sábado, 12 de janeiro de 2019

[Novos Escritores] Krystallo – Jornadas para além das fronteiras – Raphael Fraemam – Resenha


Por Eric Silva para a Tag Novos Escritores
12 de janeiro de 2019, ano da Itália.

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Nos últimos tempos, navegando pelas redes sociais, tenho conhecido muitos autores novos com poucos anos de carreira, estreantes, além de autores independentes que lutam pelo seu espaço no tão competitivo e fechado mercado editorial. Esses encontros casuais acabaram por lembrar de muito outros que possuo na estante e que nunca cheguei a ler. No final, isso me deu a ideia de uma nova tag: o “Novos Escritores”. A resenha de hoje é sobre uma dessas produções independentes muito bem-acabadas e de alta qualidade narrativa.

Uma aventura fantástica, Krystallo – Jornadas para além das fronteiras é o primeiro livro do advogado pernambucano Raphael Fraemam. Bastante politizada e com personagens engajados esse é um livro relevante cheio de referências geopolíticas e que ensina os leitores mais jovens a serem conscientes politicamente de uma forma divertida, original e criativa.

Confira a resenha.

Sinopse do enredo

Em Krystallo – Jornadas para além das fronteiras, as duas poderosas superpotências do continente de Emperon, Econ e Opus, se encontram em uma guerra secular que se iniciou logo depois da vitória conjunta dos dois países sobre a nação de Cratia.

Cratia era na época da guerra um pequeno país de regime fascista que ganhava poder e ameaçava as fronteiras dos países vizinhos, sobretudo depois da descoberta de um cristal raro (o krystallo amarelo) do qual se podia extrair um grande volume de energia por tempo indeterminado. Logo as potencialidades dos cristais se tornam estratégicas e ao mesmo tempo uma ameaça para os países envolvidos na guerra e, por isso, após a queda de Cratia, as duas nações vitoriosas iniciam uma disputa pelo controle do poder dos cristais, uma guerra que perdura por um século.

Cada uma detentora do poder de um cristal, Econ e Opus se erguem como duas grandes nações militares e tecnológicas contrárias e que estendem seu domínio político aos demais continentes. Econ se constitui como uma nação capitalista e avançada, enquanto Opus, um país de caráter socialista.

É nesse contexto de ódio que um atentado acontece em um dos mais importantes edifícios do governo de Econ, e o incidente envolve o jovem Tomé Stalmer em uma aventura que ele não imaginaria para além das fronteiras de sua nação. Por sua vez, em Opus, Gray Frost é forçada a deixar seu país após ser sequestrada no dia de seu aniversário.

Os dois eventos aparentemente desconexos, porém, são os desencadeadores de uma grande aventura que mudará a vida não apenas dos dois adolescentes que são arrancados de seus respectivos países e jogados em um mundo novo e desconhecido, mas também revolucionará o curso da história política das duas grandes potências.

Sobre o autor

Raphael Fraemam tem 25 anos, mora em Recife-PE, é advogado, mestre em Direito Civil e professor universitário. Aos oito anos, escreveu seu primeiro livro literário, Os Guerreiros da Floresta e a Caverna da Liberdade, e foi o escritor mais jovem da Feira Internacional do Livro de Pernambuco no ano de 2001. Tem artigos acadêmicos publicados em revistas jurídicas e em livros coletivos. Em 2015, organizou uma obra coletiva de Direito Civil, Reflexões do Direito Civil. Seguindo um antigo desejo, retornou para a literatura quando, em 2018, terminou Krystallo - Jornadas para além das fronteiras.

Resenha

Personagens conscientes e referências geopolíticas relevantes

O Krystallo Amarelo, importante fonte de energia. Imagem: divulgação.
Li Krystallo ano passado a convite de seu autor e me surpreendi com a relevância política desse livro. Digo isso porque Krystallo é um livro que entretém ao mesmo tempo que retrata toda a geopolítica de um século, incitando os jovens a terem consciência política e assumirem um papel ativo na transformação social de suas nações.

O mundo criado por Fraemam é marcado por uma intensa disputa política entre duas grandes nações e que alimentam guerras bélicas, ideológicas e tecnológicas além de movimentos de cunho nazifascistas. Nesse cenário e usando temas como desenvolvimento tecnológico, hegemonia política, controle social, diferenças étnicas e nacionais, sequestro e teletransporte, o escritor insere na trama duas personagens críveis e com muita consciência social e política que se destacam. Essas duas personagens passam a conhecer um mundo novo, fantástico e desconhecido, e igualmente desenvolvem um olhar político diferenciado e novo sobre suas próprias nações, ou seja, personagens cujo senso crítico se desenvolve à medida que passam a ter contato com novos povos e ideias. Porém, as personagens de Fraemam não se limitam a desenvolver uma concepção crítica do mundo e passam igualmente a agir conforme seus próprios princípios e a lutarem por seus países. O resultado final é uma trama com dois núcleos narrativos com seus respectivos protagonistas e personagens altamente politizadas.

O primeiro protagonista é Tomé, habitante de Econ. Ele é um menino que não gosta do sistema de educação de seu país, não possui uma consciência política bem formada, mas é dono de um senso crítico apurado. Como representante de uma classe social favorecida ele é um rapaz que vive uma vida despreocupada e seus problemas são de ordem menor. Entretanto, Tomé é também uma personagem que possui um desejo latente por liberdade e se apaixona pela forma como a educação em outros países é mais diversa. Íntegro, justo, ele não é muito corajoso, mas é bastante determinado.

A segunda protagonista é Gray. Uma moça inteligente esforçada, forte, determinada, íntegra e corajosa ela é uma habitante de Opus filha de dois trabalhadores (operários) que lutam arduamente pela sobrevivência de suas duas filhas. Esforçada, Gray possui ciência dos problemas sociais de seu país e do esforço de seus pais, e luta por uma boa colocação nos quadros sociais existentes. Com um apurado senso de dever e de justiça, ela é fortemente compromissada com seu país e com a sua família. Muito inteligente e estudiosa, deseja ser pesquisadora do Estado e ajudar não apenas sua família como também para o engrandecimento de sua nação.

Com personagens fortes e de mentes abertas e conscientes, Fraemam traz aos seus leitores, sobretudo ao público mais jovem, uma mensagem clara e bastante relevante: Sejam conscientes! O entendimento sobre política é essencial para vida e para a justiça social! O mundo só se transforma com engajamento político!

Esse engajamento político me impressionou bastante e me fez gostar do livro, mas não foi o único aspecto a me chamar a atenção. O outro é como sua narrativa se assemelha bastante a história política do século XX, fazendo alusões à Segunda Guerra Mundial, aos regimes totalitários do período entre guerras e à Guerra Fria. Essas alusões me fazem pensar que talvez o livro seja não só uma história de fantasia e aventura com uma crítica social, mas igualmente uma crítica política aos regimes excludentes e totalitários e às guerras ideológicas.

Se observarmos de perto o enredo de Krystallo veremos que existem muitas semelhanças entre a história de guerra ideológica entre Opus e Econ e o que aconteceu durante a Guerra Fria.

Durante a Guerra Fria tivemos um mundo bipolarizado, ou seja, uma divisão política e econômica em dois grandes blocos com duas superpotências tecnológicas e militares: os Estados Unidos da América (EUA), líder do bloco capitalista, e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Essas duas potências digladiavam entre si pelo controle político do mundo e por estender sobre ele sua hegemonia.

De forma análoga, em Krystallo, temos Econ (EUA), que é capitalista e possui uma elevada divisão e desigualdade social, e Opus (URSS), que é uma ditadura socialista com forte controle social, sem classes sociais, mas com distinção em relação a elite burocrática. Ambas atacam ideologicamente o sistema social da outra e rivalizam numa corrida tecnológica (os cristais de energia), ou seja, uma corrida pelo avanço tecnológico que garanta poder bélico à uma Guerra Ideológica no qual cada governo exalta seu próprio sistema e ataca o outro. Se isso não bastasse, as duas nações ainda deixavam suas respectivas populações mergulhados na ignorância em relação ao restante do mundo e às diferentes culturas nele existentes.

Outra referência é aos regimes totalitaristas, ou seja, ao nazismo alemão que conduziu a Alemanha de Hitler, a Europa, a URSS e os EUA à Segunda Guerra Mundial.

Brasão do misterioso grupo fascista presente na trama
Cratia (Alemanha fascista), país contra o qual Econ e Opus lutam, derrotam e ocupam, possui uma ideologia calcada na superioridade de um grupo sobre os demais e que legitimaria o controle social exercido por esses poucos eleitos, ou seja, Fraemam faz uma releitura do mito hitlerista da superioridade da raça Ariana e que é a base ideológica do nazismo. De forma igual ao que ocorre com Cratia e seus remanescentes, a Alemanha foi derrotada na Segunda Guerra, seu líder político foi dado como morto e o território, ocupado pelas duas superpotências que passaram a controlar a Alemanha. Essa divisão territorial e o fim da guerra lançam as bases para a Guerra Fria.

Além disso, o nazismo é derrotado e condenado, porém, sua ideologia sobrevive dando origem a grupos radicais, xenofóbicos e racistas que agem secretamente e são conhecidos como neonazistas, aspecto que também é explorado pela trama de Fraemam.

A última referência que percebo é ao uso de bombas nucleares durante o período de conflito.

Apesar de a Alemanha ser derrotada, a Segunda Guerra não finda com a derrota de Hitler, mas com a rendição dos japoneses após o lançamento das bombas nucleares de Hiroshima e Nagasaki. O uso dessas armas mortíferas de destruição em massa não só funcionou como ferramenta contra os inimigos remanescentes da Segunda Guerra, como também foi um indicativo do poder bélico das superpotências e um aviso ameaçador aos inimigos políticos.  Na guerra contra Cratia, armas similares também são usadas sobre os aliados remanescentes do país derrotado e a supremacia das superpotências é assegurada.

Os aspectos literários da obra

Em se tratando de elementos literários, Krystallo foi desenhado como um livro de fantasia com uma narração linear e que se alterna capítulo a capítulo entre os dois focos narrativos da trama.

A escrita de Fraemam é firme e viva, o texto é claro sem ser nem excessivamente coloquial ou erudito e trata temas complexos e difíceis com maestria e simplicidade. Contudo, Fraemam é muito detalhista. Em grande parte da história o narrador se ocupa ao longo de extensivas passagens a descrever e explicar o mundo no qual a história se dá. Trata-se de um aspecto cansativo, mas essencial da trama, porém muita coisa é repetida por conta do foco narrativo dividido em dois, e isso pode incomodar leitores mais exigentes.

O livro é subdividido em muitos capítulos curtos com ganchos estrategicamente pensados. Achei maravilhosa essa estruturação em pequenos capítulos, porque acho insuportavelmente cansativos capítulos grandes, porque geralmente focam demasiadamente em um só aspecto ou momento narrativo, e limitam as possibilidades de interrupção da leitura. Capítulos curtos permitem-me parar a leitura em um momento mais confortável e dá fluidez a narrativa. Porém a alternação entre focos narrativos as vezes pode ser por demasiado cansativo, por ter interrupções demais no fluxo narrativo. Fraemam tenta equilibrar sua trama, mas acho que muitos leitores ainda assim se incomodarão com a dobradinha narrativa entre a história de Gray e Tomé que vivem cada qual a sua própria aventura.

Ainda assim, o livro ganha muitos pontos pela criatividade e originalidade de sua trama que não consegui referenciar com nenhum outro livro do mesmo gênero. Apesar disso, minha maior crítica está relacionada ao desfecho. Krystallo possui uma história um tanto fechada, porém com possibilidades de ser reaberta, com desfecho fraco e um tanto inverossímil uma vez que situações políticas complexas não apresentam soluções simples e rápidas como as pensadas para a trama.

Eu no lugar do escritor não tentaria uma solução imediata aos problemas que são força motriz da trama, porque isso quebrou a verossimilhança da história. Permitiria que a situação dos países se complicassem ainda mais e daria tempo para o crescimento dos personagens, para a reunião de forças de oposição e concluiria o livro com uma verdadeira revolução a exemplo do que ocorreu em outras tramas de sucesso. Contudo, as razões desse final que buscou ser mais fechado quando deveria estar aberto para um desenvolvimento posterior, em um segundo volume, se tornam bastante plausíveis quando, em conversa com o autor, você conhece seus anseios e preocupações ao se lançar pela primeira vez no difícil e nem sempre justo mercado editorial, onde a crença nos autores estreantes é pequena e as apostas, raras e modestas. A primeira aposta de um autor independente deve ser num romance fechado, mas que lhe permita prosseguir caso a obra seja bem recebida. Um ponto de vista aceitável, prudente e bastante lógico.

Felizmente, Fraemam parece ter muitos planos para Krystallo que ainda tem muitas aventuras para contar. Isso fica claro quando analisando a obra. Percebo que Krystallo tem algo que eu jamais conseguiria fazer: uma narrativa com bons encaixes. Mesmo com soluções rápidas para problemas complexos, no desfecho também é possível perceber que o autor posiciona suas personagens como peças de xadrez preposicionadas para a construção de uma narrativa futura e assim cumprir novos papéis em novas problemáticas que surgirão no futuro.

Por fim, gostaria de ressaltar que Krystallo – Jornadas para além das fronteiras é uma produção independente, mas de qualidade ímpar e, por isso, parabenizo mais uma vez seu idealizador e desejo muito sucesso em sua trajetória.

domingo, 30 de dezembro de 2018

2018, o Ano do Japão no Conhecer Tudo - III Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo



2016, o #AnoDaEspanha. 2017, o #AnoDoBrasil. 2018 o #AnoDoJapão.


Olá, caros leitores.

A Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo (CALCT), o nosso projeto mais ambicioso, chega hoje em sua terceira edição. Fomos da Europa para América e agora aterrissando em terras asiáticas. A III CALCT inaugura o novo ano com um novo país para homenagear: o Japão, a terra do sol nascente.

Para quem não conhece o projeto principal do nosso blog, todo os anos, desde 2016, fazemos um itinerário de livros de um determinado país que é escolhido por votação pelos usuários do Google Plus. Para a enquete é pré-selecionados cinco países representando cada um dos cinco continentes do globo. Depois de escolhido o país a ser homenageado, fazemos um itinerário de livros de diferentes autores oriundos da nação homenageada e através de resenhas discutimos sobre os livros escolhidos, apresentamos seus autores e, em postagens especiais, discutimos os temas relacionados ao país e que surgem nos livros do itinerário: aspectos culturais, turísticos, históricos, sociais, etc.

Na pré-seleção para a III CALCT, cinco países estiveram na disputa: Austrália (Oceania), Cuba (América), França (Europa), Japão (Ásia) e Moçambique (África). Foram 3 meses de votação que contou com a participação de 382 pessoas. E com 35% dos votos o Japão foi escolhido para ser o país homenageado em 2018.

Durante doze meses, nos aventuraremos pela literatura nipônica. Olharemos de mais de perto para um país cheio de cultura secular que respira história e tradição enquanto se lança para a modernidade. Um país de beleza cultural e natural surpreendente.

Visitá-lo-emos pelo olhar de seus escritores e das obras por eles concebidos, conhecendo algumas das milhares de facetas do povo japonês através da literatura. E, em paralelo, falaremos também de filmes do cinema nacional.

É claro que assim como nos anos anteriores, nosso foco não será exclusivo para esta campanha, ainda mais que outros projetos exigem nossa atenção, mas será prioritário e a marca principal do Conhecer este ano.

Quem quiser dar sugestões de livros para o itinerário, fique à vontade para postar nos comentários.

Então é oficial, 2018 é o #AnoDoJapão no Conhecer Tudo e estaremos em páginas japonesas.

Atte.,
Conhecer Tudo,
01 de Janeiro de 2018, Ano do Japão.

Os livros do nosso itinerário resenhados até agora:
#1 - O Conto da Deusa - Natsuo Kirino
#2 - Beleza e Tristeza - Yasurai Kawabata
#3 - Battle Royale - Koushun Takami
#4 - Relatos de Um Gato Viajante - Hiro Arikawa
#5 - A Fórmula Preferida do Professor - Yoko Ogawa
#6 - Histórias da Outra Margem - Nagai Kafu
#7 - Naufrágios - Akira Yoshimura
#8 - Botchan - Natsume Soseki
#9 - Tsugumi - Banana Yoshimoto
#10 - A Vida Secreta do Senhor de Musashi e Kuzu - Junichiro Tanizaki

Sobre os autores:
Filmes do nosso itinerário:

Postagens Especiais do nosso itinerário:

Abaixo você pode localizar, no mapa do Japão, os locais onde se desenrolam as tramas dos livros lidos à medida que eles são resenhados, ou as cidades de origem dos escritores no caso de tramas que se desenrolam em outros lugares reais ou fictícios. Clicando nos ícones do mapa você pode saber mais sobre o livro resenhado e conferir imagens da capa e do local da história ou de nascimento do autor.





sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

7ª Arte: Kabei, Nossa Mãe (Kabei, our Mother) – Resenha


Por Eric Silva
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Em um tempo no qual a guerra e a perseguição ideológica faziam muitas vítimas e prisioneiros, uma mãe precisa dar tudo de si para manter sua família após a prisão injusta de seu marido. O que ela encontra pela frente é um Japão marcado pela privação e austeridade, por uma guerra sem sentido que manda centenas de jovens para os campos de batalha sem a certeza de retorno e por uma censura que por décadas perseguirá aqueles que se opõem a insanidade do conflito.

Bonito, raro e delicado, Kabei, nossa mãe, é um filme que traz todas as características que fazem o cinema japonês ser excelente. Confira a resenha.

Sinopse do enredo

Tóquio, 1940, durante os primeiros anos da Segunda Guerra Mundial a vida da Família Nogami muda repentinamente quando o pai, Shigeru (Bandō Mitsugorō X), é preso pela força policial especial do Japão, a Tokkō, acusado de ter violado a Lei de Preservação da Paz com suas ideias comunistas.

Após sua prisão a vida de toda a família se torna muito difícil, e sua esposa, Kayo (Sayuri Yoshinaga), passa a trabalhar freneticamente como professora para manter a casa e criar as duas filhas, tendo como único apoio a irmã de Shigeru, Hisako (Rei Dan), e um dos ex-alunos dele, Yamazaki (Tadanobu Asano), que gradativamente vão se tornando imprescindíveis à família.

A prisão abala toda a família, mas sobretudo às duas meninas do casal. Além disso, as dificuldades para falar com Shigeru são enormes, a família passa por muitas humilhações e as condições da pressão são as piores possíveis, deteriorando rapidamente a qualidade de vida do professor.

O tempo passa, mas Shigeru não é liberado pela polícia. Enquanto isso a guerra avança e o país passa a viver momentos de austeridade, radicalismo patriótico e mesmo os homens com deficiências físicas são convocados para o front, mas Kayo ainda tenta com todos os seus esforços sustentar sua família e não desanimar apesar das diversidades, até que a trama encontra o seu desfecho com o fim da guerra, quando ocorre o desastre de Nagasaki e Hiroshima, quando o Japão derrotado pelos americanos se retira da Guerra.

Um drama familiar cru e sem muitos floreios ou poesia, mas, ainda assim, delicado e profundo, Kabei é um filme que fala de perseverança para enfrentar momentos difíceis e até mesmo desesperadores, nos quais a intransigência e ambição dos mais poderosos tira a liberdade individual e submete a todos a momentos de grande dificuldade.

Resenha

Contexto e personagens

Delicado, singelo e muito bem interpretado e dirigido, Kabei, nossa mãe é um filme que me deu muito trabalho conseguir: duas duras semanas de pesquisas em locadoras, streaming de filmes e downloads em sites duvidosos do exterior. Mas, no final, o esforço valeu à pena e assisti a um dos melhores filmes japoneses não-animado que já vi, tão digno quanto Dare mo Shiranai, outro filme japonês que resenhei recentemente no blog.


A Família Nogami

Apesar de pouco conhecido no Brasil, Kabei foi dirigido por Yôji Yamada, diretor da trilogia Samurai (Kakushi ken: Oni no tsume, Bushi no Ichibun e Tasogare Seibei) e de mais de 70 longas-metragens. O filme foi exibido nas salas de cinema japonesas no ano de 2008 e foi baseado no romance autobiográfico, Requiem For a Father, de Teruyo Nogami, que por muitos anos trabalhou com o diretor Akira Kurosawa, muitas vezes como supervisora de roteiro.

Com muita sensibilidade o filme aborda a situação do povo japonês durante a Segunda Guerra Mundial quando o Japão entra no conflito ao lado da Itália fascista e da Alemanha de Hitler. Os alistamentos forçados, o radicalismo patriótico e sobretudo a censura que perseguia os intelectuais de esquerda. Na época, em todo o território japonês havia sido imposta a Lei de Preservação da Paz que vigorava desde 1925[1]. Essa lei foi promulgada como forma de combater as ideias socialistas, comunistas e os anarquistas da época, mas, na prática, qualquer oposição política era enquadrada em sua normativa e punida com a prisão (pena máxima de dez), reeducação ou até mesmo a morte[2].

No ano de 1941, a lei se torna mais severa e até mesmo organizações religiosas passam a ser incluídas e cortes de apelação foram abolidas. Entre os anos de 1925 a 1945, mais de 70.000 pessoas foram presas e a lei só foi revogada com o fim da guerra pelas autoridades de ocupação dos Estados Unidos.

Na época em que esteve em vigor, foi criada especialmente para o cumprimento da Lei de Preservação da Paz uma seção de “Polícia do Pensamento” para monitorar atividades socialistas e comunistas, e uma seção estudantil para monitorar professores e estudantes universitários, além de “Promotores do Pensamento” especiais designados apenas para combater os chamados “Crimes do Pensamento[3].

Cena da prisão de Shigeru

Kabei, nossa mãe é um retrato simultâneo do Japão intransigente e difícil da Segunda Guerra e da perseguição ferrenha aos socialistas e opositores do governo autoritário, sobretudo daqueles contrários à guerra contra a China.

Shigeru Nogami, a quem a família chamava carinhosamente de Tobei, era um professor universitário reconhecido, mas que fazia forte oposição à guerra. Por conta de suas ideias, ele não conseguia que seus livros fossem aprovados pela censura e sua família começava a passar por dificuldades financeiras. Mas além de censurado, suas ideias o levam à cadeia quando no início do ano de 1940 ele é preso pela Tokkō, a polícia especial, fundada especificamente para investigar e controlar grupos políticos e ideologias consideradas subversivas[4]. Sua prisão se torna um motivo de vergonha para seu sogro, chefe de polícia da capital da província de Yamaguchi, e deixa sua esposa, Kayo, em profundas dificuldades financeiras e com problemas com a própria família, ou seja, com o pai.

Kayo, que as crianças chamam de Kabei, apelido ao qual o título do filme faz referência, é uma mulher forte e perseverante, mas de constituição física frágil. Com a ajuda da cunhada, mas sobretudo de Yamazaki ela luta pela sobrevivência da família e para conseguir cuidar do marido preso. A interpretação de Sayuri Yoshinaga é suave e delicada, expressando com originalidade e vivacidade cada uma das emoções vividas por sua personagem. Ela é, junto com a personagem de Yamazaki, o coração da história e um exemplo de hombridade, delicadeza e determinação silenciosa.

Por sua vez, Yamazaki é um jovem estudante, muito formal, meio desajeitado e sem nenhuma condição financeira, como denotam suas meias furadas e seus sapatos rotos. Ele se oferece para ajudar a família Nogami em tudo quanto for possível, e gradativamente vai se tornando um importante pilar e uma pessoa imprescindível para Kayo e suas filhas, uma figura masculina, de presença frequente e de ajuda sincera. A pouca felicidade que a família passa a ter depois da prisão de Shigeru é oportunizada por sua presença e gradualmente aquela se torna também a sua família.

A atuação das suas meninas, Hatsuko Nogami (Mirai Shida), apelidada de "Hatsubei", e de Teruyo Nogami (Miku Satō), a pequena e esfomeada "Terubei", também foram enriquecedoras e imprescindíveis para a composição da curva dramática da história.

Crítica

O filme como um todo é uma produção simples e claramente com baixo orçamento, mas a sua delicadeza lhe dá uma qualidade relevante e sobressalente. Não há nenhum aspecto da trama ou da produção da película que não tenha me agradado.

Dramático sem ser piegas

Como meus leitores já sabem, costumo ignorar detalhes como figurinos, maquiagens e trilhas sonoras. É uma falha minha, mas não costumo pensar em detalhes como esse. Em Kabei, o que mais me chamou a atenção foi a dramaticidade da narrativa que possui aquele traço típico dos japoneses de interpretações contidas, mas profundas e verossímeis, e, também, o contexto histórico que descrevia anteriormente. Ainda assim, a singeleza dos cenários, dos objetos e da cenografia é evidente e se sobressai chamando nossa atenção, além de ser condizente com os tempos austeros que o Japão vivia. Notamos pelos cenários e até figurinos a ambivalência dos costumes orientais tradicionais – sobretudo nas roupas utilizadas por Kayo e Shigeru, como em todo o estilo de sua casa – e a inserção da cultura ocidental que pouco a pouco penetrava no estilo de vida japonês e ganhava raízes profundas.

Não há aspecto do filme que eu não tenha gostado, nem da trama ou da interpretação de seus atores. O que me irritou bastante foi, no entanto, a grande dificuldade de conseguir o filme e legendas apropriadas.

Os diálogos são muito bem construídos e transmitem para a tela os sentimentos de suas personagens de forma com que quem assiste fica imerso na narrativa e nos dramas vividos pelas personagens. Como já disse as interpretações são contidas, como é típico dos japoneses, e evita o dramalhão comum a outras escolas de cinema tipicamente ocidentais.

Apesar de baseada em fatos reais a trama é bastante viva e se alimenta do absurdo de uma época onde a censura e falta de liberdade de pensamento, bem como a guerra consumia vidas e destruía famílias de forma indiferente e cruel. Desta forma o tom geral de um roteiro que é que ainda que real é instigante é de uma melancolia que se alterna com pequenos momentos de humor e descontração, ao mesmo tempo que descreve um período importante na história do Japão.


Destaque para os olhos
A câmera de Yamada explora bastante as emoções em enquadramentos que destacam sobretudo os olhos dos atores. Mas o que mais se sobressai são os planos mais amplos que colocam em um só enquadramento todos os personagens, mostrando-os como um conjunto unido, inseparável, o que nos transmite a sensação de uma família que não deseja ser separada, mas estar sempre junta, e cujo desejo maior é se reunir com o pai preso. Por fim, há também outros ângulos da câmera de Yamada, sobretudo aqueles ângulos a partir de cantos e cômodos da casa, que capturam cenas do cotidiano como alguém que espia, por uma porta aberta, a intimidade de uma refeição, na qual a presença do pai é apenas uma fotografia para qual as meninas insistem de oferecer o jantar.

Mas se a câmera e seus ângulos me chamaram a atenção, também as cores e a iluminação destacam nesse filme. As cores quase sempre em tons neutros de bege, cinza e branco se mesclam aos tons escuros que realçam a melancolia daqueles dias de incerteza. Mas, contraditoriamente, Kabei é um filme de muita luz e cenários claros o que não permite que a desesperança contagie o telespectador que espera do filme um desfecho propício, ou quem sabe um final feliz.


Enquadramento a partir de cantos da casa
Enfim, Kabei é um filme de altíssima qualidade narrativa, um drama que não é piegas, mas, ainda assim, comovente e delicado. Seus personagens muito bem construídos são cativantes e no enredo cumprem papéis fundamentais e bem demarcados. Ele atinge todas as expectativas e tem todas as nuances que normalmente encontro nos dramas japoneses: interpretações contidas, narrativas delicadas, dramatizações sem dramalhão e um certo humor muito bem dosado que surge somente no momento que é mais propício para ele.

O desfecho pode não agradar quem espera um final feliz, mas é realista – lembremos que o filme é baseado numa história real –, ainda assim, tem sua poesia e me agradou bastante, assim como me comoveu. Ele nos faz lembrar que a vida não é justa e está longe de ser perfeita, mas, ao mesmo tempo, traz uma mensagem de perseverança, ao nos lembrar que tempos difíceis passam e a vida prossegue seu curso inexorável.

Kabei, nossa mãe é de fato um bom filme, que valeu a pena o esforço de conseguir e traz, em si, o melhor que o cinema japonês tem a oferecer: dramas singelos e delicados, que mostram o quão frágil é a existência humana.

A película é uma produção dos estúdios Shochiku e entrou em cartaz no ano de 2008. Tem duração de 133 minutos. Abaixo você pode conferir o trailer do filme:

Trailer


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Listas e Postagens Especiais

Cinema







[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Leis_de_Preserva%C3%A7%C3%A3o_da_Paz
[2] https://pt.wikipedia.org/wiki/Leis_de_Preserva%C3%A7%C3%A3o_da_Paz
[3] https://pt.wikipedia.org/wiki/Leis_de_Preserva%C3%A7%C3%A3o_da_Paz
[4] https://pt.wikipedia.org/wiki/Tokubetsu_K%C5%8Dt%C5%8D_Keisatsu

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

A Vida Secreta do Senhor de Musashi e Kuzu – Junichiro Tanizaki – Resenha


Por Eric Silva

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.
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Um samurai com uma perversão sádica e necrófila e um escritor que parte em uma jornada em busca de inspiração, A Vida Secreta do Senhor de Musashi é a reunião de duas novelas que inicialmente chama à atenção por uma temática muito peculiar e provocativa, mas que no final não impressiona.

Confira a resenha do décimo livro da III Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo que em 2018 homenageia literatura japonesa.

Um livro, dois enredos distintos

Retratando duas épocas distintas da história do Japão, as duas novelas que compõem esse livro possuem tons e temáticas bastante distintos ainda que abordem a cultura de um mesmo país.

A primeira novela, que dá nome ao livro, relata a história de Terukatsu, o filho de um poderoso senhor de terras, que na infância foi conhecido por Hôshimaru e, na idade adulta, chegaria a suceder seu pai como o senhor de Musashi.

A Vida Secreta do Senhor de Musashi começa contando como, ainda na infância, Hôshimaru havia perdido sua inocência e adquirido uma certa inclinação sexual sadista.

Quando ainda era criança seu pai, Terukuni, selou um acordo político de paz com Tsukuma Ikkansai, senhor do castelo de Ojika. Nos termos desse acordo, Terukuni entregou seu filho mais velho e herdeiro, de apenas seis anos, como refém de Ikkansai. Hôshimaru foi então separado de sua família e levado ao castelo de Ojika, onde viveu por dez anos recebendo instrução em literatura e artes marciais para que se tornasse um samurai.

É nesse período que o castelo de Ojika é cercado por tropas inimigas e após semanas de cerco ameaça é tomado pelos inimigos. Por ser ainda menino e incapaz de lutar, Hôshimaru fica isolado com as mulheres e outras crianças no interior do castelo enquanto a guerra não é decidida. Inconformado por não poder participar das lutas, o menino fica curioso acerca das batalhas que acontecia fora dos muros do castelo até que ele encontra a oportunidade de presenciar um dos mais importantes rituais de guerra da cultura japonesa da época: o trato das cabeças decapitadas dos inimigos vencidos em batalha.

Ajudado por uma das mulheres que cuidavam das cabeças recolhidas pelos guerreiros de Ikkansai, Hôshimaru foge até um sótão isolado do castelo e lá assiste a um grupo de mulheres, entre elas uma linda jovem, que lavavam, penteavam e maquiavam as cabeças decapitadas. Maravilhado com aquele ritual e sobretudo com o zelo extremado com o qual a mais jovem das mulheres tratava as cabeças dos samurais, o menino desperta para sua sexualidade e tem o gatilho para o desenvolvimento de um fetiche sexual sádico e necrófilo que o acompanhará pelo restante da vida e que, de modo direto, influirá na sua personalidade, nas suas ações depois de adulto e nas suas decisões enquanto guerreiro e senhor feudal.

Por usa vez, na segunda novela, Kuzu, Junichiro Tanizaki conta a história da jornada de dois amigos à remota povoação que dá nome à história. O narrador de Kuzu é um escritor que busca inspiração para seu novo livro e decide partir em uma viagem à região de Yoshino, em Yamato, onde poderia resgatar informações sobre a vida de uma importante figura da história medieval japonesa: o Imperador Celestial. Com ele viaja um antigo amigo que busca alguns parentes e com eles as origens e a história de sua mãe falecida ainda muito jovem. Juntos eles seguem uma jornada de encontros e reencontros com o passado. A história gira entorno dessa busca dos dois personagens ao passo que se concilia com elementos da história e da cultura secular japonesa.

Resenha

Capa da edição lida. Imagem produzida por Eric Silva, em dezembro de 2018.
À primeira vista A Vida Secreta do Senhor de Musashi e Kuzu podem parecer duas narrativas bastante distintas, apesar de escritos pelas mesmas mãos. Essa sensação é em decorrência das temáticas muito diferentes e discrepantes. Contudo notei várias semelhanças no estilo de suas narrativas. A primeira delas foi a forma documental com o qual se dá a narração.

Em ambas as novelas Tanizaki traz um narrador que é também um investigador do passado. Tanto o narrador observador de A Vida Secreta do Senhor de Musashi quanto o narrador personagem de Kuzu contam suas histórias com um profundo tom jornalístico que enfatiza bastante as peculiaridades culturais e históricas dos momentos históricos por eles pesquisados.

O narrador da primeira novela se apoia em escritos de pessoas próximas do senhor de Musashi para narrar sua história. Ele interpreta os escritos o compara e aí reconstrói o mosaico da vida sexual e particular do protagonista. Enquanto isso, o narrador de Kuzu mescla documentação histórica com história pessoal sua e de seu amigo, mas ainda aí há um profundo tom de resgate e de documentação do passado.

Outro aspecto foi a ênfase grande nos aspectos culturais de cada época. Muitas referências às artes literárias e guerreiras, às fábulas e à cultura são feitas pelo escritor, com maior destaque para Kuzu.

Contudo o conteúdo de A Vida Secreta do Senhor de Musashi é mais inquietante, ainda que não seja um texto apelativo ou demasiadamente pesado. Não é uma abordagem pornográfica e muito menos sensacionalista, mas que ainda assim mexe com muitos tabus. Por sua vez, Kuzu tem uma temática bem mais leve e monótona – na verdade achei todo o livro monótono. 

Por ser profundamente ligado a elementos culturais do Japão, esse segundo conto exige do leitor conhecimentos profundos sobre a literatura, a história japonesa, do seu folclore e de seu teatro tradicional. Confesso que me senti perdido na leitura dessa novela, que além de enfadonha é cheia de citações e referências a coisas que simplesmente desconheço e cuja ausência de notas de rodapé contribuíram para me manter na ignorância. Por isso, não consegui me concentrar na leitura que foi mais maquinal e mecânica do que imaginei que seria ao começar as primeiras páginas.

A escrita de Tanizaki não é atrativa, metafórica ou lírica e poética, ainda que seja firme e fluida. Mesmo Kuzu com a beleza de seus cenários poderia ser um conto belo e poético, mas foi seco e sem beleza.

Objetivamente, nada nos dois contos me chamou muito a atenção. O caráter jornalístico das novelas foi o que mais me desestimulou durante a narrativa com as constantes intromissões e análises do narrador da primeira novela, bem como com a insistência do narrador de Kuzu em fazer milhares de referências e inferências a aspectos da história japonesa e de sua arte.

Quando li Beleza e Tristeza de Yasurai Kawabata me incomodou um pouco as constantes e massivas referências ao mundo das artes e que davam base a trama, mas consegui tolerá-las sem prejuízo da minha compreensão da narrativa. Em grande parte, a escrita limpa de Kawabata e a construção dos personagens e do drama entorno do qual gira a trama tenham contribuído enormemente para manter minha atenção. Contudo, o mesmo não se deu com os escritos de Tanizaki. De certo modo a falta de sabor como o qual a segunda metade da primeira novela se desenvolve foi o gatilho para que eu não tivesse mais paciência para compreender Kuzu de uma forma mais global. Confesso que só os últimos capítulos foram para mim mais significativos e inteligíveis, porém o desfecho dessa segunda novela foi tão fraco e decepcionante que me arrependi do tempo gasto em sua leitura.

Aprendi um pouco mais da história dos samurais e das guerras e conflitos medievais da história japonesa e mesmo o rito das cabeças decapitadas me pareceu interessante. Por isso, e somente por isso valeu a pena ler A Vida Secreta do Senhor de Musashi, mas a história vai se tornando maçante e o texto não possui uma beleza estética que me impressionasse.

Ademais, os personagens, ainda que bem descritos e desenvolvidos, não impressionam nem cativam. Só Hôshimaru intriga por suas ações e inclinações morais, mas ele sozinho não é o suficiente para impedir que a trama se torne chata em grande parte do seu desenvolvimento. Não senti nenhum humor na trama nem um sentimento forte o suficiente para reduzir o forte tom jornalístico da primeira trama. Kuzu ainda suaviza esse seu caráter do meio para o final da trama, mas não salva por completo a peça.

A edição lida é da Editora Companhia das Letras, do ano de 2009 e possui 218 páginas.

Sobre o autor

Junichiro Tanizaki (谷崎 潤一郎) nasceu em 24 de julho de 1886, em Tóquio. É um dos maiores autores da literatura japonesa moderna e o mais popular romancista japonês depois de Natsume Soseki.

Estudou literatura japonesa na Universidade Imperial de Tóquio e com influências de Poe, Baudelaire e Oscar Wilde, começou a escrever desde cedo.  Publicou seu primeiro trabalho em 1909, numa revista literária que ajudou a fundar.

A partir de 1923, deixou-se absorver pela cultura de seu país e abandonou a inclinação ocidentalizante, vivendo nesse momento uma crise intelectual e emocional que contribuiu decisivamente para torná-lo um dos nomes centrais da literatura japonesa do século XX. O centro dos seus interesses é a preservação da língua e da cultura tradicional do Japão.

Em 1949, recebeu o prêmio Imperial de Literatura. Dentre suas principais obras estão Amor insensato (1924), Voragem (1928), Há quem prefira urtigas (1930), A chave (1956) e Diário de um velho louco (Estação Liberdade, 2002).

Morreu em 30 de julho de 1965, um ano após ter sido o primeiro autor japonês eleito membro honorário da American Academy and Institute of Arts and Letters.



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