segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Histórias da Outra Margem – Nagai Kafu – Resenha


Por Eric Silva

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Tadasu Oe é um escritor nostálgico que encontra em seu relacionamento mal resolvido com uma prostituta a inspiração necessária para seus livros.  Considerada a obra-prima de Nagai Kafu (永井 荷風), Histórias da Outra Margem (濹東綺譚, Bokutō Kidan) é o sexto livro da III Campanha Anual de Literatura que homenageia a literatura do Japão. Um romance curto, nostálgico e pintado sob as cores das estações do ano em terras japonesas.

Sinopse

Tóquio, década de 1930. Tadasu Oe é um escritor sexagenário, conhecido e saudosista que ocupa parte de seu tempo em idas e vindas pela capital japonesa em busca de inspiração para seu último livro. É durante um de seus passeios, no fim de uma tarde chuvosa, que Oe conhece Oyuki, uma moça pobre que abandonou sua vida como gueixa para prostituir-se na zona do bairro de Tamanoi. Logo os dois começam um caso prolongado e, enquanto escreve seu livro, Oe tira daquela relação o alento para sua solidão e a inspiração para sua literatura.

Dividido em dez pequenos capítulos, Histórias da Outra Margem é, ao mesmo tempo, o breve relato das incursões de Oe ao bairro que ficava ao leste do rio Sumida, durante o seu romance mal resolvido com Oyuki, e também a descrição do processo de composição e escrita de um romance.

Resenha

Foto: Eric Silva, 2018.
Publicado em 1937, Histórias da Outra Margem é um clássico contemporâneo japonês curto e que se caracteriza pela pouca variação nas ações de seus personagens. Ele é antes de mais nada uma longa conversa do narrador com o leitor.

Nessa longa conversa que compõe, contraditoriamente, um breve romance (quase uma novela), Tadasu Oe nos fala sobre diversos temas desde cineteatros à moda e literatura da época. Mas os assuntos preferidos do narrador são, no entanto outros: as mudanças na cidade de Tóquio, reconstruída após o terremoto de 1923; seu livro até certo ponto estagnado; o nem sempre tranquilo ofício de escritor e sua relação mal resolvida com Oyuki. A destruição e reconstrução da capital, porém tem dentro na narrativa um peso maior como se fossem símbolos da transformação e profunda ocidentalização do Japão nas primeiras décadas do século XX.

O livro é o retrato da vida boêmia toquiota na década de 30, sobretudo a vida das meretrizes das zonas semiperiféricas de bairros como a Tamanoi da época. Por conta desse fato, para quem não conhece Tóquio, a meu exemplo, e muito pior a Tóquio de 1930, esse livro é uma excursão por lugares totalmente desconhecidos, mas extremamente familiares para seu narrador. Muitos desses lugares já estão há muito perdidos, engolidos pelo tempo, e, no final, exigem do leitor um maior esforço de imaginação.

Mas algo muito curioso nesse livro é a sua intertextualidade acentuada. Uma intertextualidade que se constrói sobretudo com a obra do autor e com sua vida pessoal. Nele são citados livros anteriores de Nagai Kafu, amigos seus de infância como Aa Inoue e Soyo Kojiro, dos quais fala com saudade. O romance fictício desenvolvido pelo personagem e intitulado O Desaparecimento também possui citações transcrita no texto principal de Histórias da Outra Margem e até um capítulo inteiro é transcrito. Além disso, fragmentos de textos de outros escritores e poetas como Gakkai Yoda e Matsuo Bashô são citados, completando a intertextualidade do livro.

Pelos elementos pessoais presentes na obra e outros, marcantes nos hábitos e na personalidade boemia de Tadasu Oe, muitos especialistas em literatura japonesa consideram o personagem principal desse livro o alter ego de seu escritor. Assim como Oe, Kafu era assíduo frequentador de bordéis e casas de prazer, assim como a descrita na sua narrativa. Ademais, Histórias da Outra Margem, como descrito na orelha do livro, parece uma mistura de diário, ficção, poesia, crônica e memórias.

A narração é linear e não explora o uso de flashbacks, ainda que o narrador pareça nostálgico em relação ao passado.

Apesar de cronológico, o tempo decorrido durante a narrativa não é preciso e nem definido. Ao que me pareceu apenas a passagem das estações do ano permitem precisar o tempo em que as ações ocorrem e por isso as mudanças no tempo são essenciais na narrativa.

Já observei, na maioria dos livros japoneses que já li, que as estações do ano é um elemento muito explorado pelos escritores nipônicos. Em Naufrágios de Akira Yoshimura esse destaque para as estações e seu uso como demarcador do tempo é icônico e entorno delas é construída toda a trama. Mesmo em animes e mangás essa é uma característica japonesa proeminente e curiosa, como se o “calendário natural” convivesse harmoniosamente ou até mesmo subordinasse o calendário convencional.

No livro de Kafu, a passagem das estações é também elemento importante e que se concilia com o aparecimento dos mosquitos que infestavam Tamanoi no verão escaldante de Tóquio. Datas são pouco usadas com exceção de alguns anos que demarcam acontecimentos anteriores à trama. Também no final do livro, que é encerrado com a provável data de fechamento de sua escrita: “Tóquio, 30 de outubro de 1936, ano do cavalo”.

Um elenco pequeno: narrador e personagem

Com um profundo tom intimista e olhos centrado na vida cotidiana e literária de seu narrador, Histórias da Outra Margem é um livro que parece alheio ao momento histórico de totalitarismo político, ultranacionalismo e imperialismo militar que dominou o cenário político japonês e que culminou na invasão japonesa da China em 1937, ano de publicação do livro. Contudo, não é uma obra que se encontra alheia as mudanças provocadas pelo tempo que muda não só as pessoas como os lugares, marcando na retina daqueles que viveram bastante a saudade de coisas que se perderam no passado. Essa nostalgia é a principal marca da narrativa desse livro, o que fica nítido sobretudo no saudosismo de Oe que descortina as mudanças profundas e pouco sutis sofridas pela cidade de Tóquio após o grande sismo de Kantō, terremoto ocorrido no ano de 1923, cujos efeitos – somados a um tsunami subsequente e inúmeros incêndios – foi responsável pela morte de 110 mil japoneses.
Em muitas passagens o narrador é irônico e opina sobre a polícia metropolitana, o trabalho dos cafetões e as transformações ocorridas na cidade que muito lhe desagradam:

“Eu queria mostrar como a beleza da Tóquio antiga, de seus bairros famosos, se perdeu depois da reconstrução que se seguiu ao Terremoto de 1923. Por isso, queria que a história de Taneda e passassem em um desses lugares da capital, cujo charme de outrora se fora para sempre: Honjo, Fukagawa, os arredores de Asakusa; [...]”.

Ao longo de toda a narrativa, Oe recorda os lugares que já não existem na “nova” Tóquio, as mudanças provocadas não só pela destruição do terremoto (principal marco temporal usado pelo narrador para separar a nova da antiga capital), como também aquelas provocadas pelo crescimento da cidade em direção aos seus subúrbios; o surgimento de novas áreas periféricas e a transformação de bairros boêmios ou antigas zonas de prostituição forçadas a se deslocarem em decorrência do avanço da cidade.

Por conta disso, o tom principal desta narrativa é marcado pela nostalgia de um personagem que viveu uma outra Tóquio, diferente, e que viu ruir e transmutar após as chamas e destruições provocadas pelo sismo. Mas mais do que uma Tóquio que foi consumida pelo fogo ele sente saudades de uma era que deixou de existir após a restauração da era Meiji e que foi responsável pela modernização do país.

Podemos dizer inclusive que é a forma ainda muito tradicional com a qual Oyuki se veste um dos principais atrativos que atraem o protagonista de Kafu. A monotonia da casa onde ela atendia complementaria o interesse do escritor que foge do barulho dos rádios e megafones das casas vizinhas a sua.

Porém, a nostalgia não é a único traço do desenho psicológico do narrador e personagem principal. Ele é um homem de hábitos simples, mas possui uma seriedade difícil de enquadrar, porque não é grave como a de alguns homens moralistas e inflexíveis (o que ele não é nem um pouco) e nem se dilui em risos ou brincadeiras.

Ele é também tranquilo, contemplativo e perspicaz, mas deixa transparece uma personalidade um pouco relapsa. Alguns críticos e resenhistas o classificam com um outsider, alguém “apreciador de uma outra época”[1]. Sua forma de se expressar e conviver, porém demonstra não apenas toda a natureza tranquila e até fria típica de alguns estereótipos orientais mais comuns, mas também a distinção de alguém muito instruído, o que de certa forma contrasta com os ambientes degradados e moralmente indecorosos frequentados por eles.

Oe, além de escritor reconhecido e que inclusive viveu parte de sua vida no exterior, é um assíduo frequentador das casas de prazer toquiotas e profundo conhecedor do mundo dos bordéis, cafetões e prostitutas. Por conta disso não é de se surpreender que esse seja um dos principais temas de seus diálogos com o leitor. Contudo, a forma de falar de Oe se mantém polida durante a maior parte do texto. Só notamos alguma diferença quando Oyuki, confundindo-o com um marchand[2] de desenhos “secretos” (pornográficos), passa a falar com ele de uma forma mais coloquial e faz menos “cerimônia” em sua presença.

Não obstante, o narrador tem consciência de que os ambientes frequentados por ele lhe renderiam má fama em seu meio e, por isso, tomava cuidado para não ser visto por nenhum jornalista. Também para evitar ser visto de uma forma diferente naquele mundo, omite sua condição e profissão, inclusive de Oyuki.

Por sua vez, Oyuki é uma mulher de comportamento muito típico para a sua profissão, o que, em parte, alimenta estereótipos. Ela não é excessivamente vulgar, mas não deixa de ser. Trata-se de uma moça pobre, de origem camponesa, ainda um pouco ingênua e, até certo ponto, afável e jovial. Todavia, em muitos momentos Oyuki revela a tristeza profunda e o cansaço de quem vive uma vida difícil e sem recompensas. É um personagem profundo, mas que não consegui captar completamente, por isso, não tenho muito o que falar de Oyuki, ainda mais que tudo sobre ela é filtrado pelo olhar do narrador que a olha com curiosidade e certa compunção[3].

O elenco do livro é composto por muito poucos personagens, a maioria deles tem participação muito secundária e que se resume a um único capítulo ou apenas parte dele. Também não há uma preocupação excessiva com descrever os personagens, apenas a Oyuki, mas isso é feito de forma espaçada no ritmo de desenvolvimento da trama. Porém, a descrição de Oyuki, em contraponto com os demais personagens, é justificável, uma vez que ela é a “musa” do narrador e sua inspiração.

Apreciação crítica

Foto: Eric Silva, 2018.
Apesar de puxar mais para a descrição e divagações do narrador, Kafu buscou nesse livro um equilíbrio entre narração e diálogo. A escrita é bem estruturada, mas a narrativa não é instigante. Não há sobressaltos nem grandes acontecimentos, apenas uma monotonia de dias quentes cheios de mosquitos, ou tardes bonitas que terminam em chuvas repentinas. O livro como um todo é um monólito de granito formado por muitos grãos (poesias, narrativa, intertextualidade, cartas, memórias), mas sem a beleza de uma trama complexa ou dinâmica.

Histórias da Outra Margem é, em suma, bastante cotidiano, semelhante ao livro Beleza e Tristeza de Yasunari Kawabata que é igualmente monótono, o que faz de ambas as obras impopulares entre as gerações mais atuais. Ainda assim, é uma leitura fluída e não travei em nenhum momento ou abandonei a leitura se não fosse por um motivo apropriado.

A obra é antiga já tendo completado mais de 80 anos de publicado, o que contrasta bastante com a idade da edição lida por mim que tem apenas oito anos de publicação, uma diferença de mais de sete décadas. Isso demonstra o quanto o mercado editorial brasileiro continua fechado às obras estrangeiras que não pertencem a literatura euro-estadunidense.

A literatura japonesa ainda chega até nós com maior frequência, a exemplo das obras de Haruki Murakami e Yasunari Kawabata, mas quando se trata de outros países asiáticos e principalmente africanos e da Oceania há uma vasta lacuna de milhares de livros que nunca foram traduzidos e que provavelmente não serão, com exceção, é claro, dos antigos e futuros ganhadores do Nobel de Literatura. Por isso, o trabalho da editora Estação Liberdade é importantíssimo para que essa leitura oriental chegue ao público brasileiro.

Mas, a despeito da longevidade da obra, a tradução impecável de Andrei Cunha facilita a leitura que não possui uma linguagem demasiadamente erudita. Além disso, as notas de rodapé escritas pelo tradutor foram imprescindíveis para o entendimento da obra que faz muitas referências aos costumes, à cultura e à moda japonesa da época. Cunha também traduziu, para a mesma casa editorial, o livro Guerra das Gueixas, outra obra icônica de Kafu.

A diagramação é também caprichada e o livro foi feito com papel de excelente qualidade, se não bastasse, os desenhos de Shohachi Kimura, que marcam a divisão dos capítulos, foram retirados da edição original e tornam ainda mais atraente a edição brasileira.

Em conclusão, o desfecho de Histórias da Outra Margem não surpreende, porque o narrador vai dando diversas pistas ao longo dos últimos capítulos. Contudo, é um final original, porque, apropriando-me das palavras do próprio Oe, não se preocupa em ser “satisfatório”. Oe, ao contrário, nos convida a pensarmos uma outra forma de concluir o seu romance.
Breve, sutil e um pouco monótono, mas de uma qualidade literária indiscutível. Este é Histórias da Outra Margem de Nagai Kafu.

A edição lida é da Editora Estação Liberdade, do ano de 2013 e possui 128 páginas.

Sobre o autor

Nagai Kafu (永井 荷風) é o pseudônimo de Nagai Sokichi. Kafu nasceu em Tóquio no ano de 1879 e é autor de romances, contos e peças de teatro.

Desde a adolescência interessou-se por literatura e cultura tradicional japonesa e chinesa.

Aos 19 anos escreveu seus primeiros contos, publicados a partir de 1900. Rebelde quando jovem, Kafu não conseguiu terminar seus estudos universitários. Na primeira década do século XX viveu no exterior, primeiramente em Nova York, onde trabalhou em um banco japonês. Em 1906, muda-se para Lyon, na França, onde teve um contato mais intenso com a cena literária, especialmente com a escola do simbolismo. Esse período inspirou o livro Amerika Monogatari [Histórias americanas], de 1908.

Ao retornar ao Japão, em 1908, já era um homem de letras maduro e cosmopolita e torna-se estudante e tradutor de literatura francesa. Por alguns anos após seu retorno, Kafū foi professor na Universidade de Keiō, em Tóquio, e líder do mundo literário.

Manteve intensa produção até sua morte, em 1959.

Confira quem são os outros autores participantes da Campanha deste ano no link: http://bit.ly/2n5OK6U.

Conheça os pontos do nosso itinerário no mapa do link: http://bit.ly/2G9Mkwx.

No link abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Issuu.

Preview do Issuu








[1]Marilia Kubota. Nagai Kafu Retoma O Mundo Flutuante. Disponível em: https://revistamemai.wordpress.com/2013/02/26/19-literatura-nagai-kafu-retoma-o-mundo-flutuante-em-historias-de-outra-margem/.
[2] Palavra francesa (em português, "mercador" ou "comerciante") que, em alguns países não francófonos, designa o profissional que negocia obras de arte.
[3] Sentimento de pesar, de arrependimento por haver cometido má ação.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

A Fórmula Preferida do Professor – Yoko Ogawa – Resenha


Por Eric Silva

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Livro mais famoso da escritora japonesa Yoko Ogawa, A Fórmula Preferida do Professor é uma obra delicada e cheia de significados, que enaltece a beleza da matemática, ao mesmo tempo que destrincha as relações humanas de afeto, cuidado e zelo mútuo.

Confira a resenha do quinto livro da Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo, que neste ano homenageia a literatura japonesa.

Sinopse

Empregada doméstica agenciada por uma empresa especializada, a narradora deste livro é uma mãe solteira que deixa seu filho sozinho em casa para garantir o sustento dos dois. Contudo, sua vida conhece uma reviravolta quando passa a trabalhar para um velho professor de matemática incapaz de manter sua memória por mais de 80 minutos.

Nomeado apenas como Professor, o matemático vive recluso em casa, se dedicando exclusivamente a resolver desafios matemáticos propostos por revistas especializadas. Um senhor muito peculiar e de difícil trato, mas que quando conhece o filho de sua empregada, um garoto de dez anos por ele apelidado de Raiz, se revela um apaixonado por crianças. No convívio com aquela inusitada figura, com suas roupas repletas de lembretes e sua a incapacidade de memorizar quem são aquelas pessoas, mãe e filho despertam o amor pela matemática e aprende o significado do respeito, da amizade e a importância do cuidado.

Resenha

Um enredo tocante

A narradora de A Fórmula Preferida do Professor é uma mulher ainda jovem, mas que com sacrifício sustenta seu filho de apenas 10 anos, sem a ajuda de um pai e com o parco salário que recebia por seu trabalho através de uma agência de empregadas domésticas.

A acostumada a um trabalho nem sempre recompensador e muitas vezes com empregadores de difícil trato, ela sempre buscava não se envolver demais com as pessoas as quais servia, acostumar-se às despedidas nem sempre amigáveis e a esquecer-se das pessoas tão rápido quanto ela mesma era esquecida por eles. Tudo muda, porém, quando ela é escalada pela agência para trabalhar com um dos clientes mais problemáticos, um professor aposentado por invalidez, e em cuja casa nove outras funcionárias já haviam trabalhado e sido dispensadas algum tempo depois.

Com uma narração marcada pela delicadeza e simplicidade que fortemente caracterizam a personagem, ela conta como junto com seu filho conheceram e se afeiçoaram ao “Professor”, um matemático de grande inteligência e um mestre paciente, mas cuja memória, após um acidente de trânsito, havia parado no ano de 1975 e se tornado incapaz de guardar qualquer lembrança do presente por não mais do que 80 minutos.

O Professor era um homem reservado. Quando concentrado na resolução de algum problema matemático ficava mal-humorado se interrompido. Além disso, só parecia à vontade quando estava falando de algum conhecimento da matemática. Era fã de basebol e sobretudo do arremessador do Hanshin Tigers, Yutaka Enatsu, o camisa 28 (um número perfeito).

Como não conseguia se recordar de nada que fizera, ouvira ou das pessoas e lugares que conhecera após os 80 minutos durante os quais duravam sua memória recente, o velho magistrado tinha seu paletó sempre coberto de lembretes que o ajudavam a lembrar, inclusive, de sua enfermidade. Todos os dias para ele era como um retorno ao mesmo ponto, incapaz de reter qualquer que fosse a informação, por mais importante que ela fosse. A matemática era seu único elo com o mundo e com as pessoas com os quais convivia. Pelo mesmo motivo todas as manhãs recebia a empregada como se não a conhecesse, e, por sua incapacidade de lembrar-se, a recepcionava com as mesmas perguntas: Que número você calça? Qual o número do seu telefone? Perguntas cujas respostas ele sempre encontrava algum maravilhoso padrão matemático.

A narradora demora um pouco a se acostumar com o trabalho tão atípico, apesar de pouco penoso e que se resumia a cuidar das tarefas domésticas de uma edícula pobre e de um patrão pouco exigente. Na verdade, mesmo a sua verdadeira empregadora, a cunhada do velho professor e que morava na casa principal, não queria ser importunada e em nada interferia em seu trabalho.

No entanto, a vida da humilde doméstica encontra uma grande revolução quando o professor, sabendo que a empregada possuía um filho pequeno que ficava sozinho em casa até que a mãe retornasse, exige-lhe que não deixe o menino sozinho e traga-o para o trabalho quando este saísse da escola no final da manhã. É assim que o filho da narradora recebe o carinhoso apelido de Raiz (o símbolo matemático) devido sua cabeça achatada.

Com o tempo, mãe e filho começam a criar um laço poderoso de afeto e cumplicidade em relação ao Professor, e ambos se recobrem de cuidados para nunca o deixar desconfortável ou aborrecê-lo por conta de algo trivial que chegasse a esquecer. Era assim que buscavam retribuir ao matemático que sempre paciente os ensinavam algo novo do mundo dos números e se demonstrava muito amoroso e atencioso com o menino.

Cuidado e humanidade: a construção dos personagens

“Todas as manhãs, quando acordava e vestia seu terno, o Professor recebi o veredicto do lembrete que ele próprio escrevera, sobre sua enfermidade. E então percebia que o sonho que acreditava ser daquela noite fora na realidade o último que sonhara em uma noite longínqua, quando a sua memória ainda vivia. Era esse o momento em que ele se dava conta, devastado, de que o seu eu de ontem despencara por uma fresta do tempo ao fundo de um abismo de onde jamais seria resgatado. Aquele Professor que protegera Raiz da bola perdida já se tornara cadáver dentro dele mesmo. Todos os dias, invariavelmente, ele recebia sozinho, sentado sob sobre o seu leito, esse veredicto tão cruel. Como eu pudera não pensar nisso sequer uma única vez, durante todo esse tempo.”

Esse é um livro que fala sobre laços afetivos, sobre empatia, cumplicidade e amizade. É um exemplo típico daquelas obras que nos ensina o quanto o mundo está carente de atenção e de amor, sobretudo as pessoas enfermas, idosas e de difícil trato. Essa é certamente a mensagem transmitida por Ogawa nesse livro, o que já é bastante evidente na citação acima. O seu objetivo é nos faz recordar como essas pessoas ainda tem tanto a nos ensina e a contribuir com o mundo, mas muitas vezes são jogadas às traças e esquecidas, potenciais subutilizados e desprezados por uma juventude tão impaciente, imediatista e egocêntrica – focada em si mesma e em seus problemas e questões.

O professor era como uma dessas pessoas, esquecido em uma edícula malcuidada e decadente, enquanto sua mente, apesar da memória limitadíssima, ainda era capaz de apresentar de uma maneira toda especial as maravilhas do mundo dos números. A empregada e seu filho são os primeiros a despertarem para as necessidades do professor e para todo o valor que ele possuía. Ele se torna, não apenas um patrão com problemas de memória, mas um elemento formador que agregava significados a vida de mãe e filho. Um modelo, um exemplo e ao mesmo tempo um amigo, um companheiro. Ele desperta não apenas o lado maternal e fraterno, o desejo de cuidar, mas a curiosidade para um mundo novo e ainda inexplorado: o mundo da matemática. Dessa forma não apenas sua vida é mudada com um salto em qualidade, como ele, sem nem mesmo se dar conta, vai transformando a vida dos outros dois que dividiam com ele aquela difícil rotina.

Ao mesmo tempo, outra proposta da autora é reapresentar a matemática aos seus leitores, desmitificar seu lado frio e abstrato e ressaltar sua importância, beleza e brilho. Aqui a matemática é descrita pelo olhar de um apaixonado que vê no mundo a beleza dos números, das proporções, dos números infinitos “guardados no livro de Deus”. A matemática não unicamente como ciência, mas como forma de linguagem que permitiu criar uma ponte de comunicação e interação entre o Professor e as pessoas que estavam ao seu redor.

Foto: Eric Silva dos Santos, 2018.
Ogawa constrói personagens complexos e únicos, com desenhos psicológicos bem definidos. Mesmo o pequeno Raiz, sendo uma criança ativa e como qualquer outra nem sempre preocupada, em muitos momentos e em contextos muito precisos e adequados se demonstra alguém muito maduro e dedicado, amoroso, atencioso e zeloso. Ele tenta se adequar as necessidades do patrão de sua mãe sempre tomando o cuidado de não o deixar desconfortável com algum de seus esquecimentos. Junto com a mãe combina como agir para preservar o professor de pequenas coisas que o incomodasse e ter a infindável paciência de sempre responder (com o mesmo entusiasmo) às mesmas perguntas e lições matemáticas quando estas por acaso já tivessem sido feitas em outro momento.

A narradora também se demonstra uma pessoa zelosa e pouco a pouco vê sua visão de mundo contagiada pela beleza da matemática que tão singularmente seu patrão ensinava a ela e ao pequeno Raiz. Isso é tão marcante na personagem que ao caminhar para os últimos capítulos se torna nítido pelo discurso da narradora que esta começa a falar como uma matemática:

“– Oh! – Raiz soltou uma curta exclamação.
Uma exclamação sóbria, de gente adulta. Como alguém que tivesse lembrado da fórmula necessária para responder uma questão difícil, ou encontrado a linha auxiliar capaz de solucionar um problema gráfico que parecia impossível. Ela foi tão comedida, que por um momento eu nem percebi que ele tinha em mãos o cartão desejando. ””

Por seu turno, o Professor é uma figura bem atípica. Sua aparência é bem desgastada e desamparada. Usava roupas bem envelhecidas e consumidas e cujo aspecto se tornava ainda mais estranho pelos muitos lembretes ali pendurados. Era na maior parte do tempo taciturno, introspectivo e até um pouco mal-humorado, mas quando se tratava da matemática ou do pequeno Raiz ele se transformava em um entusiasta, um apaixonado cheio de paciência, energia e carinho para ensinar e proteger. O bem-estar de Raiz era para ele prioridade absoluta, mesmo que dia a pós dia ele conhecesse pela primeira vez o menino da cabeça achatada.

O professor só se abatia quando por conta de seus esquecimentos ele se sentia em alguma situação constrangedora. Por isso mesmo, a narradora e seu filho se esforçavam ao máximo e mantinham um acordo secreto para evitar qualquer comentário ou situação que colocasse o professor em situações desconfortáveis.

Enfim, os personagens de Ogawa são humanos e com uma grande capacidade de demonstrar empatia. A narradora envolve o leitor ao dividir sua rotina diária com o professor e o filho, os problemas vividos, os desafios, os momentos de alegria, de preocupação e de dificuldades.

Um livro não escapa do seu contexto histórico: o desafio de um país e de suas mães solo (solteiras)

Foto: Eric Silva dos Santos, 2018.
Uma coisa que percebi no livro de Ogawa é que de forma muito indireta e nas entrelinhas ele está vinculado com o contexto histórico e social japonês da época em que foi publicado (2003) e também do tempo em que se passa a narração (1992).

A história se passa logo nos primeiros anos do maior período de estagnação econômica vivido pelo Japão. Um grande problema econômico que abrangeu toda a década de 1990 e também os anos 2000 e que teria a classe trabalhadora como a camada social mais atingida. Com a crise econômica iniciada naquela década muitas empresas japonesas abririam falência e grande parte da força de trabalho seria substituída por trabalhadores temporários, com “pouca segurança trabalhista e menos benefícios”[1]. Mesmo sem entra no mérito econômico, o livro de Yoko reflete um pouco da realidade da classe mais pobre japonesa e que, naqueles anos, sofreria com os reflexos mais perversos da crise.

A narradora de A Fórmula Preferida do Professor é uma mãe solo (solteira) com recursos limitadíssimos que deixa seu filho sozinho em casa para poder trabalhar. Ao longo de toda a narrativa (até seu desfecho) ela não ascende socialmente ou muda de profissão ou rendimento e os estudos do filho são mantidos com seu sacrifício. Abordei aqui há alguns meses a situação difícil das mães solteiras no Japão e o período no qual se passa a história foi, sem dúvidas, uma época ainda mais complicada para essa camada social que não conta com ajuda efetiva das políticas públicas japonesas. 

A narradora de Ogawa faz parte de um grupo social que em sua maioria se encontra na linha da pobreza e tem grandes dificuldades de sustentar suas famílias. (Confira a matéria sobre a situação difícil das mães solteiras japonesas nesse link).

A empregada do Professor, apesar de conseguir manter o filho, deixa explícitas as dificuldades para fazê-lo sozinha, tendo pouco tempo para sua criação e tendo que se sujeitar muitas vezes a mal empregadores para continuar trabalhando. A crise econômica da época não é citada em momento algum, ainda mais que o ano de 1992 era ainda o começo de tudo, mas como todo livro é, inevitavelmente, um reflexo de sua época, Ogawa escolhe como sua narradora alguém de um dos grupos sociais que mais dificuldades teriam de sobreviver com a economia em desequilíbrio. Assim, ela deixa transparecer toda a carência daquela mulher e de seu filho e até mesmo de seu patrão, cuja renda provinha de prêmios de desafios matemáticos que ganhava em revistas especializadas, sugerindo que a situação da classe idosa e deficiente também não era das melhores.

Esse é o segundo livro japonês que leio nesse ano e que de forma muito indireta reflete a situação econômica de seu país. O primeiro foi Relatos de um Gato Viajante, de Hiro Arikawa (lançado em 2011), que por retratar um período bem mais recente aborda de forma bem mais visível os problemas econômicos e sociais do Japão. Contudo, por não ser objetivo da autora, A Fórmula Preferida do Professor (2003) tangencia a questão de forma muito indireta e atenuada, como se fosse tudo aquilo algo muito pontual e específico apenas daqueles personagens, mas não deixa de ser uma lembrança de que a vida no Japão está longe de ser o paraíso de prosperidade presente no imaginário dos brasileiros.

Finalizando….

Foto: Eric Silva dos Santos, 2018.
Muito bem estruturada e leve, a escrita de Ogawa não é cheia nem de descrições excessivas nem de metáforas, além de ter um equilíbrio entre narração e diálogo. A narrativa é bastante linear e segue a ordem cronológica dos fatos. Os poucos fatos passados que são narrados não se dão em flashbacks, mas são comentados pela narradora. Toda a narrativa é contada sob uma única perspectiva e há uma grande influência emocional da narradora com sua história que ela conta em tom bastante nostálgico e até mesmo emotivo.

O livro ainda traz ainda muitas informações e teoremas de matemática, porém todas muito bem ilustradas e bem explicadas, o que facilita bastante a vida do leitor que não precisa fazer um esforço extra para compreender do que os personagens estão falando.

Sou formado em Geografia, mas exerço à docência em múltiplas áreas e trabalho há quase 13 anos com matemática. Mesmo com essa longuíssima experiência nunca fiz tantas descobertas matemáticas em um só livro e sem precisar fazer esforço para compreendê-las. Isso denota uma pesquisa impecável feita pela autora para garantir a verossimilhança da história e tornar mais realista o seu personagem. Ela constrói um matemático de verdade. Um entusiasta, um apaixonado.

A Fórmula Preferida do Professor é um livro delicado e até certa medida comovente e intimista. O desfecho é um tanto presumível, mas agrada e não tira a qualidade de uma narrativa escrita com cuidado e com personagens bem desenhados e cativantes. Para quem gosta de basebol o livro é um convite, porque este esporte é bastante explorado na trama. Para quem não é muito fã da matemática, é uma proposta para vê-la sob uma outra ótica. É também uma obra que ensina e nos faz refletir sobre o respeito, o cuidado e a amizade. Enfim, um livro completo e significativo. Leitura obrigatória.

A edição lida é da Editora Estação Liberdade, do ano de 2017 e possui 232 páginas.

Sobre o autor

Yoko Ogawa (小川 洋子) nasceu no Japão, em Okayama, em 1962. Se formou na Universidade de Waseda, e, hoje, vive em Ashiya, Hyogo, com seu marido e filho.

Como escritora, publica desde 1988 e atualmente é reconhecida como uma das escritoras de maior prestígio em seu país. Possui mais de vinte romances, traduzidos para diversos idiomas e algumas de suas obras foram adaptados para o cinema, a exemplo do filme francês L'annulaire (2005), baseado no livro Kusuriyubi no hyōhon (薬指の標本) e dirigido por Diane Bertrand.

Apenas três de seus livros já forma publicado no Brasil: o suspense O Museu do Silêncio (2016), o drama a Fórmula Preferida do Professor (2017) e o livro Hotel Íris (2011), uma de suas obras mais extensas e de conteúdo sexual mais explícito.

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Preview do Issuu





[1]https://pt.wikipedia.org/wiki/D%C3%A9cada_perdida_(Jap%C3%A3o)

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Absolutos – Sinfonia da Destruição – Rodolfo Salles – Resenha


Por Eric Silva

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Com um título inspirado, Absolutos: Sinfonia da Destruição é o último lançamento do selo editorial do blog A Taverna. Um space opera dinâmico e criativo e que dá início a série escrita pelo brasileiro Rodolfo Salles, com milhares de leitores na plataforma Wattpad.

Sinopse estendida

Em um futuro muito distante os seres humanos já não vivem isolados no planeta Terra. Viagens interestelares, bem como o contato com espécies alienígenas já são uma realidade, e devido a esses contatos muitas guerras e batalhas foram travadas até que as diferentes raças descobrissem uma maneira de coexistirem.

Érico é um jovem hacker que vive na pequena lua de Miesac, com seus irmãos adotivos Vexel, uma corredora profissional, e Miro, uma versão futurista de youtuber. Quando ainda era muito pequeno, o rapaz havia sido enviado àquela lua em uma cápsula de fuga por sua irmã biológica, Daina, para que escapasse do ataque alienígena que destruiria seu planeta natal. Resgatado pelos dois irmãos, Érico cresce em Miesac com o sonho de se tornar um caçador de relíquias, uma espécie de aventureiro intergaláctico que, em grupos, esquadrinha o Espaço em busca de artefatos antigos, raros e de grande valor. Porém alguns mistérios perturbam a mente do rapaz, cujo passado é praticamente desconhecido. O principal deles é o significado de um conjunto de tatuagens que ele possui por todo o corpo desde quando se lembrava.

É buscando respostas sobre seu passado e sobre as misteriosas tatuagens que Érico se aproxima de uma conhecida e poderosa irmandade hacker que lhe coloca em contato com uma entidade cibernética chamada Decifradora. Somente a Decifradora poderia ter respostas sobre o significado das tatuagens e com a ajuda da irmandade e de seus dois irmãos, Érico localiza a entidade que lhe faz revelações ainda mais perturbadoras.

O rapaz descobre que na verdade é um ser temido pelas mais poderosas organizações do Universo e que de tempos em tempos é responsável por trazer caos e destruição. Ele é um absoluto, único ser capaz de controlar uma poderosa e elementar forma de energia universal: o Campus.

De tão temível, a história dos Absolutos precedentes é censurada e sistematicamente apagada dos bancos de dados digitais de todo o universo. A existência de um absoluto é uma ameaça para o universo e deve ser extirpada, e se o poder de Érico despertasse ele também traria caos e destruição. Diante da previsão de um destino nefasto, Érico deseja ver-se livre daquele poder, mas para isso ele deveria encontrar um Desbravador, um tipo de hacker que tivera sua consciência digitalizada e “elevada” para o mundo virtual, permitindo-lhe acumular uma grande gama de conhecimentos. Apenas um Desbravador pode mudar o destino gravado naquelas tatuagens, mas encontrá-lo é um imenso desafio e Érico precisa se aventurar pela galáxia e ao mesmo tempo fugir de uma poderosa organização que deseja a sua destruição.

Resenha

Absolutos: uma space opera nacional

Primeiro volume da trilogia Absolutos, de Rodolfo Salles, Sinfonia da destruição é um space opera nacional que carrega todas as principais características de seu gênero e não faz feio quando se trata de criatividade, diversidade e poder imaginativo.

Ainda que sobre-existam alguns pequenos problemas em seu texto, publicado pela primeira vez em fevereiro de 2016, de forma independente, através da plataforma Wattpad, esse é um livro de qualidade evidente, não é à toa que na plataforma de textos ele possua mais de 28 mil leituras e tenha ficado em décimo lugar no ranking de livros de Ficção Científica do Wattpad em junho de 2017[1].

Atualmente, dentro do universo literário, tenho observado que o space opera, com suas viagens intergalácticas, planetas e formas de vidas exóticos, tem perdido espaço para as histórias de distopias tecnológicas geralmente situadas numa Terra destruída ou em colapso social ou ambiental, como muitas das histórias do gênero cyberpunk, que vem fazendo sucesso no mercado editorial internacional. Rodolfo, porém, aposta no retorno de um subgênero que contagiou muitas gerações e que presenteou o mundo geek com obras memoráveis como a série Fundação, de Isaac Asimov, na literatura, e, no cinema, com franquias como Star Trek (Jornada nas Estrelas), de Gene Roddenberry, e Star Wars (Guerra nas Estrelas), de George Lucas.

A proposta do livro é recheada de ideias criativas e originais. Ela, obviamente, se inspira no universo space opera do qual se origina, como a ideia de uma criatura titânica em forma de verme subterrâneo que me fez lembrar do universo de Duna, criado por Frank Herbert. Contudo, as respostas para a tecnologia, a proposta de um universo anárquico e o conjunto de espécies criadas pelo autor são originalíssimas. Além disso, a proposta sobre a qual foi criada a imagem do que é ser um Absoluto é muito instigante.

Achei divertida a forma como a trama brinca com a natureza e importância dos Absolutos. Eles certamente são tiranos sanguinários, mas seriam realmente obscuros os seus propósitos? Além disso, eles são cercados de mistérios. Do outro lado, temos Érico, que parece ser uma contradição no conjunto de Absolutos. Mas ele continuará sendo a ovelha negra da família? Ou cederá a sua herança histórica, tornando-se mais um temível tirano e o vilão de sua própria trama? Ou ainda, dominará seus dons, usando-os para um propósito maior? Muitas dúvidas permeiam a história de Érico e seu futuro. Ademais, a narrativa de Sinfonia da Destruição possui muitos outros mistérios e pontos obscuros que instigam a leitura completa da série.

Muitas espécies e personagens

Como não podia ser diferente, Rodolfo reserva um grande espaço em sua narrativa para a descrição não apenas do universo que ele cria para abrigar sua trama, como das muitas sociedades e espécies de seres vivos que nele habitam. Humanos, ánimas, tharinos, nobas, léstaris e muitos outros, cada qual com suas características e peculiaridades específica, povoam uma galáxia regimentada por uma forma de anarquia universal. Mas de todas as espécies, certamente, a que mais chama atenção são os tharinos, espécie bípede que só se diferenciava dos humanos pela “sua pele extremamente branca, lisa e seus olhos amarelos como girassóis”, além, é claro, da sua capacidade de abrir e selar portais que levavam a qualquer ponto do universo.

Personagens principais. da esquerda para direita: Érico, Darwin, Camilo e Alopex

Semelhante ao que o escritor Felipe Castilho faz em seu livro a Ordem Vermelha: filhos da degradação, Rodolfo cria um núcleo de personagens centrais com representantes de cada uma das espécies mais importantes, mas coloca um humano como seu protagonista.

Érico é antes de mais nada um sonhador, alguém sedento por ação e aventura e, por isso, na maior parte do tempo ele se demonstra muito empolgado, mesmo quando o seu destino se mostra um fardo preocupante. Muito jovem, a imagem que se pode ter de Érico é de alguém ainda imaturo e demasiadamente otimista. Porém, ele é também uma pessoa de ação, apegado à família, fiel e também corajoso, ainda que, por vezes, se demonstre bastante egoísta, sobretudo quando quer embarcar as pessoas em suas aventuras, mesmo quando estas claramente não estão dispostas a fazê-lo. Ele é assim com Camilo, um veterano de guerra que atormentado pelas muitas mortes que provocara em seu passado e, por isso, decidiu abandonar o trabalho de piloto de naves espaciais.

Camilo vivia isolado em um planeta inóspito onde montava espaçonaves com sucata vinda do espaço para depois revendê-las. Érico entra em sua vida de forma súbita e acaba arrastando-o contra vontade para sua aventura pelo espaço. O mesmo se dá com a ánima Alopex que por muito tempo se encontrou confinada em um laboratório abandonado e também é arrastada por Érico. Alopex como qualquer ánima tem um aspecto muito animalesco e até primitivo que não chega a se desenvolver “muito intelectualmente, passando a maior parte de sua vida agindo por instintos e inseridos em rotinas escolhidas por eles”. Apesar de agressiva, briguenta e irritadiça, a ánima se demonstra uma amiga zelosa e protetora.

Há ainda a tharina Darwin, uma criminosa irônica e de personalidade muito forte que salva a vida do rapaz em troca de sua própria liberdade e o impressiona com suas capacidades incríveis de teletransporte através de portais.

Muitos outros personagens importantes compõem a história, como o Tenente Hathor e os irmãos Vexel e Miro, além de outros que vão emergindo na trama ao longo de seu desenvolvendo e vão ocupando papéis estratégicos na mesma.

Edificando mundos: estética, narração e temáticas

Narrado em terceira pessoa, Sinfonia da Destruição possui alguns contrastes entre narração e diálogo que me chamaram a atenção logo nas primeiras páginas. Quando se analisa o narrador onisciente logo se nota que a forma como os mundos, as raças, a tecnologia e as ações dos personagens são descritos difere bastante da linguagem adotada por vários de seus personagens.

Sobretudo Érico e Miro, por serem personagens muito jovens, possuem uma linguagem muito despojada e coloquial comum aos adolescentes e que contrasta profundamente com a linguagem bem mais rebuscada de seu narrador. Contudo, os dois não são os únicos a terem uma linguagem contrastante. Outros personagens também apresentam linguagens pouco desenvolvidas ou coloquiais como Alopex, por ser uma ánima, e também Eurália, uma evox (ser com inteligência artificial) que devido a um defeito em seu sistema operacional tinha dificuldades de aprendizagem. O resultado final obtido pelo autor é uma mescla de estilos linguísticos que se tornam próprios dos personagens caracterizando-os e que, ao mesmo tempo, diverge do tom mais rebuscado da narração.

Entretanto, quando digo que a narração é mais rebuscada, não quero dizer com isso que Sinfonia da Destruição seja um livro difícil de ler. Pelo contrário, sua linguagem é leve e não chega a ser erudita, como nos clássicos. Uso o termo rebuscado em oposição a uma linguagem cotidiana, gramaticalmente incorreta e de vocabulário pobre, aspectos marcantes na forma de falar de Alopex e Eurália. Rodolfo escreve muito bem e seu texto flui com facilidade não sendo cansativa a leitura. Mesmo nas passagens mais descritivas (essenciais na ficção científica) o texto não se torna enfadonho ou desestimulante.

Não vejo grandes problemas na escrita deste primeiro livro da série, mas algo que me chamou a atenção foi, no entanto, muito pontual, e está relacionado a uma única cena um pouco mais romântica entre Darwin e Érico, já no meio da narrativa.

Nessa passagem, inicialmente de ação, os dois personagens passam muito abruptamente de uma situação de tensão, risco e espanto, para um momento mais relaxado e nostálgico, e de novo para uma situação de perigo e ameaça. O que me incomodou na cena foi sua transição emocional um tanto repentina que, no momento da leitura, me causou certo estranhamento.

Senti o esforço de Rodolfo para tornar natural a transição da primeira situação para a segunda, porém a mudança de “humores” dos dois personagens não soou muito bem integrados. Faltou um pouco mais de “gradatividade” (neologismos!!) que fariam com que o humor de ambos não mudasse de forma súbita ou inesperada. O cenário criado é espetacular e a forma como essa passagem acaba é quase um épico, mas a transição da ação para o nostálgico romântico precisava de mais suavidade, descrevendo também como a tharina foi passando da tensão de uma situação inesperada e ilógica, para um momento mais contemplativo e de recordação do passado. A transição de Érico foi bem descrita, mas há um apagão em relação a Darwin e desse ponto emergiu meu estranhamento.

Por sua vez, quanto a temática, o livro fala de liberdade e destino. Seriamos nós mesmos os responsáveis pelo caminho que trilhamos, ou ele já foi traçado como nos desenhos de uma tatuagem e seriam como os desenhos: permanentes e inalteráveis?

Pode até não ter sido a intenção do autor, mas as tatuagens de Érico é também uma metáfora sobre o destino e o que fazemos de nosso futuro. Somos ou não donos de nossos destinos? Essa é a grande questão que permeia toda a história de Sinfonia da Destruição e tira o sono de seu protagonista que teme a si e a seu futuro, mais do que qualquer adversidade que se entreponha em seu caminho.

Contudo, se destino é o tema principal, Absolutos surpreende pela gama de subtemas que enriquecem um universo que já foi idealizado para ser amplo e diverso. Não se trata apenas de uma narrativa de viagens intergalácticas, planetas exóticos e seres além da imaginação. Censura, tecnologia, Inteligência Artificial (I.A.) e “emancipação tecno-robótica”, realidade virtual, ciberpirataria e irmandades hackers, política, conspirações, ditaduras, anarquismo e corrupção são alguns dos muitos subtemas que permeiam e atravessam a trama de aventuras, tornando-a mais eclética e rica. Essa diversidade é, para mim, o maior ponto do livro.

Mas se de um lado gosto de tramas complexas e que desafiam o seu leitor, de outro concordo que o elemento fundamental para uma história de fantasia ou de ficção científica é, na verdade, o quão criativo o escritor é ao idealizar mundos e realidades capazes de fazer o leitor imaginar lugares exóticos sem, no entanto, perder verossimilhança.

Galáxia Eidola, o cenário da trama da série.
Para mim, o mais fantástico nos livros de ficção científica é a criação de um mundo em toda a sua complexidade. Ali o escritor se torna um deus que edifica a realidade como numa sinfonia da criação (desculpem-me o trocadilho) e convida o leitor a sonhar com universos para além da imaginação. Rodolfo parece compreender isso muito bem e concebe um universo de maravilhas, criando em seu livro construções sofisticadas e originais para compor tecnologias e mundos.

Para mim – e isso é uma nota puramente pessoal – a história de Érico não é tão importante quanto contemplar o universo grandioso criado para abrigá-la. Digo isso, porque não é na trama que reside a beleza da ficção científica, mas na criatividade empregada para criar um universo fantástico e verossímil que desafie a mente humana e faça-a sonhar. Ficção científica é antes de tudo um sonho, uma utopia (ou distopia) cheia de maravilhas.

Rodolfo é certamente um talento criativo que com o tempo se tornará ainda mais afiado e o primeiro volume de Absolutos é um prenúncio disso. Os poucos pontos fracos da narrativa estão ainda na pouca experiência que qualquer escritor em começo de carreira deixa transparecer nos seus primeiros escritos. Pequenos deslizes gramaticais e alguns pontos e diálogos com desenvolvimento apressado são algumas dessas fraquezas, mas que só muito raramente sobrepujam o conjunto. Todavia é o exercício da pena que faz o escritor.

O desfecho – como era de se esperar em uma trilogia – deixa várias perguntas em aberto e faz revelações extremamente importantes para a continuação da trama. Apenas a leitura do segundo volume permitirá descobrir os caminhos que serão trilhados e se Érico poderá de fato decidir o seu destino.

A segunda edição também promete a ascensão de um arqui-inimigo para Érico, mas fica obscuro se este de fato representaria as forças do bem. De qualquer forma, o desfecho de Sinfonia da Destruição é um convite para continuar a leitura e descobrir novos rincões da galáxia de Eidola e o destino de sua maior ameaça(?): o absoluto Érico, “o horror dos céus”.

A edição lida é digital, do selo editorial Histórias d’A Taverna, do ano de 2018, e possui 447 páginas.

Sobre o autor

Rodolfo Salles é escritor de ficção fantástica e colaborador do blog A Taverna. Designer especialista em produção de vídeos, nasceu e mora em São Paulo. Escreve desde criança, período onde começou a criar mundos fantásticos e lúdicos. Com o surgimento do Wattpad, o que era apenas um hobby se tornou parte fundamental de sua vida. Devido ao sucesso de sua obra na plataforma, decidiu relançá-la em versão profissional como autor independente.

Após ganhar o prêmio Wattys na plataforma, em 2017, com o conto Último Dia — concorrendo em uma seleção com mais de 280 mil participantes — decidiu explorar novos horizontes profissionais. O conto foi republicado pela revista Trasgo n° 17, enquanto o autor decidiu relançar Absolutos como autor independente pela Amazon, apoiado pelo selo d’A Taverna.





[1]https://www.wattpad.com/story/52180236-absolutos-i-a-sinfonia-da-destrui%C3%A7%C3%A3o

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