terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Nós e a literatura brasileira: até quando acharemos que o que é de fora é melhor? - Postagem Especial


Por Eric Silva

Está sem tempo para ler? Ouça a nossa resenha, basta clicar no play.



Literatura brasileira ou estrangeira? Por que no país muitos leitores valorizam mais a literatura de fora?
Imagem: http://educarparacrescer.abril.com.br/blog/biblioteca-basica/.

Porque tantos brasileiros não gostam de literatura brasileira e dão preferência a literatura estrangeira?

Eu como muitos brasileiros também não era grande simpatizante da literatura nacional. Para perceber isso basta observar que leio autores do mundo todo e pouquíssimos deles são nacionais. Contudo, a medida que fui montando um de nossos projetos que fala sobre os livros que marcaram minha infância e adolescência, fui percebendo pela lista de livros que devo muito mais à literatura brasileira do que imaginava. Foi ela quem me iniciou no mundo das letras, foi ela minha primeira amante.

Percebo hoje que foi inspirado por literatura brasileira que tive meus primeiros sonhos literários e que foi com autores como Aristides Fraga Lima (A Serra dos Dois Meninos), Leila Rentroia Iannone (Rio tem Coração?), Clarice Lispector (A Vida Intima de Laura) e tantos outros que me fiz leitor. Mas por algum motivo me perdi na seara de minhas escolhas literárias e como tantos outros passei a olhar de outro modo minhas origens. Cuspi no prato que comi.

Felizmente, todo os anos os projetos do Conhecer e principalmente a nossa Campanha Anual de Literatura me ensina algo novo e dessa vez o ensinamento me fez tomar o papel de filho pródigo e voltar para casa. Por isso, na postagem especial de hoje venho discutir um pouco sobre porque tantos brasileiros não gostam de literatura brasileira. Falar de quais fatores na minha opinião impulsionam essa descrença pela nossa literatura e dos motivos de no país se dar tanto crédito a uma literatura estrangeira supostamente tomada como superior à nossa.

***

Clarice Lispector, uma de minhas iniciadoras na literatura.
Imagem: http://acervo.revistabula.com
Acho um tanto leviano comparar a literatura internacional com a brasileira, porque não temos uma noção ampla da produção de cada país. Ao contrário disso, nossos maiores contatos são com livros de países de língua inglesa, marcadamente de autores estadunidenses e ingleses. No caso de outros países como os do continente africano, por exemplo, poucos são os autores que chegam a ser traduzidos e publicados no país. Então quase sempre que alguém compara nossa literatura com a estrangeira ou o faz pautado em um número restrito de autores de um determinado país, ou o faz baseado na literatura mais comercial estadunidense e inglesa, que é o que de fato chega mais até nós.

Por outro lado, mesmo que tivéssemos a condição de conhecer amplamente a literatura de cada país do mundo, ainda seria leviano ranqueá-las. Entendo a literatura de uma nação como um reflexo da cultura, da identidade, da história, dos problemas e dos sonhos de um povo. Se olhos são o espelho da alma de alguém, a literatura é também uma expressão de uma sociedade, está sempre carregado de identidade própria, mesmo quando se imita uma dada tendência internacional. E se, na era moderna, as nações reconheceram que nenhum povo é superior a outro, nenhuma literatura também o será.

Evidentemente que isso não elimina o fato que a nossa literatura tem seus problemas, de que está repleta de livros que não são muito prazerosos e de tantos outros que foram malsucedidos. Eu, por exemplo, não suportei o livro Noite do Massacre do reconhecido autor Carlos Heitor Cony. A despeito da fama de seu autor, esse pequeno livro de Cony é, na minha opinião, nada muito além de um amontoado de violência gratuita. Foi em respeito às nossas próprias condutas éticas que preferi não resenhar o livro de Cony. Contudo, não é por uma pequena amostragem estatística que se define as reais características de uma população e isso vale também para a literatura seja ela nacional ou estrangeira.

Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien.
Uma das obras estrangeiras que mais fez sucesso no Brasil,
sobretudo após ser adaptado para o cinema.
Os livros que chegaram ao Brasil são quase sempre selecionados de acordo com as possibilidades de sucesso no mercado brasileiro. São best-sellers, ganhadores do prêmio Nobel, autores com público cativo que em geral já acompanha os seus trabalhos na sua língua nativa, livros que viraram filmes e séries de televisão de sucesso ou livros que obtiveram grande aceitação no exterior. Por tanto são livros que são esperados por um determinado público ou que podem ganhar terreno no mercado, tomando como base a sua popularidade e boa aceitação lá fora. Os insucessos raramente chegam até nós e mesmo bons livros não nos alcançam por que não são pops.

Mas é claro que dos livros estrangeiros que chegam até o Brasil, nem todos são cativantes. Há também obras estrangeiras que considerei entediantes como Los Alamos, de Martin Cruz Smith, e A Bela e a Adormecida, do cultuado Neil Gaiman. Esse último, para mim, foi a releitura mais pouco inspirada que já li e não está entre os melhores trabalhos do autor.

Por outro lado, na minha modesta opinião, o principal motivo dos brasileiros não gostarem da literatura local é porque a desconhece em sua profundidade. E por que? A resposta é difícil porque é cíclica e um fator retroalimenta o outro. Em resumo seria: falta divulgação e espaço para o escritor nacional, e falta porque não há procura expressiva, e se não há procura, pela (in)lógica capitalista acaba faltando também interesse de criar oferta.

O grande mercado editorial brasileiro não dá um maior espaço aos novos escritores brasileiros por razões muito óbvias e a principal delas é a dificuldade de vender literatura brasileira quando esta não é popular entre os já escassos leitores do país.

Vamos por partes.

Os brasileiros têm uma tendência muito forte de depreciar tudo o que é nacional. Dizia Nelson Rodrigues, dramaturgo e escritor brasileiro, que nós temos um “complexo de vira-lata”, ou seja, um olhar de povo colonizado que se coloca, “voluntariamente”, ressaltava o autor, em uma posição de inferioridade em relação ao resto do mundo. Esse “complexo” se reflete em diferentes seguimentos da vida e nos faz repetir frases depreciativas como “só podia ser brasileiro” para tudo o que é de ruim e que de alguma forma envolve o país. Não é diferente quando se trata de literatura.

Antes de escrever qualquer postagem, costumo ler sobre o assunto, indo de artigos científicos às opiniões de colunistas e resenhistas. Andei lendo alguns textos também sobre o fato de que nós não gostamos de literatura brasileira e o que descobrir é que as pessoas que não leem a literatura nacional o faz por preconceito, por conhecer pouco de sua diversidade, por um problema de divulgação de milhares de escritores nacionais, pela seletividade do mercado editorial, mas principalmente por estarem dentro deste complexo de que nos falava Nelson Rodrigues.

Na minha pesquisa me deparei com todo tipo de opinião, mas um artigo em particular me chamou muito atenção e que pertence a um blogueiro que costuma fazer listas sobre temas literários.

O conteúdo do blog citado é interessante, para dizer a verdade, porque é objetivo (ao contrário dos meus textos intermináveis) e não assusta quem tem preguiça de ler. Porém, em uma dessas listas o citado blogueiro tece dez razões de porque a literatura estrangeira é mais atraente do que a nossa, tomando por base sua própria experiência literária. Contudo ao ler a lista a sensação que fica para o leitor é que ele lê bem pouco os autores brasileiros ou está preso a um determinado círculo de autores e não se aventura para além do que os vestibulares costumam exigir.

Para justificar sua posição o blogueiro lista uma série de problemas que ele julga ser a razão da literatura brasileira ser (nas minhas palavras) decadente e desestimulante. Eis a lista: falta de objetividade, de movimento, descompromisso com o enredo e com o entretenimento, catálogo reduzido “de bons ficcionistas nacionais”, o uso excessivo de metáforas, ambiguidades e de sentidos figurados, excesso de seriedade (falta humor), excesso de militância, pouca amplitude (só fala das mazelas brasileiras como a corrupção e a violência) e, por fim, somos atraídos pelo desconhecido.

Imagem da fachada da Acadêmia Brasileira de Letras no Rio de Janeiro.
Imagem: Wikimedia Commons.
Após ler a lista concordei em parte com o que ele dizia. Estes problemas de fato existem. Mas ao contrário do que ele quis sugerir não é um problema exclusivo do Brasil, pelo contrário é um fenômeno geral, corriqueiro em todo o mundo. Os problemas são bem mais profundos e estruturais.
Além disso, separemos o joio do trigo, é leviano e generalista afirmar que TODOS os milhares de escritores do país são como a lista descreve e que TODOS os milhões de estrangeiros escrevem melhor do que nós.

Catálogo reduzido? De forma alguma! Catálogo pouco divulgado.

Uso de metáforas e sentidos figurados? É certo que o excesso torna a leitura massacrante, mas em muitos casos são elas que dão charme e seduzem o eleitor pela curiosidade, abrem sua mente para imaginar o que tudo aquilo pode significar! Qual a mensagem que o autor quis passar. Inclusive essa é a alma de A Hora dos Ruminantes, de José J. Veiga, um dos últimos livros que resenhei aqui. Sem o uso da metáfora simplesmente não existiria história no livro citado.

Pouca amplitude? Sem comentários, porque é uma inverdade. Eu diria que muitos autores brasileiros se fixam demais no cotidiano, nas coisas simples da vida brasileira, são introspectivos demais, mas mesmo entre esses a variedade temática é imensa.

Movimento? Literatura agora é cinema? Todo livro tem que falar de ação? As questões psicológicas e/ou filosóficas devem estar a serviço da ação, mesmo que se corra o risco da literatura se tornar um amontoado de obras rasas e sem relevo?

Falta de humor? Convido todos a lerem A Mulher que escreveu a Bíblia de Moacyr Scilar ou Hilda Furacão de Roberto Drummond.

Falta de objetividade? O que se busca não são histórias inteligentes, reais, fantásticas, inspiradas e comoventes? Objetividade não tem nada a ver com nenhuma dessas coisas. Objetividade é questão de estilo e isso é próprio de cada escritor.

Descompromisso? Como é possível pecar pelo excesso de figuras de linguagem, questões filosóficas e existências e ao mesmo tempo ser descompromissado? Foi a que menos entendi, mas me pareceu que se quis dizer – como outro blogueiro afirma claramente, inclusive, – de que os brasileiros só imitam os escritores estrangeiros tentando adaptar estilos e movimentos para a realidade brasileira quando isso nem sempre é possível. Bem, se isso acontece, é porque temos o famigerado “complexo de vira-lata” e na vida estamos sempre buscando imitar o que é de fora.

Militância? Existe em todo lugar porque é algo necessário à conquista dos direitos sociais como a liberdade de expressão, e a literatura sempre foi e sempre será uma ferramenta de luta independente de qual foi o idioma em que foi escrito. Ou devemos esquecer das críticas sociais feitas por grandes escritores europeus como Charles Dickens e Victor Hugo em suas obras?

Por fim, vem a questão do entretenimento. Concordo, em parte, que muitas histórias de escritores brasileiros não são para serem lidas de uma vez, sem o devido cuidado e atenção. São textos para serem digeridos lentamente e são pouco acessíveis para quem tem pouca experiência, vocabulário pobre, ou pouca formação educacional. Como diz o jornalista Felipe Pena, muitos escritores “escrevem para si mesmos e para um ínfimo público letrado, baseando as narrativas em jogos de linguagem que têm como único objetivo demonstrar uma suposta genialidade literária”. Mas essa constatação não pode ser estendida a todos de forma alguma.

As histórias brasileiras podem não ser em sua maioria cinematográficas como os romances do espanhol Carlos Ruiz Zafón, autor que gosto muito. Mas quem foi que disse que todo livro tem que estar a serviço da sociedade do espetáculo? Uma literatura baseada só e puramente no entretenimento seria pobre, rasa e repetitiva – tenderia a ser mais do mesmo. Há que sim, buscar o meio termo.

Mas deixando de lado o blogueiro em questão. O que quero dizer é que o primeiro ponto que nos impossibilita de gostar de literatura brasileira é esse “complexo de vira-lata” que faz o brasileiro depreciar tudo o que é nacional e exaltar o estrangeiro. Foi-se aí o primeiro ponto que eu queria colocar.

O segundo ponto tem relação com as nossas experiências literárias na escola, local onde temos (somos obrigados a ter) maior contato com a produção nacional, particularmente os clássicos.
Para muitos leitores – marcadamente os mais jovens – a literatura brasileira é chata, porque para a maioria deles a literatura do Brasil se resume aos clássicos estudados na escola. Também já pensei assim.

A questão que reside aqui é que a literatura varia no tempo, muda de estilo e de temática e na escola geralmente somos forçados a ler obras em uma linguagem difícil – para qual não fomos devidamente preparados – e sobre temas de relevância para uma época passada que pouco fala de nós e da forma como vivemos. Não se cria identificações nem laços e a barreira da língua contribui enormemente para isso. Como muitos professores não conseguem nos alcançar e mostrar o verdadeiro valor da obra que temos em mão, o efeito obtido é nos traumatizar em relação aos clássicos brasileiros.

Se não bastasse, há pouco espaço para a literatura contemporânea na escola. Nossas primeiras leituras na instituição ou são de livros infantis e pedagógico ou de literatura clássica. Pouco se lê da literatura brasileira atual e pouco se diversifica o tipo de leitura e seus gêneros. No fundamental II não há diversidade e no Ensino Médio só se lê os clássicos. Ou seja, se o estímulo para ler já é pouco, menor ainda é a variedade do que se “obriga” a ler.

Acredito que o que falta nesse quesito é leituras que vão avançando conforme a idade, o letramento e a formação crítica dos alunos. Leituras que vão gradativamente dos livros mais acessíveis aos mais complexos, dos contemporâneos aos clássicos, utilizando-se dos mais variados gêneros, cultivando pouco a pouco e continuamente o interesse pela leitura. E ler deve ser algo divertido, deve se lúdico, envolver projetos, unir literatura a ouras artes como o cinema e o teatro. Como isso não acontece não se cultiva leitores, muito pior, amantes de literatura brasileira.

Imagem de livraria localizada no Brasil. Ao fundo secção dedicada a literatura brasileira.
Imagem: Nelson Kon.
O terceiro ponto está na outra ponta da corda: o mercado editorial.

Como eu disse é difícil vender literatura nacional quando esta não é popular entre os já escassos leitores brasileiros. Por conta disso o mercado procura atender aos nichos de leitores já existentes e publica mais aquilo que interessa a esses grupos.

Muitas vezes as grandes editoras buscam aqueles autores brasileiros que já fizeram sucesso em editoras menores ou com produções independentes porque aí já existe um público interessado. Esse foi o caso de Eduardo Spohr, autor de A Batalha do Apocalipse, e de Chris Mello, autora de Sob a Luz de seus Olhos, que possuem uma qualidade literária muito boa, fizeram sucesso em editoras menores e chamaram a atenção do grande mercado editorial tendo seus livros republicados por ele. Mas, na verdade, a maior parte do espaço é dado a autores brasileiros já consagrados, ganhadores de prêmios, autores indicados para uso pedagógico, celebridades e aqueles escritores que possuem alguma notoriedade dentro de um grupo social específico como o meio artístico, intelectual ou da elite nacional.

A literatura nacional popular, para jovens, de fantasia, de terror, policial, de ação, de aventura, dentre outros gêneros e subgêneros, possui pouco espaço o que cria o mito de que não existe bons autores nacionais que produzam narrativas desse tipo de gênero, o que é, na verdade, um equívoco. Além disso, para as editoras, apostar em autores que já fazem sucesso no exterior nesses gêneros como Rick Riordan (literatura para jovens), George R. R. Martin (fantasia), Stephen King (terror) e Jo Nesbø (policial e suspense) é certeza de lucros maiores.

Ao contrário disso, encontrar, lançar e promover novos autores que sejam bons, do país e desconhecidos pelo grande público é, em muitos casos, um empreendimento que pode dar prejuízos, uma vez que, salvo poucas exceções, esses autores demoram a chamar a atenção do mercado, exigindo um maior trabalho de marketing e logo, gastos maiores. No fim, são as pequenas editoras que mais se lançam nesses projetos de risco, porém com números menores de livros e de autores publicados por ano.

Mas ainda temos um quarto ponto: divulgação.

A literatura que mais vende no Brasil está ligada ao cinema, a TV
 e ao sucesso do autor e da obra no exterior.
Os livros estrangeiros recebem um marketing muito maior e até mais agressivo, enquanto que os livros brasileiros quase sempre são divulgados no boca a boca, geralmente pelos próprios autores ou por blogueiros como nós do Conhecer Tudo e tantos outros. Isso diminui a visibilidade das obras nacionais, de novos escritores. Só quem está ligado nas redes, quem lê bastante pequenos blogs, quem vai a encontros literários por todo país têm contato com os novos escritores e conhecem seu trabalho. E mesmo alguns autores mais antigos e consagrados acabam vendendo pouco porque suas obras são pouco divulgadas ou aparecem apenas em algumas mídias como revistas de grande circulação, mas que não são lidos por todos os seguimentos.

Acredito que o pouco marketing se deva, sobretudo, pelos gastos quando comparados com as possibilidades de retorno, porque divulgação nem sempre elimina o preconceito do brasileiro em relação a nossa literatura.

Como se vê o problema é complexo e não pode ser nem generalizado, nem simplificado. Mas ainda assim, penso que, diante do que discutimos, não é só o mercado editorial brasileiro que tem que mudar, mas o brasileiro também.

De um lado, as escolhas das editoras se baseiam em termos comerciais, porque, no final das contas, elas são empresas que precisam lucrar ou acabam fechando as portas. Mas do outro, também o posicionamento do leitor brasileiro que ainda vê a literatura nacional com preconceito tem que ser mudado.

Acredito que quando a nossa literatura for mais valorizada pelos leitores brasileiros a tendência será de uma valorização dos autores independentes, dos novos autores, da produção vinda de pequenas editoras e também por parte do grande mercado editorial que está sempre farejando tendências.

A verdade é que não importa se a literatura brasileira é mais intelectualizada ou popular, ou se é pouco ou muito ligada ao entretenimento. Precisamos abandonar um posicionamento em que valorizamos mais a literatura estrangeira do que a literatura local, porque para gostar de literatura brasileira, assim como de qualquer outra literatura, é preciso sair do comodismo e minerar: ler de tudo, buscar pequenas editoras, autores estreantes, ler os clássicos, os livros mais intelectualizados, os mais populares, os best-sellers nacionais, as produções independentes e livros de todos os gêneros.

É necessário que nos aventuremos com o olhar despido de qualquer tipo de ideia preconcebida. Porque de outra maneira continuaremos com nossos olhares voltados para fora e deixaremos de enxergar pequenas pérolas de grande valor que surgem aqui mesmo.



sábado, 23 de dezembro de 2017

A Batalha do Apocalipse – Eduardo Spohr – Resenha


Por Eric Silva para Wendy Mota

“Amigo que é amigo lê os livros do outro só pra entender porque ele gostou tanto da história”
(Autor desconhecido)

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.

Diga-nos o que achou da resenha nos comentários.

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Décimo segundo livro da Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo, A Batalha do Apocalipse, é um livro ousado e ambicioso que descreve praticamente uma epopeia moderna sobre a luta entre o bem e o mal empreendida entre anjos, renegados e demônios. Uma batalha que não apenas interfere no curso da história da humanidade como pode determinar o seu futuro. Extensa e fruto de uma pesquisa profunda sobre escritos bíblicos, apócrifos, históricos e mitológicos, essa é uma obra que não apenas projetou o nome de seu autor como comprovou toda a capacidade criativa de alguém que conseguiu reescrever a história humana e bíblica, confluindo ambas para sua própria narrativa.

Confira a resenha do antepenúltimo livro da campanha que neste ano homenageia a literatura do Brasil.

Sinopse

Com o findar do sexto dia, Deus supostamente adormeceu e deixou toda a criação aos cuidados do Arcanjo Miguel, o mais poderoso entre os anjos. Contudo ao longo de milhares de anos de governo tirânico, Miguel tentou por diversas vezes dizimar a raça humana até que um grupo de anjos guerreiros desafiou a tirania dos poderosos arcanjos, levantando armas contra seus opressores. Após serem traídos e derrotados, os renegados foram expulsos do céu e lançados à Terra onde passaram a vagar pelo mundo até o dia do Juízo Final. Contudo, a proximidade do fim do sétimo dia e a chegada do Apocalipse, o único renegado sobrevivente, Ablon, junta-se às suas legiões na batalha final que decidirá o destino do mundo. Essa é a trama principal do livro de estreia do autor carioca Eduardo Spohr e que desfia uma trama densa e ambiciosa que vai desde a antiguidade até os dias atuais para contar uma antiga história de luta do bem contra o mal.

Resenha

Já tem um tempo que venho prometendo ler esse livro, mas como todo leitor sabe, a gente sempre tem uma lista interminável de livros para ler e sempre aparece algum livro novo que fura a fila. No final é aquela coisa: você nunca dá conta de tudo o que tem pra ler e alguns projetos vão sendo adiados.

Contudo, A Batalha do Apocalipse era um livro que eu não podia deixar de ler. Demorasse o tempo que fosse, era um projeto que não podia ser adiado, porque já fazia um tempo que um de meus alunos – um de meus amigos – insistia para que eu lesse esse que é seu livro preferido.

Como não ler um livro diante de todo o entusiasmo de um leitor apaixonado pelo seu livro predileto? Como não ceder diante de olhos que brilhavam ao contar – mesmo que meio desajeitadamente – uma narrativa complexa, difícil mesmo de sintetizar? Eu normalmente cedo, prometo que leio e demore o tempo que for cumpro minha promessa.

Por muitas vezes coloquei esse livro na lista, mas, devido as obrigações da vida e as demandas do Conhecer, eu nunca chegava a lê-lo. Até que, no início desse ano, ele chegou com o livro na mochila, pôs sobre a mesa e deu o ultimato: “Leia! Não importa quanto tempo demore para devolver, mas leia!”. Alertei que demoraria realmente para devolvê-lo, mas meu aluno não quis saber, porque só lhe importava que eu conhecesse o livro que ele tanto gosta.

Hoje, estou aqui cumprindo a promessa que fiz. Colocando a resenha desse livro no projeto mais importante do meu blog, porque como diz a epígrafe que inicia essa resenha: “amigo que é amigo lê os livros do outro só pra entender porque ele gostou tanto da história”. E eu entendi o porquê.

Enredo

O arcanjo Miguel em pintura do artista barroco italiano Guido Reni (1636).
Imagem: Wikimedia Commons.
Primeiro grande sucesso do escritor brasileiro Eduardo Spohr, A Batalha do Apocalipse é mais do que um livro muito bem inspirado do gênero fantasia, é uma obra ambiciosa que reescreve toda a história bíblica, unindo ciência, história, geopolítica e mitologia a toda a epopeia da criação dos anjos e do universo.

Nesse projeto arrojado, Spohr relata a história da Criação através da trajetória e das aventuras do anjo renegado Ablon contra a tirania do príncipe dos anjos, o Arcanjo Miguel, e da perseguição do irmão caído do arcanjo, Lúcifer.

Após começar o sétimo dia da criação – que assim como os demais perduraria por milênios –, Yahweh adormeceu deixando toda a sua obra aos cuidados dos arcanjos, e, sobretudo, de Miguel. Ao príncipe dos anjos, o Onipotente confiou o Livro da Vida, no qual era relatado toda a história do sétimo dia, e a Roda do Tempo que marcava o continuar do sétimo dia, o apocalipse e o retorno do Deus Único. Contudo, Miguel ao contrário de dedicar-se a cumprir a promessa feita a seu Pai, instaura um governo despótico e dedica todos os seus esforços a perseguir a humanidade e destruí-la. O diluvio, a destruição de Sodoma e Gomorra, e tantos outros desastres que se abateram sobre os humanos eram, na verdade, arquitetados pelo príncipe e executado pelos anjos de castas inferiores, porém sem sucesso em seu objetivo de exterminar a espécie humana.

Insatisfeito com a tirania de Miguel, o querubim Ablon reuniu um grupo de rebelados e buscaram o apoio do Arcanjo Lúcifer para pôr fim no governo do arcanjo, contudo, o querubim e seus amigos foram traídos pela Estrela da Manhã, renegados e lançados a Terra, aprisionados em corpos físicos sem possibilidade de regressar. Após trair o movimento de Ablon, Lúcifer tenta sua própria rebelião para tomar o trono do irmão, mas é expulso com seus aliados para o Sheol onde se tornam uma horda de demônios.

É nesse ponto que começa a odisseia particular de Ablon. Vivendo entre os mortais ele e seus amigos renegados vão sendo perseguidos tanto pelos anjos de Miguel como pelos demônios de Lúcifer, até que só resta Ablon do grupo de exilados.

Sozinho o querubim aprende a sobreviver deambulando pelo mundo, escondendo sua identidade e lutando contra os inimigos que se interpunham em seu caminho enquanto esperava o dia em que poderia vingar o assassinato de seus companheiros renegados. Mas é tentando descobrir o paradeiro de Istha, uma de suas últimas aliadas ainda viva, que Ablon conhece Shamira, a Feiticeira de En-Dor. Daquele encontro nasce uma amizade que perdura por séculos, nos quais Ablon vive dezenas de imensos perigos ora para tentar salvar Shamira de seus desafetos, ora por conta das intrigas e disputas que envolviam o Céu, a Terra e o Inferno.

Da China ao Brasil, da idade antiga aos tempos modernos, a aventura do guerreiro querubim e da Feiticeira contra os demônios de Lúcifer e os anjos fiéis a Miguel prossegue até o dia do Apocalipse, quando finalmente o destino do mundo é decidido.

Ciência, mitologia e religião para criar um livro épico

Spohr utiliza de muitas fontes para compor sua narrativa
indo dos textos bíblicos e apócrifos à mitologia de varias nações.
Na imagem, o livro de gênesis, de 1723, escrito em tamil.
Imagem: Wikimedia Commons.
A literatura brasileira possui pouca tradição com o gênero fantasia, mas nos últimos anos vários escritores vêm se empenhando para construir a história do gênero em nossa literatura. São histórias de magos, vampiros, épicos, anjos e demônios, uma multiplicidade de temas que abrem espaço para um campo vasto e ainda pouco explorado no Brasil. Entre esses autores está o carioca Eduardo Spohr.

A Batalha do Apocalipse marca a estreia de Spohr na literatura. Publicado pela primeira vez em 2007 pelo site Jovem Nerd, administrado pelos amigos do autor, Alexandre Otoni e Deive Pazos, o livro foi republicado pelo selo editorial criado pelo site dois anos depois, em decorrência ao sucesso alcançado, e publicado novamente em 2010 pela Verus Editora[1].

Trata-se de uma obra extensa (585 páginas) composta por 18 grandes capítulos, um prólogo e um epílogo e que por sua vez são divididos em três grandes partes: A Vingadora Sagrada, A Ira de Deus e Flagelo de Fogo. Mas se trata também de um livro de enredo denso porque comprime muitas histórias e abarca diferentes épocas da história da humanidade, recorrendo a flashbacks para narrar os acontecimentos que levaram Ablon e Shamira ao campo da batalha do Armagedom, aquela que marcava o fim do mundo.

A Batalha do Apocalipse é um livro que mescla aventura, ação e fantasia, mas que se observado atentamente poderia ser comparado a uma versão moderna das grandes epopeias contadas nos tempos antigos, a exemplo da história de Gigalmesh e da Odisseia de Homero. Em todas essas histórias o herói vive aventuras fantásticas e épicas, no qual arrisca sua vida para alcançar um objetivo, enfrenta adversidades aparentemente intransponíveis e está exposto aos humores de seres poderosos como os deuses.

Apesar de existir muitas histórias envolvendo anjos na literatura internacional, como os livros de Alexandra Adornetto, Becca Fitzpatrick e Lauren Kate, entretanto, a ideia de Spohr não é só criativa como original e explora caminhos particulares e, em muitos pontos, divergentes aos seguidos pelas autoras citadas. Ainda que o componente romance não seja eliminado de sua narrativa, a proposta de A Batalha do Apocalipse é muito mais complexa e ambiciosa, porque o autor propõe uma confluência entre passagens bíblicas, mitologia de diferentes povos e ciência.

Nessa que é a mais ousada das obras do autor, Spohr praticamente reescreve toda a bíblia ao recriar os bastidores dos fatos ali narrados e também desnudando a origem do homem confluindo teoria religiosa e científica. Trata-se de uma interpretação alternativa dos textos sagrados abrindo espaço para um sincretismo tão verossímil que assusta:

1.      O sétimo dia ainda perdura, porque na verdade o tempo para Deus e para os homens passam de forma diferente e, logo, o que o livro sagrado chama de dias seria uma metáfora para períodos de milhares de anos;

2.      Como o sétimo dia não acabou, Deus supostamente ainda dorme;

3.      Ao longo de milhares de anos foram os anjos que interferiram na Terra: o dilúvio, Sodoma, Gomorra, Babel, Moisés, os mandamentos, os profetas, o messias, todos foram obra do ódio de uns e da interferência de outros numa luta entre aqueles que queriam proteger a humanidade e os que queriam destruí-la;

4.      A criação comporta muitos mundos e muitos deuses menores. Esses nasciam da força da fé pagã que alimentava de poder o espírito de antigos guerreiros e heróis mortos, mas que, por séculos, foram cultuados pelos seus povos de origem. Daí se explicaria tantos mitos e crenças;

Contudo, na minha opinião, uma das passagens mais criativas do autor está quando, às margens do rio Tigre, na Mesopotâmia, Ablon explica a Shamira a origem do homem e o trabalho de Deus nos dias da criação:

"Ao meio-dia, Shamira recolheu-se à praia, e Ablon lançou a rede de pesca à torrente, onde o fluxo descia em queda. Estavam no paraíso, realmente, uma visão delirante e fértil, cercada de vida e beleza, um sítio agradável na vastidão deserto.

— Os sacerdotes em Canaã nos ensinavam que os homens surgiram do barro — começou a feiticeira, rateando a terra molhada. — Quando criança, eu ficava pensando se as escrituras estavam corretas.

— O barro é metafórico — explicou o general. — Ele representa a carne, a matéria física, a substância palpável do universo concreto. O ser humano é parte de uma escala evolutiva que se iniciou no mar, no quarto dia, e que deu início ao nascimento de várias espécies.

— Mas você disse que os terrenos foram criados por Deus.

—A força de Deus sempre esteve presente na evolução. Ela é a energia essencial que move o curso do infinito e o engrandecimento das coisas. Os clérigos costumam comparar o trabalho de Yahweh com o labor da gente comum, para que possam compreendê-lo. Mas o ofício de um marceneiro ou de um pescador não se equipara à potência divina. A criação movimentou energias supremas, misteriosas e invisíveis.

— Então, os documentos sagrados nada mais são do que velhas parábolas?

—As parábolas não são desprezíveis, mas representam o ápice da comunicação humana. Assim, cabe ao indivíduo interpretá-las. Não há nada mais adequado a uma raça dotada de livre vontade, aberta a encontrar as próprias respostas. As escrituras estão cheias de símbolos que ajudam os homens a entender o significado do cosmo. Mas a verdade perfeita só existe na mente de cada um.

— E quem foram os nossos ancestrais, antes do surgimento de Adão?

— Uma espécie de hominídeos que habitava a escuridão das cavernas. Os anjos os desprezavam na época, até que eles alcançaram o cimo da evolução, e Deus os concedeu uma alma, instigando o ciúme dos perversos arcanjos. É por isso que muitos celestiais invejosos preferem se referir aos mortais como bonecos de barro, ou primatas, uma alusão à sua origem material."


O autor. Eduardo Spohr é carioca e atua como  jornalista, escritor, professor, 
blogueiro e podcaster
O que mais gostei em A Batalha do Apocalipse foi a capacidade criativa do autor. Logo se vê que o livro é fruto de uma pesquisa exaustiva pelo nível de detalhamento da história quanto aos aspectos culturais e mitológicos de cada povo retratado na narrativa. Textos bíblicos, de apócrifos (referências a Enoque), mitológicos e de História Antiga, são, sobretudo, as principais fontes usadas por Spohr, e unir elementos nem sempre conciliáveis foi, por sua vez, a principal demonstração de talento e criatividade do autor. Contudo o livro também tem seus pontos fracos e o mais destacado deles são as idas e vindas no tempo que deixam a narrativa principal em suspenso em vários trechos do livro. A falta de linearidade da narrativa seria interessante se muitas dessas interrupções não fosse demasiadamente longas, a maior delas com 135 páginas.

Contudo, é nítido que por tratar de um tema delicado e que envolve profundamente o dogmatismo, especialmente, das religiões cristãs, esse não é o tipo de enredo que agradará a todos, mas apenas àqueles que souberem separa fé de ficção e liberdade criativa. Por isso é surpreendente que em um autor em seus primeiros anos de carreira literária tenha tido a coragem de lançar uma obra capaz de levantar polêmica. Certamente outros autores esperariam uma certa maturidade e ter cativado seu público antes de se lançar em uma empresa tão ambiciosa e ousada.

Principais personagens

Representação artística dos principais personagens de A Batalha do Apocalipse.
Artista desconhecido.
O livro comporta um grande número de personagens, mas, devido as batalhas e o grande número de eras que a narrativa abarca, muitos deles acabam ficando pelo caminho. Destaco como os mais importantes a feiticeira Shamira, o protagonista Ablon e os três principais antagonistas: Miguel, Lúcifer e Apollyon.

Shamira é uma mulher que busca ser forte para apoiar Ablon e dentro da trama ela se torna a principal aliada do anjo renegado. Feiticeira muito poderosa, ela descobre uma maneira de prolongar sua vida e juventude por dezenas de séculos e segue dando apoio a Ablon em quase todas as suas aventuras, auxiliando com suas magias e conhecimentos sobre portais, invocações e runas mágicas de proteção. Por conta dessa proximidade, ela pouco a pouco vai se tornando o possível par romântico do protagonista, ainda que ela respeite profundamente a condição angelical do rapaz.

Miguel é o principal antagonista na escala hierárquica, mas perde em muitos outros quesitos para o insuperável Apollyon, o personagem mais detestável da trama. Além disso, o Príncipe dos Anjos é o vilão que menos aparece na narrativa, tendo participação mais ativa na reta final da história. Entretanto, em todas as suas aparições Miguel é revestido de uma prepotência e altivez que faz jus ao seu papel de tirano. Ao contrário do irmão, o ardiloso Lúcifer possui presença mais frequente na história e é também seu personagem mais enigmático, porém, é representado como um líder entediado sempre às voltas com questões políticas em seus domínios.

Representação do demônio Apollyon no livro O Peregrino de John  Bunyan.
Imagem: Wikimedia Commons.
O demônio Apollyon é um dos braços direitos de Lúcifer, mas que, como eu disse, é de longe o personagem mais odioso da trama. Cruel no mais alto grau do adjetivo, o anjo caído mesmo antes de sua expulsão do céu já se mostrava abjeto e sedento por sangue e destruição. Nada na criação trazia mais prazer ao caído do que a aniquilação, a guerra e a morte. Contudo, não se trata de ideologia ou de defesa de um algum ideal louco, mas o puro e mais primitivo prazer de sobrepujar o adversário e exterminar qualquer um de inimigos a inocentes.

Por fim, Ablon é o típico herói de espada e armadura que é guiado por valores inabaláveis e pelos quais morreria. O anjo caído possui um senso de justiça muito grande e é movido pela vingança sobretudo contra Apollyon que sempre foi seu rival e posteriormente se tornou um de seus principais inimigos. É um personagem destemido e poderoso, mas não invencível.

Por muitas vezes Spohr expõe as fraquezas do anjo renegado e o coloca em situações que, sem a ajuda de outras pessoas, ele não sobreviveria. Ainda que eu não tenha me identificado com o personagem reconheço que é justamente pela sua vulnerabilidade que ele se torna um personagem rico. Mesmo sendo moralmente inabalável e seus poderes não o são, e na sua jornada pela Terra ele encontrou desafios que sozinho não seria capaz de transpor.

Contudo não é pelos seus personagens que o livro se torna interessante, mas pela história em si, por todo o intricado universo criado e sustentado pelo autor. Não achei os personagens cativantes nem me apeguei a nenhum deles. Eles não invocar em mim o carinho e o amor que tenho por personagens como Daniel Sempere, de A Sombra do Vento, ou Arnau Estanyol, de A Catedral do Mar, ou ainda pelo pequeno Harold Stonecross, de O Andarilho das Sombras. Mas, ainda assim, reconheço que são personagens com vidas incríveis e feitos fabulosos.

Por outro lado, foi o enredo quem me cativou com suas interligações entre história real, mitológica e bíblica, os cenários e períodos, suas reviravoltas, as possibilidades de ir e vir por tantos cenários. Com A Batalha do Apocalipse pude reviver as sensações provocadas por livros como Aventuras do Vampiro de Palmares, A Casa do Céu, O Caçador e O Elixir da Longa Vida, que assim como ele são povoados de cenários e lugares reais e fictícios de tirar o fôlego, que mexem com a sua imaginação e proporcionam quase uma volta ao redor do mundo.

Conclusão

A Batalha do Apocalipse é um livro de linguagem acessível, além de ser bastante didático. Como assim?

É nítido que o livro foi escrito para um público amplo que vai do adolescente, passando pelo adulto jovem e até o adulto mais velho e interessado pelos gêneros de aventura, épicos e de fantasia (como eu, por exemplo). Mas uma obra que abarca tantas faixas etárias costuma pecar no quesito adequação da linguagem. Normalmente esses livros comportam uma escrita que é adequada a um dos extremos, mas se torna complexa (rebuscada) demais ou “ingênua” demais para o outro. Spohr conseguiu alcançar o meio termo. Com uma escrita culta o suficiente para prender os leitores mais exigentes como eu, mas acessível o bastante para não cansar ou desestimular o público mais jovem, ou de vocabulário menos expansivo.

Além disso, digo que ele é didático, no sentido que o livro explica o necessário para garantir a compreensão de fatos históricos e bíblicos, de épocas e de lugares que são usados como base da narrativa, sem por outro lado tornar-se cansativo.

Aprendemos pouco a pouco tudo o que é necessário para compreender o universo alternativo criado por Spohr sem que isso se torne um compêndio de História, história bíblica ou de Geografia. O autor ainda teve o cuidado de criar um glossário para facilitar a nossa compreensão de cada elemento da narrativa.

O livro fala um pouco de cada lugar, de cada época e recria a história bíblica encaixando nela as teorias darwinianas e explicações alternativas para grandes passagens do antigo e do novo testamento, mas nada disso é feito de uma vez ou toma um espaço excessivo na narrativa. É feito em pequenas doses, somente onde é necessário explicar algo para garantir a verossimilhança do enredo e não deixar confuso o leitor.

O desfecho é no mínimo surpreendente e revela alguns segredos que espantam o leitor. No entanto, o final do último capítulo e o prólogo do livro não acompanham o ritmo de todo o desfecho e deixam em aberto a narrativa. O finalzinho do livro não deixa muito claro como toda a trama se rearranja após a saída escolhida pelo autor para encerrar a narrativa. Por outro lado, Spohr dá continuidade ao universo por ele criado em uma trilogia intitulada Filhos do Éden, mas não sei honestamente se os livros que se seguem lançam luz sobre o rearranjo feito pelo autor.

Serie que dá prosseguimento ao universo de A Batalha do Apocalipse

Em conclusão, A Batalha do Apocalipse é um livro nascido de um projeto arrojado, ousado e ambicioso que buscou inovar em um tema já um tanto desgastado e assim criar uma epopeia moderna. Conseguiu e o sucesso do livro comprova essa tese. Trata-se de um livro que atesta a capacidade brasileira de criar bons livros de fantasia, gênero que vem se destacando nas últimas décadas no Brasil e no exterior. Um livro instigante e muito bem escrito e que expôs a grande capacidade criativa de seu autor. Agradeço a Wendy pela leitura.

A edição lida é da Editora Verus, do ano de 2014 e possui 586 páginas. Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books.

Prévia do Google Books







[1]https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Batalha_do_Apocalipse

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