoDaEspanha e também o primeiro 7ª Arte de 2016. Nele a mágica dos contos de fadas toma uma atmosfera própria e taciturna e se funde com o horror vivido na Espanha franquista, logo após o fim da Guerra Civil, período que mergulhou o país em uma era de opressão e controle fascista.

Sinopse

1944. A Guerra Civil Espanhola já havia terminado com a vitória dos franquistas, mas alguns focos de resistências republicanas ainda persistiam. Próximo a um destes focos, nas montanhas ao norte de Navarra, o Capitão Vidal (Sergi López) se instala em um antigo moinho isolado no coração do bosque com o objetivo de eliminar os últimos resistentes que se escondiam ali. Para lá ele manda trazer também sua esposa, Carmen (Ariadna Gil), que está nos últimos meses de gravidez, e a enteada Ofélia (Ivana Baquero), uma menina que ainda acredita em contos de fada e que se recusa a aceitar o cruel e autoritário capitão como seu novo pai.

Sendo a única criança no posto militar improvisado, Ofélia faz amizade com Mercedes (Maribel Verdú), uma das cozinheiras da casa e logo descobre que esta trabalha também como informante dos rebeldes, mas decide não denunciá-la. Além disso, a menina descobre as ruínas de um antigo labirinto em cujo centro habitava um fauno (Doug Jones). A estranha criatura lhe conta que ela é a reencarnação de uma princesa que fugiu do submundo e que para ter o direito de retornar ao reino de seus pais deverá cumprir três tarefas que afetarão drasticamente e decidir os rumos da vida de todos, sobretudo da própria menina.

Resenha

Quando imaginei o 7ª Arte, minha inspiração havia nascido de O Labirinto do Fauno. Tinha assistido a película há alguns anos e pensando no conteúdo da campanha do #AnoDaEspanha me recordei dele e de como o mesmo seria um bom livro se assim tivesse sido idealizado. Foi aí que nasceu a ideia do 7ª Arte: falar de filmes que dariam ótimos livros por seus enredos bem elaborados e cativantes, e, claro, falar de adaptações fílmicas de obras literárias conhecidas.

A ideia se tornou ainda mais tentadora quando vi a possibilidade de integrá-la a campanha em homenagem a Espanha, resenhando obras fílmicas espanholas e assim ultrapassando os limites da proposta de itinerário literário, sem, no entanto, perder o foco deste. Pois agora estamos aqui com a resenha do primeiro filme dessa nossa nova linha paralela de discussão que obviamente começaria com O Labirinto do Fauno.

Cartaz promocional do filme
Do diretor mexicano Guillermo del Toro, O Labirinto do Fauno é uma produção espano-mexicana que se ambienta no final das sangrentas batalhas entre nacionalistas e republicanos durante a Guerra Civil Espanhola. No ano de 1944, quando se passa os acontecimentos narrados pelo filme, a guerra oficialmente já havia encontrado seu desfecho com a vitória do regime do General Francisco Franco. Contudo alguns grupos rebeldes ainda resistiam e, nas montanhas ao norte da região de Navarra, um deles buscavam fazer frente a um dos emissários do novo governo, o Capitão Vidal, interpretado no filme pelo ator espanhol Sergi López.

Vidal era um homem de visão estreita, cruel e autoritário, capaz de terríveis atrocidades para completar sua missão de pôr fim aos revoltosos que se escondiam em Navarra. Contudo, sua recente esposa, Carmem, estava grávida de seu primeiro filho, e, achando que este deveria nascer próximo ao pai, Vidal manda buscá-la para que viva com ele no entreposto militar montado nas montanhas onde se escondiam os revoltosos.

Obediente as ordens de seu novo marido Carmem enfrenta a desconfortável viagem de carro e leva consigo também sua primeira filha, Ofélia. Mesmo fragilizada pela gravidez, Carmem tinha a intensão de estreitar a fria e distante relação entre padrasto e enteada. Contudo, Ofélia desprezava a ideia de chamar Vidal de pai e mesmo ele era indiferente. A menina, então, em lugar de cumprir os desejos da mãe, se ocupa de explorar a propriedade.

Em suas andanças pelo bosque que circunda a casa, Ofélia descobre a existência de um antigo labirinto cujo centro abrigava uma passagem para uma câmara subterrânea. Guiada por um inseto que se transmuta em fada, a garota explora a câmara e ali descobre um fauno que dizia-se ser parte da terra e das árvores do bosque. Mais do que isso, a estranha criatura também revela que Ofélia era a reencarnação de uma princesa do reino subterrâneo que após fugir para a superfície havia encontrado a morte entre os homens. Contudo, a espera do retorno de sua filha, o rei havia espalhados pelo mundo passagens para que ela retornasse, e a câmara do labirinto seria a última destas passagens. Ainda assim, para que Ofélia pudesse regressar ao reino de seus pais, deveria realizar três difíceis desafios que poriam sua vida em risco e mudariam o curso de sua história.

O Labirinto do Fauno é um filme criativo e bonito, além de denunciar os horrores cometidos pelos fascistas espanhóis no período. Guilermo Del Toro, que também dirigiu os filmes Mutação, A Espinha do Diabo e Hellboy, capricha na estética de um enredo onde fantasia e realidade parece se fundir e se complementar, tornando o filme uma de suas principais obras, que, em 2016, completou 10 anos de existência.

O Fauno e Ofélia em seu primeiro encontro na camâra subterrânea
Um conto de fantasia sombria e uma narrativa de suspense que mistura ficção com o cenário de conflito de um dos momentos mais nebulosos da história da Espanha, O Labirinto do Fauno é um filme ao mesmo tempo mágico, dramático e soturno. Uma história que desafia o estreito limite entre realidade e fantasia, e que, da sua maneira, repovoa de mágica uma realidade ameaçadora e desesperançada, mas focando nos sentimentos humanos, desde os mais pueris aos mais perturbadores, através de personagens com naturezas por demais distintas e opostas.

Ao mesmo tempo em que acompanhamos as sombrias aventuras de Ofélia vamos presenciando os diversos dramas que percorrem a parte realista da história: os esforços de Vidal em esmagar os revoltosos; o sofrimento de Carmem que padece com as complicações de sua gravidez; e as dificuldades enfrentadas pela cozinheira Mercedes para apoiar secretamente o movimento rebelde e manter oculta as suas ações.

Vários são os motivos que tornam esta produção espanhola um bom filme, e estes mesmos elementos fazem com que o seu enredo seja perfeito para um livro que se encaixaria em diferentes gêneros literários, desde o romance histórico até o suspense e a fantasia.

O primeiro elemento é sua mistura única de fantasia e suspense. Apesar de Ofélia gostar de contos de fada, tudo no Fauno e nas tarefas dadas a ela é sombrio, duvidoso e perigoso. Por causa destas tarefas, Ofélia percorre lugares misteriosos e até repugnantes, além de enfrentar criaturas que mais pareciam sair de seus pesadelos mais sombrios. Mas as coisas se tornam ainda piores quando a menina não consegue cumprir à risca as recomendações do fauno. Desta forma a fantasia se encontra representada no filme pelas criaturas mágicas e pelo universo do reino subterrâneo, por outro lado tudo isso se encontra recoberto por um véu de obscuridade que dá um caráter taciturno ao que poderia ser um conto de fadas. Da incerteza de quais são os objetivos das tarefas de Ofélia, bem como das intensões do fauno, nasce a áurea de suspense da narrativa.

Se isso só já não bastasse, o filme ainda comporta um interessante enredo histórico. Enquanto Ofélia cumpre as tarefas indicadas pelo fauno, no acampamento muitas coisas acontecem. Vidal se demonstra um homem violento e intransigente e propenso a ultrapassar qualquer limite para alcançar os rebeldes. A cena mais forte é quando este, na revista de dois camponeses suspeitos, se irrita com o mais novo deles e o mata com sucessivas pancadas de uma garrafa de vinho. Pouco a pouco o rosto do rapaz se torna algo desforme enquanto o mesmo desfalece, tornando a cena brutal e realista, ao passo que demonstra a violência do regime autoritário que se instalava na Espanha naquele momento.

É notório como o diretor consegue incitar em seu público sentimentos profundos de horror, apreensão, desalento e desesperança. Nos agarramos, tal qual Ofélia, a uma promessa que nos parece uma saída miraculosa, mas que, ao mesmo tempo, soa duvidosa e insidiosa. Por outro lado, os acontecimentos que se desencadeiam em favor de Vidal, confluindo para a piora da saúde de Carmem e para que os segredos de Mercedes sejam descobertos, incitam a garota a ter fé na promissão do retorno ao reino subterrâneo. Elementos como esses, em uma narrativa, são tão perturbadores e atraentes quanto o são nas telas do cinema.

Capitão Vidal, interpretado por Sergi López
Em relação aos personagens, creio que o Capitão Vidal seja o mais impactante na trama. Certamente, Vidal foi concebido como um personagem a representar tudo de ruim que existia no regime franquista, bem como em todos os regimes totalitários da época.

Sádico, machista, autoritário, e movido por um ódio declarado aos esquerdistas, ele impõe o seu poder não só através da distribuição controlada de alimento para que os camponeses não alimentassem os rebeldes, como também através da repressão, da violência, da coesão e da tortura de seus inimigos. Se não fosse seu drama pessoal em relação a história do pai, morto em combate, não haveria um único momento do personagem em que ele não se mostraria como detestável e de natureza fria e desamorosa. Neste ponto concordo com Guilherme Araujo quando este afirma que o ator conseguiu com inteligência não deixar seu personagem caricatural, dando-lhe alguns momentos de vulnerabilidade emocional e o tornando mais realista para o espectador[1].

Na direção contrária, Ofélia é uma menina doce e inteligente, mas rodeada por uma atmosfera de tristeza que apenas se adensa. Em alguns momentos se demonstra ingênua e frágil, mas também bastante determinada. Em sua amizade com Mercedes é bastante madura ao compreender os riscos que a cozinheira corria em ajudar os rebeldes e decidir-se por não denunciá-la, mas também é claro o medo que o padrasto lhe infunde. É aí o reino subterrâneo e a promessa do fauno lhe surge como uma esperança de fuga de uma realidade opressora e sem esperanças.

Cena do filme com o fauno (Doug Jones) e Ofélia (Ivana Baquero)

Acho que, de uma forma única e com linguagem própria, O Labirinto do Fauno não só funde realidade e fantasia, como demonstra com bastante realismo a opressão daqueles tempos. Compõe personagens interessantes e idealistas. Há em seu enredo não só o embate entre grupos distintos como também entre ideais diferentes: socialismo X fascismo, realidade X fantasia. Ao mesmo tempo revisita as feridas da Guerra Civil que no tempo escolhido para trama ainda se encontravam completamente abertas e a desesperança teria lugar por bastante tempo.

O desfecho posso dizer que era esperado, tendo em vista que parte dele é revelado ainda no começo do filme, mas as circunstâncias em que se dá ainda abala o espectador.

Em resumo, penso que este filme daria um bom livro, porque sua história não é nenhum pouco enfadonha, é inteligentemente construída, como uma boa estética e com boas dosagens de fantasia, terror, ação e drama. Além disso é capaz de agradar a diversos gostos pelos diferentes enfoques que a narrativa possui. É ao mesmo tempo uma obra de denúncia histórica e de grande qualidade ficcional e com uma importante contribuição para a compreensão de seu momento histórico. Por fim, como afirma brilhantemente Guilherme Araujo: “Não é um filme que apenas nos deslumbra com estética ímpar, mas também com uma complexa densidade emocional”.

A película é uma produção dos estúdios Picasso, Tequila Gang, Esperanto Filmoj, Sententia Entertainment, Telecinco e OMM. Entrou em cartaz no ano de 2006 e foi ganhadora do Oscar como melhor direção de arte, melhor fotografia e melhor maquiagem. Venceu também o Globo de Ouro como melhor filme estrangeiro, além de conquistar premiações em categorias diversas do Independent Spirit Awards, do BAFTA e da premiação Goya.

Tem duração de 118 minutos e abaixo você pode conferir o trailer do filme que consegue traduzir a atmosfera sombria e ao mesmo tempo mágica que permeia todo o filme.

Trailer




Postagens Relacionadas







[1] http://www.loucosporfilmes.net/2016/10/estreou-ha-10-anos-o-labirinto-do-fauno.html

domingo, 6 de novembro de 2016

7ª Arte

Por Eric Silva

Olá, Pessoal.

Quando o Conhecer Tudo nasceu a ideia inicial era construir um blog de conhecimento geral, que falasse de tudo um pouco. Mas os anos foram passando e o projeto ficou parado por muito tempo. Neste ínterim a nossa proposta foi tomando outros contornos e Conhecer Tudo se tornou um blog literário. Mas se nossas veias são literárias, o sangue que nos nutre é múltiplo. Estamos aqui para conhecer o mundo nas suas mais diversas formas das formas mais diversas. Prova disso são as Postagens Especiais inspiradas nos livros que lemos mas cujo tema central não são literalmente estes livros, mas questões por eles abordadas, ou sobre lugares onde as histórias se passam.

Hoje, eu venho para apresentar aos nossos leitores uma outra vertente que pretendemos discutir em nossos textos: o cinema. Este projeto terá como título 7ª Arte e traremos para vocês nossa opinião de bons filmes, antigos e recentes que poderiam ser livros ou que forma inspirados em bons livros. Como vocês vêm, falaremos de cinema, mas a veia da discussão continuará permeando o universo literário. Dessa forma o que buscaremos explorar nas nossas resenhas é a história destes filmes: contextos, enredo e personagens. Não será uma visão crítica sobre a fotografia, o figurino, a atuação dos atores ou design de cenários, ainda que um ou outro desses elementos possam ser abordados.

Assim como em nossas resenhas sobre livros, no 7ª Arte falaremos um pouco dos filmes, nossa opinião sobre eles, paralelos entre a versão literária e fílmica e, no caso de filmes que ainda não são livros apontaremos porque achamos que estas películas dariam boas obras literárias. Assim o 7ª Arte unirá duas paixões: cinema e literatura.

Espero que gostem desse nosso novo projeto.

Obrigado pela atenção,
Eric Silva

Filmes do 7ª Arte

1. O Labirinto do Fauno (Espanha) - filme do diretor Guillermo del Toro
2. La Lengua de las Mariposas (Espanha) - filme do diretor José Luis Cuerda 
3. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (Brasil) - filme do diretor Daniel Ribeiro
4. Que Horas Ela Volta? (Brasil) - filme da diretora Anna Muylaert

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Marcelino Pão e Vinho – José María Sánchez-Silva – Resenha

Por Eric Silva
Diga-nos o que achou da resenha nos comentários.

Está sem tempo para ler? Ouça a nossa resenha, basta clicar no play.


“O menino foi dando a volta até colocar-se debaixo do seu olhar. Jesus estava muito fraco e a barba caía-lhe aos borbotões sobre o peito; tinha as faces encovadas e seu olhar despertava muita pena em Marcelino. Marcelino vira muitas vezes Jesus, mas sempre pintado no quadro do altar da capela ou em crucifixos pequenos, como se fossem de brinquedo, nos rosários dos frades. Mas nunca havia visto um “de verdade” como agora, com todo o corpo nu e que se podia contornar com os braços, havendo espaço por trás. Então, tocando-lhe as pernas magras e duras, ergueu os olhos para o Senhor e disse-lhe, sem rodeios:— Você tem cara de fome!


Sexto livro da Campanha 2016 #AnoDaEspanha, Marcelino Pão e Vinho é um pequeno e delicado livro religioso publicado na Espanha em 1953 e de autoria do escritor José María Sánchez-Silva. Nesta que foi sua obra mais conhecida, Sánchez-Silva conta a história de Marcelino, um menino inteligente, carinhoso e bastante travesso que tendo sido abandonado na porta de um convento franciscano foi criado e educado por doze frades que ali viviam. Numa narrativa singela mas carregada de significados, Sánchez-Silva traz uma história comovente e que cumpre também um claro papel de ensinar às crianças um pouco da crença e dos valores católicos.

Sinopse

Em um pequeno vilarejo do interior da Espanha fazia alguns anos que frades franciscanos haviam erguido, para que lhes servisse de abrigo, um pequeno e humilde convento. O pequeno prédio havia sido construído por eles mesmos a partir das ruínas de uma granja cedidas aos mesmos pela prefeitura para que ali os religiosos residissem da forma que melhor lhes provessem.

Na humildade de seu lar, os franciscanos viviam e realizavam suas obrigações religiosas, sobrevivendo das esmolas que recebiam, pois como lhes impunham os preceitos da Ordem, não podiam conservar bens próprios, devendo viver da caridade cristã. Mas eis que na manhã em que nascia um novo século, os frades despertaram com uma surpresa em sua porta que mudariam suas vidas e também de todo o vilarejo: uma criança que ali fora abandonada enrolada em uma trouxa, o pequeno Marcelino.

Após batizarem a criança e tendo sido em vão os esforços de encontrar responsáveis para ela, os religiosos decidem conservar o menino entre eles e criarem-no da melhor forma possível que a já humilde vida franciscana permitisse. É em meio aos frades que Marcelino crescerá levado e algumas vezes maldoso com os animais, mas com um destino que já mais ninguém poderia supor.

Resenha

Lembro que quando eu era criança havia visto algumas vezes na televisão um desenho sobre um menino travesso que vivia entre frades franciscanos e que aprontava grandes confusões no pequeno convento onde moravam, brincando com os animais e pregando peças nos religiosos. Naquela época Marcelino Pão e Vinho não me chamou muita atenção e, mesmo sendo um catequizando, um desenho religioso me causavam mais tédio do que interesse. Coisas da infância, porque quando já era um pouco maior acordava cedo aos domingos para assistir os desenhos bíblicos que passavam na televisão.

Contudo, jamais tinha suposto que voltaria a falar de Marcelino Pão e Vinho, obra do escritor espanhol José María Sánchez-Silva. Só esse ano, com a campanha do #AnoDaEspanha, descobri que aquele desenho, que na infância não havia me cativado, não era só mais uma obra voltada para o público infantil, mas a adaptação de uma obra espanhola de sucesso que nascera como livro e que depois fora adaptada para a TV e o cinema.

Marcelino Pão e Vinho é uma narrativa simples e delicada onde claramente se vê a intensão de Sánchez-Silva em transmitir às crianças as crenças e os dogmas da fé católica, ensinar-lhes sobre a vida e sobre a religião. 

A Plaza Major, na cidade de La Alberca, foi um dos cenário
da adpatação filmica do livro Marcelino Pão e Vinho. Criative Commons.
Marcelino é um menino arteiro, que passa seus dias a fazer diversas travessuras com os frades, brincando com seu amigo imaginário, Manuel, e fazendo maldades com os pequenos animais que encontra no terreiro do convento. Mas em todas as suas ações não existe uma maldade deliberada, mas apenas as traquinagens de uma criança solitária, que vivendo dentro de uma casa de adultos onde todos tinham tantos deveres a cumprir, buscava distrair-se do modo que podia. Tinha certeza que era amado e os frades procuravam lhe ser atenciosos, mas ainda faltava ao menino a referência de uma mãe, e a companhia de outras crianças.

[SPOILERS em itálico] Porém, tudo muda para Marcelino quando ele encontra no sótão do convento a imagem de um Cristo crucificado. Marcelino que nunca tinha visto uma representação tão grande de Cristo começa a falar com a imagem que lhe responde suas perguntas e desce da cruz para conversar e lhe contar histórias. Bastante comovido com as condições de penúria em que encontrara Jesus, o menino decide, todos os dias, leva-lhe, em segredo, algum alimento, principalmente o pão e o vinho que Jesus comia com agradecimento.

[SPOILERS] Com o tempo Marcelino vai mantendo escondido dos frades seu novo amigo, até que estes mesmos desconfiam da comida que some e das escapadelas do menino, até o dia em que Jesus resolve atender um pedido de Marcelino e reuni-lo com a mãe no céu. Os frades que, por detrás das frestas da porta do sótão, observavam a conversa entre o menino e a imagem deram tudo aquilo por milagre quando a imagem tomou em seu colo o menino e o conduziu ao sono eterno.

[SPOILERS] O restante do enredo centra-se na viagem de Marcelino pelo céu ao lado de seu Anjo da Guarda em busca de se reencontrar com sua mãe. A medida que caminham pelas várias paisagens do paraíso e conversam, em flashbacks, o autor vai contando algumas das traquinagens do menino quando ainda estava vivo. Também vai sendo narrado o que acontecia aos frades na Terra após a morte de Marcelino e de como as circunstancias como esta aconteceu ter sido tomada pelas pessoas como um sinal de um milagre divino. Nessas passagens vamos ficando sabendo de que forma Marcelino havia sido abandonado e o que acontecera aos seus pais, bem como o destino do convento onde por tantos anos o menino havia vivido.

Vista frontal da Capela de El Cristo Caloco que serviu de
cenário para a versão filmica do livro. Critive Commons.
Trata-se de uma narrativa curta e bastante singela, apesar de muito bem narrada, mas que emociona seus leitores pela delicadeza de sua história e pelo destino comovente dado a criança. Esta delicadeza se expressa no ato dos frades em abrigarem a criança, no carinho que tinham pelo menino, na forma como lhe ensinavam sobre o mundo e sobre a fé e até mesmo nas travessuras de Marcelino e na forma como este buscava fugir do castigo. [SPOILERS em itálico] Mesmo a forma como Marcelino deixa o mundo e a maneira como o menino nomeia cada frade com alusão aos papéis que cada um possuíam no convento (Frei Papinha, Frei Dodói, Frei Porta, Frei Blém-Blém), mesmo aí podemos sentir a delicadeza da história de Marcelino Pão e Vinho. Um livro que não fala só de religião – ainda que esse seja o foco majoritário – mas também, de amor, de abandono, da infância, da morte, do respeito aos animais e das pequenas maldades e traquinagens infantis que não enxergam maiores consequências em seus atos. São estes elementos que deixam claro o caráter educativo-religioso do livro.

[SPOILERS] Uma coisa que acho válida ressaltar é que mesmo com a morte de Marcelino, de forma tão inesperada e até abrupta, em minha leitura não tive aquela sensação de perda que o leitor sente quando no enredo um personagem morre. Não sofri. Acho que a caminhada de Marcelino ao lado do anjo, afasta da narrativa a imagem da morte como sendo o fim de tudo. Ao contrário ela evoca a ideia de continuidade, da morte como apenas uma passagem para uma outra vida melhor e mais plena. Acho que esta era a ideia inicial de Sánchez-Silva: falar da morte como algo que não se deve lamentar, mas como uma passagem.

O livro foi publicado por Sánchez-Silva no ano de 1953 e um ano depois a trama foi adaptada para o cinema pelo diretor húngaro Ladislao Vajda, sendo um dos maiores êxitos do cinema espanhol[1]. No papel do travesso Marcelino atuou, aos 8 anos de idade, o ator espanhol Pablito Calvo. Como em seu livro Sánchez-Silva não revela o nome do vilarejo que serve de cenário a trama, no filme Vajda usa como cenários a pequena cidade espanhola de La Alberca, localizada na província de Salamanca, e a capela do Cristo Caloco em El Espinar, província de Segóvia, onde é criada toda a atmosfera do pequeno convento franciscano[2].

Por fim, gostaria de deixar uma nota pessoal como comentário final. Coincidência ou não, durante a semana em que estive lendo este livro, meu vizinho, que é muito religioso, passou as manhãs ouvindo canções de canto gregoriano, muito comuns entre os monges franciscanos. Engraçado que eu nunca tinha ouvido ele escutar este tipo de música, o que me deixou bastante curioso. Nem imagina ele que, enquanto ouvia suas canções, eu lia a história de Marcelino e dos frades que em um gesto de amor e compaixão se dedicaram a sua criação.

A edição lida é da Editora Record, do ano de 2005 e possui 176 páginas. Abaixo deixo um trecho do filme de Ladislao Vajda que entrou em cartaz, na Espanha, no ano de 1954.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Soldados de Salamina – Javier Cercas – Resenha

Por Eric Silva


Soldados de Salamina
é uma narrativa que consegue misturar realidade e ficção de tal forma que se torna impossível separar aquilo que é real daquilo que é apenas ficcional. É desta forma que Javier Cercas, quinto escritor lido na campanha 2016 #AnoDaEspanha, nos conta um pouco da história da Guerra Civil Espanhola ocorrida na década de 1930. Neste livro, o autor, que também figura como um dos personagens da narrativa, nos conta a trajetória de Rafael Sánchez Mazas, um dos importantes nomes que contribuíram para a entrada do fascismo na Espanha e a consequente ascensão do ditador Franco ao poder. Uma narrativa e também um relato real, Soldados de Salamina é mais um livro a falar de um dos períodos mais conturbado e sombrio da história espanhola.

Sinopse

Javier Cercas é um escritor e jornalista que após se desiludir com sua carreira literária resolveu retornar ao jornalismo. Porém tudo muda para Javier depois que em uma confusa entrevista com Rafael Sánchez Ferlosio este lhe conta a história de como seu pai, Rafael Sánchez Mazas, um dos membros fundadores da Falange espanhola[1], havia conseguido sobreviver a seu fuzilamento já nos últimos dias da Guerra Civil Espanhola e fugido das últimas tropas republicanas que se encaminhavam para as fronteiras da Espanha com a França. Inquieto com a forma como a história de Mazas se desenrola, Javier decide investigar a fundo e escrever sobre aquele acontecimento que não era apenas mais um dos muitos ocorridos no momento mais funesto da história espanhola, como também foi contributivo para a legitimação do arbitrário e ditatorial governo franquista que viria em seguida.


Resenha

É impossível falar de Soldados de Salamina, livro do espanhol Javier Cercas e quinto da nossa campanha do #AnoDaEspanha, sem que se fale antes do que foi a Guerra Civil Espanhola, um dos maiores e mais importantes conflitos ocorridos em solo espanhol e que jogou o país em um regime ditatorial fascista de quase quatro décadas (1939 a 1976). Por isso começaremos com um resumo muitíssimo breve e até simplista dos fatos históricos (nos dedicaremos melhor a eles em outro momento) e depois falarei do livro.

Um pouco de história

Barricada montada pelas ruas das cidades foram comuns
 durante o conflito

A Espanha da década de 1930 passava por grandes dificuldades econômicas em decorrência da depressão gerada pela crise de 29. Em meio ao cenário econômico muito pouco favorável, sobretudo, para as classes mais pobres da população, o panorama político se encontrava dividido e ao longo desta década dois grupos contrários emergem no cenário ideológico e político espanhol: ao lado dos Nacionalistas, a Falange Espanhola, representada por grupos conservadores da elite defensores de um regime totalitário de cunho fascista no país, e, do lado dos Republicanos, a Frente Popular, composta por líderes socialistas, anarquistas e comunistas desejosos de uma mudança social mais profunda.

Em 1936 a esquerda sob ao poder com Manuel Azaña Díaz, que teve como primeiro-ministro Largo Caballero, conhecido político socialista espanhol[2] que tentara implantar seu projeto de reforma agrária e trabalhista. Logo é crescente a insatisfação dos setores conservadores da sociedade espanhola (monarquia, grandes proprietários de terras, membros da Igreja Católica e o Exército) e que levou os falangistas, apoiados pelo Exército insurgente sob o comando do general Franco[3], a tentarem um golpe de Estado que, no entanto, fracassou, mas que deu início a guerra civil[4].

No combate que se inicia em 36, de um lado os nacionalistas com as tropas do Exército sob o comando de Franco iam sistematicamente dominando grandes parcelas do país a exemplo de Navarra, Castilha, Galícia, partes da Andalucía e Aragon, enquanto os republicanos se entrincheiravam nas regiões de Madri, Valencia e Barcelona, mais ricas, industrializadas[5] e onde o movimento sindical era mais forte e organizado.

Contudo, em 1939, os nacionalistas que além do Exército, contavam com o apoio da Alemanha Nazista e da Itália Fascista vencem os Republicanos, cujas tropas resistentes eram composta em sua maioria pelos trabalhadores organizados pelos sindicatos. Findada a guerra Franco instaura um regime ditatorial que perdurará até mesmo após sua morte.

Por sua vez, os momentos finais da batalha foram marcados por muitos episódios de fuzilamentos em massa de inimigos políticos cometidos tanto pelos republicanos como pelos nacionalistas, estes últimos bastante citados em outra obra resenhada aqui no blog: A Sombra do Vento, de Zafón, e cujo cenário da trama é a Barcelona franquista, ou seja, posterior ao fim do conflito. Porém, diferentemente, o foco da narrativa de Javier Cercas se centra no episódio de um dos fuzilamentos cometidos pelos republicanos.

O Livro

Fotografia de Rafal Sánchez Mazas, um dos fundadores
da Falange espanhola.
Soldados de Salamina situado nos tempos atuais vai, através da investigação jornalística de Javier Cercas – que além do autor do livro é também seu personagem principal –, recriar os conturbados momentos finais da guerra através da aventura de Rafael Sánchez Mazas, um dos fundadores da Falange que escapa de ser fuzilado pelos republicanos.

Mazas era um literato, um escritor oriundo de uma família espanhola tradicional que inspirado pelas ideias fascistas que conhecera na Itália ajudou na fundação da Falange Espanhola e trabalhou ativamente para a difusão de suas ideias, tomando parte no conflito civil que se desenrolou anos depois. Em 1937, Sánchez Mazas foge da embaixada chilena, onde se encontrava refugiado, com o objetivo de tentar atravessar a fronteira francesa, mas acaba por não fazê-lo e passa a liderar um destacamento dos Nacionalistas. Contudo, pouco depois é preso e levado ao barco Uruguay que se encontrava atracado em Barcelona sob o poder dos Republicanos.

Em 39, com outros presos políticos é levado ao santuário de Santa Maria de del Collell, onde se dá o episódio do fuzilamento do qual Mazas escapa por quase milagre e pela omissão de um soldado republicano que não o mata e nem o entrega aos seus superiores após encontrar o fugitivo em um bosque. É graças aquele inesperado e inexplicável ato do soldado republicano que de fato Sánchez Mazas consegue escapar da morte. Dali o falangista foge sem rumo pela região, conta com a ajuda de desertores locais que o encontram e sobrevive. Contudo muito pouco se sabia do que acontecera entre o momento de sua fuga do fuzilamento e o dia em que Sánchez se reuniu aos nacionalistas.

Santuário de Santa Maria del Collell onde Sánchez Mazas
ficou preso até o fuzilamento. Imagem de Olga Gairin
Após ouvir toda essa história do próprio filho de Mazas, Javier fica obcecado pelo que teria acontecido ao falangista durante o tempo em que ele ficara vagando pelos bosques da região de Cornellà de Terri. Movido pelo desejo de restituir os passos do falangista e narrá-lo através de um relato real, o jornalista é levado a uma complicada busca por informações e pelas pessoas que ajudaram Sánchez Mazas e vivenciaram com ele aqueles momentos confusos.

Soldados de Salamina é daqueles livros que não possui um grande mistério, nem muita ação, ou um caso chocante, nem é mesmo uma narrativa filosoficamente complexa. Todavia, o valor intrínseco da narrativa está naquilo que ela te ensina sobre um momento histórico importante que marcou um país e cujos desdobramentos podem ser sentidos até hoje. Por isso é daqueles livros que falam sobre a aventura humana de viver, sobretudo, em sociedade.

Por tratar de um personagem real, com uma história que realmente aconteceu é um tanto complicado no livro saber o que é real e o que é ficcional porque ambos se misturam. Se isso não bastasse outros personagens também são reais e centrais na trama a começar pelo autor da obra, Javier Cercas, e de seu amigo, o também escritor Roberto Bolaño.

Foto da região de Cornellà del Terri, por onde Sánchez Mazas vagueia
por alguns dias. A cachoeira da imagem é Salt de Can Figa e não aparece
na narrativa. Fotografia de Carme Musquera
O livro é dividido em três grandes capítulos. No primeiro somos apresentados a Javier Cercas que além de falar de sua malsucedida carreira literária nos explica como chegou a Sánchez Mazas e, ao longo do capítulo, vamos acompanhando as suas investigações do passado do falangista. Na segunda parte do livro, o jornalista segue narrando suas descobertas nos dando detalhes da vida e da trajetória de Mazas durante os conturbados anos da guerra. Porém insatisfeito com o resultado e sentindo que seu relato está incompleto, Javier nos conduz ao terceiro e último capítulo no qual emerge um outro personagem, Miralles, um anônimo, ao contrário de Sánchez Mazas, mas que dava rosto aos muitos que corajosamente combateram os fascistas, ajudaram a escrever a História, mas foram por ela esquecidos. É neste último capítulo que aos pouco vamos nos dando conta de que o objetivo de Javier não era de fato relatar a aventura vivida por Sánchez Mazas, mas compreender porque o soldado que o encontrou no bosque logo após sua fuga não o matou ou o delatou aos seus oficiais.

Mesmo o livro tendo tudo para ser chato não o achei, muito provavelmente porque estou muito envolvido com tudo que diz respeito à Espanha, mas também porque é a obra de um autor cujo talento é bastante reconhecido. 

Minha curiosidade sobre a Guerra Civil Espanhola já era evidente porque este importante momento da história espanhola já havia perpassado outras leituras, como já mencionei. Também foi durante a Guerra Civil que Garcia Lorca, um dos autores que li durante a campanha [vide], perdeu sua vida sendo mais um dos que engrossou as fileiras de prisioneiros fuzilados durante o conflito. A guerra civil e o posterior regime ditatorial marcou a vida e a literatura da Espanha, isso para mim é mais do que evidente e com Soldados de Salamina pude conhecer um pouco mais o cenário da época, fechando um ciclo que se iniciou com a Sombra do Vento.

Javier Cercas é escritor e tradutor espanhol.
Soldados de Salamina é considerado seu magnus opus.
Além do mais, a história de Mazas é curiosa porque oportuniza ao leitor conhecer mais de perto quem foram aqueles que irresponsavelmente alimentaram uma das doutrinas políticas mais sádicas e desprezíveis da história, o nazifascismo, e que conduziu a história da Europa para um dos seus momentos mais soturnos. Ao mesmo tempo o livro traz um importante ensinamento que o leitor só encontrará já no final do terceiro capítulo.

Através de Miralles Javier desperta para algo que é fundamental na vida humana, mas que toma contornos mais nítidos em tempo de guerra quando muitas vidas são estupidamente interrompidas e depois esquecidas, virão números, baixas: só morremos de fato quando não resta quem se lembre de nós. Isso é algo que já refleti muito, principalmente quando penso nos milhões de seres humanos que nos precederam, mas que apenas um pequeno punhado até hoje são lembrados. Aqueles de fato já estão mortos, porque para a História eles já não possuem rostos ou nomes.

Recomendo o livro para quem gosta de história, para quem quer conhecer mais da Espanha, mas para os que buscam apenas mais uma distração, advirto que Soldados de Salamina pode não ser o melhor dos livros para isso. Por fim, o livro foi adaptado para o cinema em 2003 pelo diretor David Trueba.

A edição lida é da Editora Asa Edições, do ano de 2002 e possui 176 páginas.





[1] Organização política espanhola inspirada no fascismo italiano fundado no ano de 1933.
[2] http://historiadomundo.uol.com.br/idade-contemporanea/guerra-civil-espanhola.htm
[3] Francisco Franco Bahamonde foi um militar, chefe de Estado e ditador espanhol, principal líder da revolta nacionalista que deu origem a Guerra Civil Espanhola.
[4] http://www.infoescola.com/historia/guerra-civil-espanhola/
[5] http://www.infoescola.com/historia/guerra-civil-espanhola/

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