sexta-feira, 30 de março de 2018

Beleza e Tristeza – Yasunari Kawabata – Resenha


Por Eric Silva

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Introspectivo, contemplativo e fortemente ligado ao mundo das artes, Beleza e Tristeza foi o último romance do escritor japonês Yasunari Kawabata. Nele conhecemos uma história de amor e traição que acabou em tragédia e separação, mas que anos depois têm suas feridas reabertas. Um livro considerado por seus críticos como incômodo, mas que poderia ser também definido como polêmico.

Confira a resenha do segundo livro da III Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo que neste ano homenageia a literatura japonesa.

Sinopse

Último romance do escritor japonês ganhador do Prêmio Nobel, Yasunari Kawabata, Beleza e Tristeza conta a história de Oki Toshio, um escritor japonês, que viaja para Quioto em busca de se reunir com uma antiga amante, Otoko Ueno, agora uma artista plástica, para tentar reconciliar o relacionamento rompido no passado de forma trágica.

Resenha
O enredo

Narrado em terceira pessoa e ambientado em um Japão que se adaptava a entrada da influência ocidental, a narrativa de Beleza e Tristeza (美しさと哀しみと) gira entorno de um pequeno núcleo de personagens, dos quais os protagonistas são o escritor Oki Toshio e a artista plástica Otoko Ueno.

No passado, quando Otoko ainda era uma garota de dezesseis anos, ela e Oki, um homem já com seus 31 anos, casado e pai de seu primeiro filho, tiveram um caso conturbado que trouxera sofrimento a todos e terminou em tragédia. Na ocasião, a moça deu à luz a um bebê prematuro que por conta do péssimo atendimento médico nasceu sem vida. Transtornada com a perda da criança, Otoko por um tempo a perde a razão e tenta cometer suicídio, mas sobrevive. A morte do filho, os ciúmes e descontroles da esposa de Oki e o desequilíbrio emocional de Otoko também acabam por acelerar a separação dos amantes, deixando marcas profundas em todos, mas principalmente na garota.

Vinte quatro anos depois, Oki é um escritor consagrado e seu maior sucesso, Uma garota de dezesseis anos, é um relato idealizado e apaixonado de seu romance e tragédia com Otoko Ueno. Ela por sua vez, tornou-se uma artista de sucesso e mora em um monastério de Quioto (京都市) onde vive com sua pupila Keiko, uma linda jovem com que também mantém um relacionamento amoroso.

Com a desculpa de ouvir os sinos dos monastérios de Quioto tocados na passagem de ano novo, Oki vai a antiga capital japonesa com a intenção de se reaproximar da amante do passado, mas esse contato inesperado desencadeia uma série de acontecimentos que envolve a todos novamente em momentos de angustia, sofrimento e traição, principalmente quando Keiko desperta em si o desejo profundo e incontrolável de vingar o sofrimento vivido por sua professora e amante.

Personagens

Como já mencionei, Beleza e Tristeza não conta com um vasto séquito de personagens, mas o mais curioso nesse livro é que enquanto os protagonistas são bastante passivos, os personagens secundários além de tomarem a cena, são os responsáveis por mover e direcionar a narrativa. 

Otoko é uma mulher fraca e fragilizada pelo passado. Não conseguiu desvencilhar-se de seu amor por Oki, mas, ao mesmo tempo, quer reter Keiko ao seu lado, por isso pressente a tragédia eminente quando a moça revela suas intenções vingativas, mas entregue a sua própria passividade pouco faz para deter o previsível. Por sua vez, Oki beira entre a passividade e a ação e apesar de todo o sofrimento que provocara tanto a sua família como a Otoko não hesita em reabrir a ferida com sua reaproximação indesejada. Na minha opinião um homem fraco e movido por seus desejos egoístas.

Mas a força da narrativa está mesmo em Sakami Keiko, que é de longe o personagem mais interessante da trama.

Retratada como uma moça de beleza inquietante e de temperamento difícil e dúbio, a jovem pintora assume para si o papel de vingar o sofrimento passado imposto a Otoko e que ainda a atinge. Ciúmes e desejo de vingança se misturam e a personagem transita entre a falta de moralidade explícita, a paixão ardente, inconsequente e desequilibrada e o maquiavelismo, mas não um maquiavelismo em que os fins justificam os meios, mas em seu sentido figurado como sinônimo de qualidade do que é inescrupuloso. Keiko é dominada por um pensamento que aceita a máxima de que a dor causada contra alguém é motivo para gerar mais dor, ou seja, a ilógica pura da vingança. Aqui tantos os meios como os fins são escusos.

Na narrativa Keiko se torna a ponte entre o passado e o presente, reabre as feridas criando novas chagas, e envolve também nesse jogo o filho de Oki, Taichiro.

Professor universitário, Taichiro não tem uma boa relação com o pai e se ressente pela traição de Oki no passado. É um personagem bastante apagado em mais da metade da narrativa, contudo é também o elemento-chave para o desfecho da obra. Nesse ponto do livro sua presença se torna bem mais intensa do que a dos protagonistas e estes são gradativamente jogados para a margem dos acontecimentos. Ele se demonstra um homem relativamente cauteloso, mas tão fraco quanto o pai.

Por fim, Fumiko, esposa de Oki, é outro personagem com presença destacada, mas bem menos do que Keiko e o filho Taichiro. Ao lado de Otoko ela é uma das principais vítimas dos erros de Oki e a pessoa que mais sofre com a publicação do livro no qual o marido relatava o seu relacionamento extraconjugal. Mas apesar de todo o seu sofrimento ela é também a principal intermediadora de Oki com o mundo editorial, e contribuiu diretamente para que o livro fosse publicado e se tornasse um sucesso de vendas.

Polêmico, introspectivo e contemplativo: arte dentro da arte

Escrito na década de 1960, Beleza e Tristeza é um dos últimos escritos de Yasunari Kawabata (川端康成) antes que o autor cometesse suicídio em 1972. É um livro marcado por sentimentos fortes e conflitantes como ressentimento, arrependimento, amor, desejo, ódio, vingança, obsessão, infidelidade e covardia, porém com um traçado abstrato muito forte, pois como afirma Teixeira Coelho em seu prefácio, trata-se de um “romance que recorre ao simbólico e ao abstrato para tocar mais fundo no concreto e no real”.

Um tanto monótono, mas belo e profundo, Beleza e Tristeza expressa com sensibilidade aguçada a tragédia humana, o descompasso das paixões desmedidas e irresponsáveis. Expressa com clareza o lado egoísta, maquiavélico e dissimulado do espírito humano quando entregue ao desejo de vingança. Como parece ser o estilo da literatura japonesa esse é um livro bastante contemplativo e introspectivo, pois destaca e dá preferência ao universo interior – psicológico – de seus personagens. É em essência uma obra que exprime a natureza contraditória dos seres humanos, principalmente quando fala de como nos deixamos facilmente levar pelos ímpetos dos desejos sem medir as consequências de nossos atos ou pensar no sofrimento que deles pode decorrer.

O mundo das artes é sem dúvidas uma das principais marcas e planos de fundo do romance de Kawabata, e entorno desse mundo gravitam seus personagens.

A separação de Oki e Otoko se dá num momento de extrema fragilidade e dor da moça. Mas o laço não se desfaz por completo, restam as mágoas, as feridas, as amarguras, as esperanças vãs e os sentimentos de nostalgia, de acomodação e de amor quebrantado. Esses sentimentos são expressos com intensidade através da arte, e por serem intensos o que é triste se expressa como algo de rara beleza. Assim, a arte de Otoko atingiu a fama e o livro de Oki se revelou sua obra-prima. A arte é então retratada como expressão dos sentimentos e experiências pessoais, das desilusões e amarguras, e por ser cheia de significados é também contemplativa e para ser contemplada.

Mas, em Beleza e Tristeza, Kawabata não apenas utiliza a arte como manifestação dos sentimentos passados e presentes de seus personagens. Ele é também um livro que explora a contemplação e nuanças de diferentes outras artes. Além de metalinguístico – pois o livro fala também de literatura – essa é uma obra que explora o universo das artes como um todo, seja elas tradicionais ou mais contemporâneas, orientais ou ocidentais, abstratas ou impressionistas. Assim as artes plásticas, a música, a jardinagem, a arquitetura e a poesia dentre outras formas de expressão artística são contempladas e recebem seu devido espaço e tratamento no livro de Yasunari.

Outro ponto interessante na obra é como ela está à frente de seu tempo ao apresentar com relativa naturalidade a questão do homossexualismo entre as personagens Otoko e Keiko.

Mesmo sendo um livro da década de 60, quando uma “moralidade heterossexual” ainda se sobrepunha, não há uma escandalização por parte do narrador acerca da existência uma relação homossexual entre mestra e aprendiz – isso fica a cargo da visão estreita de quem lê.

O narrador não se demonstra indignado ou reativo, tudo é tratado como algo que se dá, logo também não há apoio ou exaltação. Quem gera as dúvidas são os próprios personagens, sobretudo Otoko. A perplexidade está também apenas nos personagens como Fumiko, que fica escandalizada com a relação homoafetiva entre as pintoras.  Entretanto, por parte da narração, nada é tomado como absurdo ou errado.

Isso me impressionou porque não há, dentro do contexto histórico em que foi escrito, um medo por parte do autor de ser polêmico, de causar incômodo ou desconforto. As relações existem, são fato, e, aceitando-as ou não, elas são parte concreta da realidade e da existência humana, sempre foram, e por isso não há porque ignorar ou fingir que não existem. Ainda assim a visão da sociedade da época não é ignorada e expressa através da perplexidade de Fumiko.

Conclusão

Quando se lê Beleza e Tristeza é quase impossível não buscar na trama o significado de seu título. Foi um dos elementos que mais persegui na obra. Percebi a beleza nos cenários silenciosos e vazios de jardins, parques e templos descritos pelo livro. Também nos corpos femininos da jovem Keiko e de Otoko quando jovem. Mas tudo que é belo nesse livro também é triste. Não apenas os dramas e amarguras do passado que seus personagens carregam no seio, mas em cada coisa, na arte por eles produzida, nos seus pensamentos, nos lugares onde vão há um pouco dessa tristeza. Então tudo que é carregado de beleza neste livro é igualmente morada para uma tristeza silenciosa, não dita.

O ponto fraco do livro e que o tornaria impopular entre as novas gerações de leitores é sua monotonia causada pelo caráter introspectivo e abstrato. A narrativa arrastada e com longas incursões pelo psicológico e passado dos protagonistas, torna o livro pouco instigante na maior parte de seu enredo, mesmo que a linguagem seja acessível e não muito erudita.

Com um enredo cheio de sutilezas e silêncios que caminham inexoravelmente para a tragédia, Kawabata escolheu para seu livro um desfecho em aberto, em suspenso, abrupto, interrogativo e sugestivo. Um desfecho que incomoda o seu leitor assim como nos alerta Teixeira Coelho, no prefácio do livro, e isso só fez do final de Beleza e Tristeza a parte mais interessante e instigante do livro.

Em algumas das resenhas que eu li, algumas pessoas de fato se incomodaram com o final em aberto e sugestivo que não se preocupa em dar conclusões. No entanto, a forma como ele acaba tão abruptamente é original e quase cinematográfico, como uma cena que acaba com um close em um ponto específico e sugestivo. Um close em um olhar que abre parênteses para milhares de interpretações, e isso é, por si só, emocionante, provocante.

Confesso que Beleza e Tristeza está longe de ser um livro das minhas preferências e gostos, mas no final fiquei querendo mais umas cinco ou dez páginas. Acho que a intenção de Kawabata tenha sido justamente essa.

A edição lida é da Editora Globo, do ano de 2008 e possui 289 páginas.

Sobre o autor

O autor, Yasunari Kawabata (1899-1972).
Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1968.
Nascido em 11 de junho de 1899, na cidade de Osaka (大阪市), Japão, Yasunari Kawabata (川端康成) foi o primeiro escritor japonês a ganhar, em 1968, o Prêmio Nobel de Literatura.

Órfão aos 3 anos de Idade, Kawabata foi criado pelo avô materno. Em 1924, diplomou-se em Literatura pela Universidade Imperial de Tóquio e foi fundador do jornal de letras Bungei Jidai. Sua primeira obra de destaque foi A Dançarina de Izu (伊豆の踊り子), publicado em 1926.

Em sua escrita recorreu a técnicas surrealistas que tentou combinar coma estética tradicional japonesa. Com a publicação de Yukiguni (雪国, O País das Neves), em 1934, ascendeu à posição de importante escritor da literatura japonesa. Entre suas obras mais importantes, Senbazuru (千羽鶴, Mil Tsurus), Yukiguni e Koto (古都, Kyoto) foram citadas na ocasião de sua premiação com o Nobel de Literatura.

Em seu discurso de recebimento do prêmio, condenou a prática do suicídio, recordando amigos escritores que haviam tirado suas próprias vidas. Contudo, em 1972, o próprio Kawabata, em decorrência de um surto depressivo, comete suicídio pela inalação de gás.

Confira quem são os outros autores participantes da Campanha deste ano no link: http://bit.ly/2n5OK6U.

Conheça os pontos do nosso itinerário no mapa do link: http://bit.ly/2G9Mkwx.

Abaixo você pode conferir uma prévia da edição portuguesa disponível no Google Books.

Prévia do Google Books



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2 comentários:

  1. A trama do livro me parece ser bem dramática e complexa, gostei bastante desse enredo, com certeza seria uma leitura que eu gostaria de conferir.

    www.estante450.blogspot.com.br

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    Respostas
    1. Oi, Cássia, Beleza e Tristeza é daqueles livros que te fazem pensar sobre a natureza e o egoísmo humano. É uma obra que provoca reflexões, como quase tudo na literatura japonesa.

      Obrigado pela visita.

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