segunda-feira, 5 de novembro de 2018

7ª Arte: Kimi no na wa (Your Name) – Resenha


Por Eric Silva


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Quem foi que disse que um tema desgastado não produz um bom filme? Com uma qualidade gráfica surpreendente e um roteiro inteligente, Your name (no original, Kimi no na wa) mostra que mesmo um tema batido como a troca de corpos entre duas pessoas pode gerar um filme belo, poético e delicado e com alguma profundidade.

Confira o segundo 7ª Arte da III Campanha Anual de Literatura que comemora o ano do Japão no Conhecer Tudo.

Sinopse

“Mitsuha Miyamizu é uma colegial do interior do Japão que entediada com a monotonia e pequenez de sua cidade deseja um dia poder viver numa cidade grande como a capital japonesa, Tóquio. Enquanto isso, Taki Tachibana, é um garoto citadino que trabalha em meio período num restaurante italiano em Tóquio, desenhista talentoso que sonha um dia se tornar arquiteto. Os dois vivem realidades diferentes em lugares distintos e não se conhecem, mas estão misteriosamente conectados por um fenômeno sobrenatural que decidirá a vida de ambos.


Resenha
Um enredo delicado

Your Name ("Seu Nome"), ou no original, Kimi no Na wa (君の名は。) é um drama romântico jovem com uma boa dosagem de humor, realizado e escrito pelo japonês Makoto Shinkai (O Jardim das Palavras) e lançado em 2016. Baseado em um romance homônimo escrito por Makoto, o roteiro da película é muito dinâmico e conta a história de dois adolescentes, Mitsuha e Taki, que misteriosamente mudam de corpo após adormecerem, vivendo um a vida do outro ao longo de todo o dia.

Mitsuha Miyamizu (宮水 三葉) é uma garota de 17 anos que mora na pequena cidade de Itomori localizada no interior montanhoso do Japão. Filha do prefeito da pequena prefeitura, ela vive uma vida pacata ao lado da irmã menor, Yotsuha (四葉), e da avó, Hitoha (一葉). As três cuidam juntas do antigo templo xintoísta da família e que havia sido rejeitado e abandonado pelo pai, Toshiki Miyamizu (宮水 俊樹), após a morte da mãe das meninas. Por conta disso, Mitsuha e sua avó possuem uma difícil relação com Toshiki. Só em seus poucos momentos livre a garota fica ao lado de seus dois melhores amigos, Sayaka Natori (名取 早耶香)

Por sua vez, Taki Tachibana (立花 ) vive muito distante da cidade de Mitsuha, na capital japonesa, Tóquio. Taki é ainda um colegial e um garoto comum, que faz trabalhos de meio período como garçom para ter seu próprio dinheiro e é apaixonado por sua colega de trabalho e senpai[1], Miki Okudera (奥寺 ミキ). Ele vive sozinho com o pai em um pequeno apartamento de um conjunto habitacional e divide parte do seu tempo livre com os amigos de escola, Shinta Takagi (高木 真太) e Tsukasa Fujii (藤井 ).

A chegada de um cometa que se aproxima da Terra é o gatilho para desencadear o misterioso fenômeno sobrenatural que os obrigam a trocarem de corpo todas as vezes que adormecem. Daquele dia em diante, e sem controle algum do fenômeno, os dois passam a viver e enfrentar os desafios um do outro, enquanto trocam mensagens para manter o mínimo de controle sobre suas próprias vidas e evitar problemas posteriores por conta das ações um do outro durante as trocas. Eles, pouco a pouco, vão aprendendo a conviverem com suas diferenças e com o mundo novo que cada um experimenta a partir daquela experiência única.

Your Name parece à primeira vista ter uma trama simples, pouco estimulante e original, contudo a história conhece reviravoltas profundas no decorrer do desenvolvimento e, no fim, se torna uma corrida contra o tempo para evitar um enorme desastre que influiria na vida de todos, mas principalmente dos dois colegiais, tendo repercussão mesmo depois de adultos.

O filme de Shinkai possui uma trama instigante e inventiva que se transforma ao longo do desenvolvimento da narrativa, surpreendendo o espectador ao apresentar uma história mais complexa por trás da trama de troca de corpos. Isso, aliado a um trabalho que reuniu talentos extraordinários para o desenho de personagens e de cenários realistas, me fez fica interessado pelo filme até o último segundo quando o nome da película é novamente apresentado e sobe a lista do casting.

Os diálogos são limpos e não confundem o expectador que vai compreendendo junto com os personagens a origem do fenômeno que acometeu a vida de Taki e Mitsuha.


Com um enredo que trata de temas leves, Your Name faz uma reflexão sobre a vida e sobre a ligação das pessoas com o tempo. A relatividade do tempo é algo subjacente na trama que tem uma profunda pegada mística dando significados profundos, por exemplo, aos trançados confeccionados pelas três mulheres da família Miyamizu. Nessa pegada, o filme fala da flexibilidade do tempo, de como ele é nossos inimigo e aliado, mas principalmente da ligação imaterial e profunda entre as pessoas que estão predestinadas a algo maior que elas.

Mesmo trabalhando com temas com uma certa curva religiosa-mitológica o filme mantêm-se crível e não perde verossimilhança mesmo quando a trama se torna mais complexa. Outros temas ligados a juventude são tratados muito à tangente e há algumas brincadeiras relacionadas ao sexo demonstrando a curiosidade e o constrangimento de conhecer o corpo do sexo oposto.

Crítica

Your Name tem um tema batido (troca de corpos), mas seu roteiro é inteligente e poético. O humor se equilibra em boas dosagens com o romance e o dramático, alternando-se entre si enquanto estes dois últimos são construídos e desenvolvidos dentro da história. Esse é daqueles filmes que mudam de ritmo no meio da narrativa, mas sem perder o equilíbrio ou tornar a enredo ilógico ou forçado.

O filme é fluido e estável e atrama se desenvolve de forma equilibrada sem ser apressada demais nem demasiadamente lenta. Apesar de a trama ter tudo para se tornar confusa conseguimos entendê-la com muita facilidade, porque em momento nenhum a história perde verossimilhança.

Os personagens são bastante criveis e reais, o que é surpreendente se tratando de uma animação de romance com toques sobrenaturais. Normalmente os romances são bastante estereotipados, mas no caso de Your Name os personagens parecem bastante naturais, sobretudo Taki, que além de rebelde a sua medida, criativo e trabalhador é um tanto pervertido (sim ele não resiste em tocar seios!!), mostrando-se um adolescente comum. A vida de Mitsuha não é propriamente comum (“sacerdotisa” e filha de prefeito), mas em todo o resto é uma moça com sonhos e todos os desejos, neuras e gostos de uma adolescente qualquer.

Os principais personagens da trama são cativantes e o expectador se identifica com os protagonistas de imediato, sobretudo à medida que eles vão ficando desesperados tentando concertar suas vidas e ao mesmo tempo apoiar um ao outro em seus problemas mais emergenciais. É um filme que diverte e emociona os mais românticos que veem no lirismo de uma animação caprichada com um roteiro curioso que fala de família, juventude e tradições numa mistura interessante e até certa medida tocante.

A dublagem brasileira soa um pouco estranha e por isso preferi assistir ao filme em versão legendada. Em parte, minha preferência é porque estou muito acostumado a assistir animação japonesa em sua língua materna (legendado, obviamente), o que me faz apreciar mais a dublagem dos personagens animados em japonês. Todavia, achei estranha a dublagem brasileira que me pareceu um pouco mecânica e pouco natural. Algo completamente normal, quando imaginamos as diferenças entre ambas as línguas, suas estruturas fonéticas e silábicas.


Mas, sem dúvidas, a cenografia é o principal destaque deste que está entre uma das mais bem desenhadas animações japonesas que assisti. Tudo em Your Name foi desenhado para ser absurdamente belo e poético e para enfatizar a beleza das paisagens urbanas e campestres do Japão. Não obstante, esse belo e poético é idealizado de uma forma equilibrada para que as cenas fossem compostas de forma complementar aos cenários sem que esses roubassem completamente a atenção do expectador.

Os cenários e paisagens com seus traçados perfeitos se destacam em uma animação fluída com movimentos delicados e bem-feitos. Impressiona a riqueza de detalhes e a paleta de cores variada que explora com quase perfeição cores claras que tentam imitar a luminosidade dos ambientes. Se fosse um filme live-action, Your Name se destacaria por explorar lindamente as luzes de suas locações de filmagem.

No cenário só o que destoa um pouco é o desenho dos personagens, um pouco mais simplificado quando comparado aos planos de fundo riquíssimos e detalhistas.

Os planos e enquadramentos da câmera também são elementos significativos na animação. A câmera ora sai dos personagens para coisas diminutas como os detalhes de um trançado artesanal ou uma porta de correr sendo aberta até panorâmicas espetaculares que cobrem detalhados cenários urbanos e campestres. O resultado é de uma beleza e delicadeza que encanta o espectador.


Outro ponto a se destacar em relação a cenografia é a sua profunda ligação com uma narrativa que fala de dois diferentes estilos de vida. De um lado temos Tóquio, uma grande metrópole sedutora, moderna, barulhenta e diversa, mas que contrasta com a pequenez da bastante pacata e enfadonha Itomori, uma povoação ainda muito tradicional e às margens de um tranquilo lago. O contraste de cenários (cidade-campo) que se alternam torna ainda mais lindo um filme que não explora unicamente uma boa narrativa, mas a preciosidade do talento da equipe de desenho.

Por sua vez, a trilha sonora é muito variada. Indo de ritmos mais tranquilos com um pouco de jazz e música clássica instrumental, aos mais banais, delicados ou agitados, a trilha sonora confere ritmo a narrativa ou se liga a intensidade dos acontecimentos, mas na maior parte do tempo os sons são formados pela cacofonia típica de grandes metrópoles e pelas soadas comuns às pequenas cidades. Grilos, cigarras, pássaros e o trânsito são elementos sonoros comuns, mas as composições da banda Radwimps com seu estilo J-rock (Japanese rock, 日本のロック, nihon no rokku) são o principal destaque dentro de uma trilha sonora muito bem equilibrada e consonante com toda a trama romântica e jovem da narrativa.

Conclusão

Enfim, Your Name é um filme belo, tanto pelos cenários estonteantes muito bem desenhados, como pelo enquadramento da câmera ou pelo roteiro que surpreende ao longo do seu desenvolvimento se revelando muito poético e com certa profundidade.


O desfecho não decepciona e não é menos interessante do que o restante da trama. Além de emocionante e tocante, o final do filme reúne em si toda a delicadeza da obra de Makoto Shinkai, mostrando que mesmo com um tema batido é possível fazer um filme belo, sensível e cheio de significados.

Sucesso de bilheteria no Japão, Yor Name entrou em cartaz no Brasil em outubro de 2016 e logo foi anunciado a publicação do mangá pela Editora JBC.

No exterior, foi indicado para diversos prêmios, mas venceu apenas em solo japonês. Em 2016, foi vencedor do Japan Record Special Award de Melhor Música e, no ano seguinte, foi premiado com o Japan Academy Prize em três categorias diferentes: desempenho excecional da música, melhor argumento e popularidade[2].

Recomendo o filme para os românticos, os fanáticos por shojo e principalmente para quem gosta de uma animação muito bem-feita e com uma qualidade gráfica superior.
A película é uma produção dos estúdios CoMix Wave Films e entrou em cartaz no ano de 2016. Tem duração de 106 minutos. Abaixo você pode conferir o trailer do filme:

Trailer


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[1] Palavra japonesa usada para se referir a uma pessoa mais velha ou mais experiente e pelo qual se tem respeito.
[2] https://pt.wikipedia.org/wiki/Kimi_no_Na_wa.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Naufrágios – Akira Yoshimura – Resenha


Por Eric Silva

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Em um estilo minimalista, Naufrágios, livro do escritor japonês Akira Yoshimura, é um testemunho de como a vida pode ser regida por dissabores que se repetem em ciclos como as estações do ano.

Ambientado no Japão medieval onde uma pequena comunidade pesqueira luta pela sobrevivência, esse livro fala de como abandonamos valores morais de valor a vida do outro, para garantir a sobrevivência de um grupo maior. Desejar o naufrágio de um navio e trucidar uma tripulação naufragada para saquear sua carga e, desse modo, aplacar a fome se torna valores e objeto de culto neste livro de pequena extensão, mas de significados amplos e profundos.

Naufrágios é o sétimo livro da III Campanha Anual de Literatura que neste ano homenageia a literatura japonesa.

Sinopse

Em algum período remoto da era medieval japonesa, uma pequena comunidade de pescadores luta para sobreviver da pesca de moluscos, peixes e conchas. Na pequena aldeia vive também chamado Isaku, um menino é um de nove anos que tenta garantir o sustento de sua família e como os demais aldeões, além de pescar, ajuda na destilação de sal para ser comercializado para os povoados vizinhos. É por meio da narração dos anseios e dificuldades enfrentadas pelo garoto que conhecemos a vida difícil e da comunidade que luta contra a fome e descobrimos que a manufatura do sal tem uma outra utilidade oculta: provocar naufrágios de embarcações carregadas de arroz que passam pela costa.

Resenha

Morte e vida: um enredo trágico

Publicado em 1982 sob o título de Hasen (破船), Naufrágios é um romance de época que retrata um pouco da realidade das comunidades pesqueiras pobres do Japão medieval. Um livro extremamente pequeno (192 páginas), mas que descreve com esmero o desespero e os dilemas de seus personagens para continuarem sobrevivendo.

Daimyo da era feudal japonesa.
Imagem: KCP International.
Em alguma ilha do Japão dos daimyos[1] (大名), uma pequena aldeia de pescadores buscava sobreviver a escassez de alimentos do lugar. Localizada numa costa desértica, cujo solo rochoso propiciava apenas colheitas escassas, a comunidade tinha na pesca de peixes, polvos e lulas o seu principal sustento.

A pequena produção de pescado era salgada e periodicamente levada a vila vizinha para ser trocada por grãos. Contudo, por mais que fossem grandes os esforços da comunidade, continuamente a fome era um desafio para a sobrevivência de todos e, por isso, algumas medidas mais extremas eram adotadas como não dar comida aos que estivessem severamente doentes e que certamente não sobreviveriam.

“Em uma aldeia que lutava contra a fome, um inválido era considerado morto.”

A escassez de tudo era tão extrema naquele lugar desolado, que era prática comum que algum membro de cada família acabasse por se vender como servo por três, cinco ou dez anos para garantir, por um tempo, o sustento dos demais. No entanto, o dinheiro obtido com esse tipo de negociação costumava ser muito pequeno e a quantidade de grãos comprada com ele quase insignificante.

Mas a resposta para momentos de maior abastança, contudo também vinha do mar: o o-fune-sama (お船さま). A pequena ilha, que não recebe um nome, tinha uma costa que no inverno se tornava perigosa para os navios cargueiros que passavam ao largo. As ondas furiosas quando somadas aos perigosos recifes de corais representavam um risco eminente para qualquer tripulação à deriva ou que fugindo de uma tempestade pensasse de aportar naquela costa. O naufrágio era certo.

Para aumentar as chances de que um navio mercante carregado de cereais naufragasse na costa e permitisse o saque da carga, os aldeões destilavam sal para os povoados vizinhos, em grandes caldeirões sobre fogueiras que ardiam durante as noites furiosas de tempestade ao longo de todo o inverno. O objetivo era que as chamas que brilhavam na escuridão confundissem os marinheiros em meio a tempestade e esses dirigissem o barco para a orla lançando-os sobre os recifes da ilha. Quando o esperado naufrágio ocorria, o navio era saqueado e os espólios distribuídos de forma justa entre todos os aldeões.

Essa incessante luta pela vida é contada através da história de Isaku, um garoto de apenas nove anos, mas que assume a responsabilidade de sustentar sua mãe e três irmãos pequenos enquanto o pai vai para servidão.

Yoshimura descreve o lento desenvolvimento do menino que urgentemente necessita se tornar um pescador experiente para garantir o alimento da família e não deixar que ninguém morra de fome, inclusive ele mesmo.  Transversalmente à passagem das estações, o narrador observa e descreve o dia a dia de Isaku ao longo de pouco mais de dois anos, atentando para seus pensamentos, desejos e apreensões que não eram muito diferentes de nenhum adulto ao seu redor e que revelavam a necessidade vital de amadurecer rápido.

Infância perdida: o protagonista Isaku

O-fune-sama.
Naufrágios é um livro de personagens maduros que criaram uma espécie de armadura para enfrentar a adversidade. Yoshimura não gasta muito tempo em caracterizar seus personagens, mas não há um só deles que se caracterize pelo bom humor ou por qualquer outra característica que não seja a taciturnidade de quem tem grandes deveres e todo um futuro incerto pela frente.

O personagem principal, Isaku, tem apenas dez anos mas a maturidade de suas ações e pensamentos, bem como o peso das responsabilidades impostas a ele, o fazem bem mais velho e maduro. Isso, em grande parte, se deve a pesada responsabilidade de sustentar a família na ausência do pai, mas também a rígida educação dada pela mãe que em pouquíssimos e raros momentos demonstra algum carinho pelo menino, preferindo o víeis da severidade e da cobrança.

Não há como sentir a criança que Isaku é, e a imagem que se tem é a de um rapaz perto de se tornar adulto. Ele manifesta desejos quase sexuais, seu senso de responsabilidade é bastante dilatado, há seriedade em quase todas as suas ações e o desejo de ser reconhecido como um adulto. Somado a todas essas coisas ele assume responsabilidades adultas, é bastante cobrado e seu principal medo é não poder cumpri-las. Ele é apaixonado por uma das garotas da aldeia, mas mesmo sua paixão difere bastante de algo inocente ou infantilizado, possuindo com traços de alguém mais velho e preocupado, inclusive, com o futuro.

Contudo a experiência como pescador e a força física para atividades essenciais para a sobrevivência são coisas que faltam a Isaku e isso, além de desesperá-lo, o faz a todo momento comparar-se aos meninos maiores e mais experientes. Saber pescar e fazer bias pescarias era o fator decisivo entre sobreviver ou morrer. Por isso, Isaku está sempre buscando extrair dos mais velhos o máximo de conhecimento e experiências, como forma de crescimento e evolução e, assim, garantir o alimento necessário à sua família.

Pela sua própria inexperiência o menino tarda a entender o significado das tradições da aldeia e do o-fune-sama. Também por inexperiência e por ter uma visão estreitada pelos horizontes restritos e limitados exclusiva e unicamente a sua própria realidade – e da aldeia –, ele não consegue compreender a brutalidade e o contrassenso daquele ritual que dependia da morte de uns para garantir a vida de outros. E como os demais moradores acaba ansiando pelo momento do naufrágio que garantiria alimentos suficientes a todos.

O foco do livro é muito centrado em Isaku, mas nota-se que os habitantes da aldeia não diferem muito dos traços psicológicos e de personalidade do menino. A única parte da narrativa onde os habitantes da miserável aldeia esboçam alegria e um maior relaxamento é quando o o-fune-sama finalmente acontece.  Inicialmente eles são tomados por uma alegria imensa, em seguida, por conta da fartura, ficam indolentes, e, por fim, são tomados pelo terror.

Outros personagens de maior destaque na trama são a mãe de Isaku e o chefe da aldeia.

A mãe de Isaku é retratada todo o tempo como uma pessoa de pouca sensibilidade, severa, de poucas palavras, sempre voltada ao trabalho e para o sustento da família, além de nem um pouco carinhosa. Na maior parte da narrativa ela exige do filho mais velho que ele trabalhe como os demais homens da ilha e assim cumpra com a responsabilidade deixada para ele pelo pai que tinha ido para a servidão.

Por sua vez, o chefe da aldeia é representado como um sábio por quem todos nutrem um profundo respeito e obediência. As vezes a trama o representa como quase um deus digno de reverências, em outros como uma pessoa temerosa e frágil frente a situações que podiam ameaçar seu povo. Trata-se de uma figura icônica que me faz recordar de figuras reais do passado de nosso país, a exemplo de Antônio Conselheiro.

Outros personagens compõem a trama, porém nenhum com muita relevância, e muitos possuem passagem muito breve pelo enredo.

Quando dois livros parecem se inspirar

Em alguns aspectos, esse é um livro cuja as condições peculiares dos habitantes da vila descrita se assemelham bastante a história contada em O Conto da Deusa, livro de Natsuo Kirino resenhado logo no começo deste ano.

Assim como na aldeia de Namima, protagonista de Kirino, a comunidade de pescadores onde Isaku nasceu vive o pesadelo da fome e tem no mar sua principal fonte de sustento.  Da mesma forma ali muitas tradições estranhas e cruéis se desenvolveram a partir do medo da fome e a incerteza de se conseguir o sustento. No livro de Natsuo, o fanatismo religioso leva ao exílio e a destruição da vida de alguns aldeões, no livro de Yoshimura a fabricação do sal se torna uma arma para provocar a tragédia dos naufrágios e permitir o saque da carga. Além disso, na história de Naufrágios os doentes terminais e inválidos costumeiramente eram deixados para morrer sem alimento ou voluntariamente deveriam parar de comer para poupar alimento para os seus familiares, aquele que não o fazia era visto como egoísta como denota claramente o trecho abaixo:

— Só isso? Vocês devem estar realmente economizando. Estamos no nosso quarto fardo, que está pela metade. É culpa do vovô. Ele pode morrer a qualquer momento, mas fica nos pedindo para lhe dar comida. As pernas estão inchadas e ele está se acabando, mas continua sendo egoísta — disse Sahei, franzindo o cenho.

De forma similar, em O Conto da Deusa a família de Namima devia comer menos ou até mesmo privar-se do alimento, se assim fosse necessário, para garantir o sustento da sacerdotisa, que no credo local era elemento fundamental para que a comunidade tivesse pescas proveitosas e para afastar a possibilidade da fome.
Comparando-as notei como estas duas histórias são muito semelhantes no que tangem às dificuldades das aldeias japonesas de pescadores durante a era pré-moderna (medieval) e por isso denotam a quão complicada era a sobrevivência nas ilhas mais isoladas do arquipélago japonês. Trata-se de uma realidade que nos tempos atuais mudou bastante, porém o Japão ainda é um país que necessita de importações de alimentos e que tem na pesca sua principal e fundamental fonte de alimentos. Do mar vinha tudo: o sustento escasso, os mortos que reencarnavam nas crianças que nasciam e o o-fune-sama. Esse livro deixa muito bem evidente, assim como Kirino o deixa em seu O Conto da Deusa, a relação íntima e fundamental dos japoneses com o mar e que vai do mítico ao prático (a subsistência).
Em ambos os livros os personagens se encontram firmemente presos a tradição e a terra de seus antepassados impedindo-os de migrar para lugares onde a sobrevivência fosse facilitada. Crenças religiosas se misturam a tradição e ao apego ao lugar de origem para criar um ciclo vicioso, suicida e perverso.

Características gerais e apreciação crítica

Naufrágios é um livro no qual o diálogo é um dos elementos narrativos menos explorado. A escrita de Yoshimura se concentra na narração e descrição contínua do cotidiano e das emoções dos personagens. A narração em terceira pessoa é metódica, sequenciada e linear, e o narrador, sem compadecer-se com seus personagens, segue o curso dos acontecimentos documentando cada uma das ações do cotidiano.

A forma como o autor escreve é limpa e até objetiva, mas o enredo em si é monótono e cíclico, marcado por um tempo cronológico demarcado pela transição das estações do ano e nos quais várias ações rotineiras e sazonais dos personagens são retomadas.

Para enfatizar que a vida naquela aldeia era sempre repetitiva e que as várias atividades empreendidas pelas pessoas eram sempre definidas pela passagem e chegada das estações, o autor não poupa seu leitor falando mais de uma vez sobre temas como a pesca do polvo, a extração do sal e a expectativa da chegada d’o-fune-sama. A novidade de cada ano é a evolução lenta, mas inexorável de Isaku e alguns acontecimentos que são decisivos para o desenlace da narrativa. Isso torna a narrativa um pouco entediante, repetitiva e arrastada em vários momentos, esse é o ponto fraco fundamental do livro, mas é inegável a qualidade da escrita de Yoshimura.

O tom geral da narrativa é bastante melancólico. O temor da fome que trazia consigo a morte é o sentimento que com mais intensidade se encontra presente em toda a peça.

A luta interminável pela sobrevivência, o medo da fome, a tristeza por aqueles que morriam de fome ou iam para a servidão e nunca voltavam, ou que dela retornavam envelhecidos e inválidos dão muito pouco espaço para momentos felizes na história de Naufrágios. O próprio título escolhido por Yoshimura já evidencia muito desse tom que domina a história, mas, ao mesmo tempo, é um jogo de ideias bastante metafórico.

O naufrágio de um navio nunca representa algo bom, mas o desespero e a certeza da morte. Trata-se de uma tragédia anunciada. No entanto, contraditoriamente, a chegada do o-fune-sama representava para aquelas pessoas a esperança de períodos de abastança e sobrevivência mais fácil, a certeza de que ninguém morreria de fome ou necessitaria vender-se como servo.

A morte dos náufragos (mesmo dos sobreviventes, sumariamente eliminados pelos pescadores para que não houvesse testemunhas do saque da carga) representava uma oportunidade de vida para a aldeia inteira. Assim podemos entender que antes mesmo dos barcos mercantes naufragarem na costa da ilha, a própria aldeia já era a metáfora de um navio prestes a “naufragar”. Seria o naufrágio real a possibilidade mais concreta de se adiar o “naufrágio” daquela população desvalida. Esse é um sutil jogo de ideias presente nessa narrativa na qual morte significa também sobrevivência. Ali as relações mais primitivas da lógica da natureza se destacam: é necessária a morte para que haja vida.

[ALERTA DE SPOILER]. Por fim, o desfecho é inesperado, mas não surpreende. Yoshimura deixa o fim da narrativa um tanto em aberto e o gosto de derrota dos personagens é evidente, quase palpável. Os últimos acontecimentos narrados não surpreendem o leitor porque tudo na aldeia parece sempre convergir para um mesmo resultado: o trágico. Contudo, muitos dos acontecimentos são inesperados porque a forma como a história encontra seu fim não podia ser interpretada nas entrelinhas, ou seja, um desfecho original e criativo.

A edição lida é da Editora Best Seller, do ano de 2003 e possui 192 páginas.

Sobre o autor

Escritor japonês premiado, Akira Yoshimura ( ) nasceu em Tóquio, no dia 1 de maio de 1927.

Foi presidente do sindicato dos escritores japoneses e um membro do PEN, clube internacional de escritores fundado em 5 de outubro de 1921 pela escritora inglesa Catherine Amy Dawson Scott.
Publicou mais de 20 romances, dos quais On Parole e Naufrágios são internacionalmente conhecidos e foram traduzidos para várias línguas. Seu livro A Enguia (Unagi) foi adaptado com sucesso para o cinema.

Naufrágios é seu primeiro romance lançado no Brasil.

Faleceu em 31 de julho de 2006.

Confira quem são os outros autores participantes da Campanha deste ano no link: http://bit.ly/2n5OK6U.

Conheça os pontos do nosso itinerário no mapa do link: http://bit.ly/2G9Mkwx.






[1] “Termo genérico que se refere a um poderoso senhor de terras no Japão pré-moderno, que governava a maior parte do país a partir de suas imensas propriedades de terra hereditárias” (Wikipédia).

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