terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Conhecendo um pouco do Japão – Postagem Especial


Por Eric Silva

Nota: todos os termos com números entre colchetes [1] possuem uma nota de rodapé sempre no final da postagem, logo após as mídias, prévias, banners ou postagens relacionadas.

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Yo!! Genki desu ka?

O Japão ou Nippon (日本) – seu nome em japonês – é um dos países mais fantásticos que conheço, principalmente pela forma como seu povo e sua cultura milenar resistiram por muito tempo a toda e qualquer influência estrangeira, mas, hoje, demonstram uma enorme capacidade de abraçar e caminhar em direção ao novo. Um país onde coexiste o tradicional, o exótico e o ultramoderno.

Como muitos ainda não sabem, em 2018, a III Campanha Anual de Literatura daqui do Conhecer Tudo homenageará o #AnoDoJapão. E todos os anos penso em fazer uma postagem especial falando sobre o país homenageado, mas, na verdade, nunca chego a fazer, erro que corrigirei em breve. E para quebrar esse tabu essa primeira Postagem Especial da campanha fará um panorama do Japão, apresentando um pouco de suas características naturais, culturais, sociais, econômicas e políticas.

Espero que gostem.

***

A terra do sol nascente: um pouco da geografia japonesa

Mapa do Japão
Com pouco mais de 370 mil km², o Japão é um pequeno arquipélago formado por quatro ilhas principais (Honshu, Hokkaido, Kyushu e Shikoku) e em torno de outras 3 mil ilhas menores[1], em sua maioria de origem vulcânica. Por ser localizado no extremo leste do continente asiático é muito conhecido também como a terra do sol nascente apelido que é ostentado em sua bandeira, o nisshōki (日章旗), onde é representado um disco vermelho, simbolizando o Sol, centralizado em um fundo branco.

Situado sobre o encontro de três placas tectônicas e também do Círculo de Fogo do Pacífico, o país é repleto de altas montanhas e cerca de oitenta vulcões ativos[2], além de ser diariamente atingido por terremotos de diferentes magnitudes. Em sua maioria os terremotos que atingem o Japão são imperceptíveis ou muito leves, porém alguns deles trouxeram sérios danos ao país. Um exemplo devastador destes abalos sísmicos aconteceu em 1995 e ficou conhecido como Sismo de Kobe ou Hanshin-Awaji Daishinsai (阪神・淡路大震災, Grande Sismo de Hanshin-Awaji). Neste abalo que alcançou a magnitude 6,9 na escala de magnitude de momento (MMS), 6434 pessoas morreram, em sua maioria moradores da cidade Kobe, a mais próxima do epicentro do sismo e a mais seriamente atingida pelos tremores.

Sakuras em flor no palácio Imperial de Tóquio. Imagem Wikimedia Commons.
A grande frequência com que abalos sísmicos ocorre em seu território obrigou os japoneses a direcionarem seus esforços para desenvolver uma engenharia que fosse capaz de suportar ao máximo esses intemperes naturais. Contudo, sua geologia instável também criou junto com o clima temperado de seu território um arquipélago com grandes belezas naturais como a formosura estonteante de milhares de sakuras (, cerejeiras) em flor, dos lagos em meio a montanhas formados pelo derretimento da neve, grandes vales e picos, rios agitados e cascatas tranquilas[3]. O clima em si é bastante rigoroso com invernos muito frios e nevascas abundantes além de verões muito quentes e chuvosos, mas as belezas naturais são inegáveis[4].

Porém a geografia física do Japão traz a sua população outros inconvenientes, um deles é a pequena quantidade de terras aráveis, consequência de seu território extremamente pequeno e acidentado.

As terras cultiváveis soma algo entorno de 16% do território, dificultando não só a atividade agrária e pecuarista como a construção civil. 50% dos grãos consumidos no país são importados e uma das poucas culturas em que o Japão é autossuficiente é o arroz, principal alimento da população.

Terraços de arroz de Ueyama em Ojiro no Verão. Imagem Wikimedia Commons
Com a carência de terrenos planos para a agricultura, no Japão, assim como em muitos países asiáticos, é comum vermos o cultivo por terraceamento, tanada (棚田)[5], terraços para a plantação de arroz que sobem as encostas das montanhas e que lembram verdadeiros jardins. Contudo, com o avanço da tecnologia que permite uma maior produção usando menos espaço, somado ao envelhecimento da população, vem ocorrendo o abandono progressivo dessa atividade que demanda não só muito esforço físico como o despendimento de uma grande quantidade de tempo.

Por sua vez, no que tange à habitação, a carência de terrenos planos nas cidades maiores somada a superlotação e a especulação mobiliária faz com que o metro quadrado chegue a preços altíssimos em cidades como Tóquio, a grande e populosa capital japonesa. Por conta disso, muitos japoneses de Tóquio vivem em casas e apartamentos pequenos para o padrão brasileiro ou em residências com dois andares para compensar o tamanho reduzido do terreno. Contudo, em cidades menores as casas e apartamentos costumam variar bastante de tamanho.

Já que falamos em agricultura, outra atividade econômica de grande importância no Japão é a pesca. A criação de gado no Japão é limitada e a pouca oferta de terras agricultáveis levou os japoneses a buscar no mar a sua principal fonte de alimento[6]. O país além de ser o segundo maior produtor de pescado do mundo sua produção pesqueira responde por quase 15% da pesca mundial[7]. É por conta dessa enorme produção de pescado e da grande variedade de frutos do mar disponíveis que na sua culinária encontramos centenas de pratos cujos principais ingredientes vêm do mar. Entretanto, a alimentação japonesa ainda conta com outros importantes ingredientes básicos como o arroz, as algas marinhas, a soja e seus derivados, além de vegetais e legumes[8].

O povo japonês

Japoneses durante a celebrações do festival Hanami embaixo das árvores sakura (cerejeiras) no parque Ueno, em Tóquio 
Os japoneses costumam ser bastante tímidos e reservados além de discretos e cautelosos, mas a meu ver as características que mais se sobressaem são a educação, o senso de coletividade e o profundo respeito ao espaço do outro que se manifesta sobretudo na etiqueta japonesa. É claro que ao dizer isso corro o risco de generalizar, mas é algo que se sobressai em quase tudo que vejo e leio sobre os japoneses.

Eles são, em sua maioria, de fato tímidos e reservados e costumam se expressarem mais por gestos e atitudes[9]. Certos hábitos comuns no Brasil não são corriqueiros no país e podem causar desconforto e constrangimento a exemplo de abraços e beijos em público. Além disso, eles costumam tratar as pessoas com diferentes e crescentes graus de formalidade e que variam da situação cotidiana à posição social ou hierárquica, passando também pelo quanto se é íntimo e se a pessoa abordada permite a você um maior grau de intimidade.

Acho bem visível essa formalidade, que é uma das principais marcas da educação japonesa, na forma como as pessoas chamam umas às outras. Dificilmente um japonês chamará uma pessoa pelo primeiro nome a menos que essa tenha pedido que o fizesse. É preciso ser bastante íntimo ou parente próximo para chamar um japonês por seu primeiro nome. O corriqueiro é referir-se a pessoa por seu sobrenome acrescido de um dos muitos títulos honoríficos como –san (o mais comum), –senpai (usado para colegas mais velhos em escolas, empresas e clubes esportivos) e –sama (usado para pessoas em posições elevadas de uma certa hierarquia)[10]. Mas outros títulos que denotam maior aproximação também são usados, porém o seu emprego correto é essencial para evitar situações constrangedoras.

Contudo, em grande parte a atitude de reserva do japonês está ligada ao profundo respeito que eles têm em relação ao espaço e a privacidade do outro. Não gostam de ser inoportunos e também por isso atitudes extremadas de intimidade com pessoas estranhas costumam ser evitadas. Mesmo entre pessoas conhecidas há um costume de se evitar uma intimidade que a outra possa julgar excessiva ou incômoda. Intrometer-se na vida alheia é outra questão que os nipônicos costumam evitar. E no sentido oposto evitam também que seus problemas afetem outras pessoas. É daí que parte o senso de independência pelo qual são mundialmente conhecidos.

Contudo, se a individualidade é algo importante, o trabalho em equipe também é bastante valorizado e é uma marca cultural muito forte. Os japoneses possuem um espírito de coletividade que falta em muitos países ocidentais. No trabalho em grupo a harmonia do conjunto é lago importante que precisa ser preservado[11].

Outra característica interessante da sociedade nipônica que é destacada por Silvia Kawanami[12] do Japão em Foco, é a sua paciência e resiliência. Segundo a autora os japoneses são bastante pacientes nas situações de seu cotidiano como a espera em uma fila. Afirma a autora que é muito incomum um japonês se exaltar quando ocorre, por exemplo, uma demora no atendimento.

Silvia destaca também a grande capacidade da sociedade japonesa de lidar com seus problemas, vencendo os obstáculos impostos, e não cedendo à pressão. Além disso, afirma que eles possuem outra importante característica: a de buscarem dar o melhor de si e oferecer todo o seu potencial, ou seja, ter comprometimento com o que fazem.

Na verdade, são muitas as características que ainda poderia enumerar em relação ao povo japonês, que culturalmente é bastante singular e fascinante. Contudo para não em estender demais a postagem, passeemos ao último tópico.

O antigo e o novo: monarquia, tradições e modernidade

O Imperador japonês, Akihito. Ascendeu ao trono em 1989
dando inicio a era Heisei. Imagem Wikimedia Commons.
Politicamente, o Japão ainda é uma monarquia de caráter constitucional, mas o poder do atual Imperador do Japão, Akihito, é bastante limitado. A verdade é que mesmo tendo um monarca o país é governado por um primeiro-ministro eleito pelo voto popular – atualmente Shinzō Abe –, assim como acontece, por exemplo, no Reino Unido.

Com Akihito deu-se no país o começo de uma nova era, o Heisei (平成), marcado principalmente pela atitude pacifica e conciliador do atual tennō (天皇, imperador) em relação aos antigos rivais do Japão, a exemplo da Rússia e da China[13].

A monarquia no Japão começou ainda nos primórdios de sua história quando povos oriundos da Sibéria se fixaram no arquipélago no século III d.C.[14] O império, porém, perduraria só até o século XII, quando fora instaurada uma ditadura militar que ficaria conhecida como xogunato (幕府).

O xogunato duraria por sete séculos e durante dois deles o país se manteria fechado para as nações estrangeiras. O poder imperial seria restabelecido apenas em 1868.

Hoje, o Japão é não só politicamente muito diferente da época dos samurais (), daimiôs (大名)[15] e shōguns (将軍)[16], mas social, cultural e economicamente distinto e busca um caminho para aliar tradição e modernidade.

Castelo de Himeji, também conhecido como Hakurojō ou Shirasagijō.
Localizado na cidade de Himeji, Província de Hyogo, no Japão.
Imagem Wikimedia Commons.
Nas relações de trabalho, na forma de encarar a vida em sociedade e ver o mundo, nas várias regras de etiqueta, na forma de reverenciar e cumprimentar, ou no ato de tirar os sapatos ao chegar em casa, ou ainda nos templos e santuários antigos, muitos são os aspectos da vida do japonês que se encontram carregados de tradições silenciosas. Não é apenas a arte do ikebana (生け花)[17] ou do Shodō (書道, a caligrafia tradicional japonesa). Não é apenas os olhos maquiados das poucas gueixas ainda existentes, os imensos castelos que testemunham um passado longínquo ou a produção tradicional do mochi ()[18] exibido para os clientes e turistas no ano novo. Muito do que existe no Japão remota a sua história e cultura milenar que entra em conflito com o novo, com o moderno, e ao mesmo tempo tenta ora absorvê-lo, ora com ele contrastar.

Há entorno de 100 anos, quando a Europa já era um continente altamente industrializado, o Japão ainda era essencialmente agrário. Suas únicas “indústrias” possuíam um processo de produção altamente artesanal e manual, modelo de produção que em geografia chamamos de manufatura. Hoje o Japão é a terceira maior economia do mundo com um PIB de 4.938,64 bilhões de dólares (2016)[19]. É também um dos países mais industrializados e modernos. Socialmente o Japão ainda possui um elevado padrão de vida com IDH de 0,884 (2010, 11ª posição do ranking)[20] e a maior expectativa de vida do planeta (83,6 anos, 2014)[21].

Falando em modernidade. A tecnologia é algo que chama muito a atenção do mundo quando se fala em Japão. No país ela é empregada em muitas atividades para facilitar o dia a dia da população, sobretudo, no que diz respeito aos transportes. Além disso, os cientistas japoneses demonstram um profundo interesse no avanço tecnológico. Ali foram desenvolvidos alguns dos transportes mais velozes do mundo, a exemplo dos trens de alta velocidade (超特急 chō-tokkyū) que formam a rede ferroviária de alta velocidade japonesa (新幹線, Shinkansen).

O trem de alta velocidade (trem bala). Na imagem temos um dos trens da linha Tokaido Shinkansen, com o Monte Fuji ao fundo. Imagem: Wikimedia Commons.

Há ainda no setor tecnológico outro seguimento que vem ganhando destaque: a robótica. Na vanguarda do setor, a tecnologia de robótica japonesa pode ser considerada a mais avançada, além de ser o país que mais investe na aplicação desta tecnologia no setor industrial. Protótipos de robôs para a indústria e até mesmo para uso doméstico são criados todos os anos e muitos já são empregados em atividades anteriormente realizados pelo trabalho humano.

Quando se soma tantos avanços tecnológicos com a crescente aproximação com a cultura ocidental sobretudo europeia e estadunidense os aspectos culturais tradicionais cultivados por qualquer povo sofre estremecimentos.

A cultura e o modo de pensar ocidental tem encontrado boa recepção e adeptos no Japão não apenas no mundo dos negócios, onde vem deixando os ambientes cada vez mais competitivos, mas principalmente entre os mais jovens que são ávidos consumidores de cultura ocidental.

Como vem acontecendo com todos os povos do mundo, sobretudo após o forte processo de globalização da economia, algumas tradições japonesas estão morrendo, outras tantas estão sendo reinventadas ou substituídas pela influência estrangeira. Todavia, ainda são muitos os japoneses que tentam manter vivos alguns dos principais elementos de sua cultura milenar e que atrai milhões de turistas todos os anos.

Enfim, O Japão é um país singular e muito interessante e não cabe inteiramente nessa postagem relativamente superficial. Ao longo de 2018, o #AnoDoJapão, conheceremos melhor esse país e seu povo através da leitura dos livros que farão parte do itinerário da III Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo. Venha conosco nessa viagem pela terra do sol nascente.

Arigatou e ittekimasu!


Abaixo você confere o vídeo Japan: Where tradition meets the future que faz um lindo panorama do país.







[1] Almanaque Abril 2006.
[2] https://pt.wikipedia.org/wiki/Jap%C3%A3o#Geografia
[3] Enciclopédia Conhecer.
[4]Idem.
[5] http://www.japaoemfoco.com/os-mais-belos-terracos-de-plantacoes-arroz-do-japao/
[6] Enciclopédia Conhecer.
[7] https://pt.wikipedia.org/wiki/Jap%C3%A3o#Economia
[8] http://www.japaoemfoco.com/alimentacao-e-dieta-japonesa/
[9] https://skdesu.com/como-sao-os-namoros-japoneses-relacionamento-no-japao/
[10] https://skdesu.com/titulos-honorificos-japoneses-san-chan/
[11] http://www.japaoemfoco.com/por-que-o-japao-e-um-exemplo-para-outros-paises/
[12] Idem.
[13] https://pt.wikipedia.org/wiki/Akihito
[14] Enciclopédia Conhecer
[15] Senhor de terras no Japão pré-moderno.
[16] Título e distinção militar usado antigamente no Japão durante o período dos xogunatos.
[17] A arte japonesa de arranjos florais, também conhecida como kado (華道 ou 花道)
[18] Bolinho feito de arroz glutinoso moído em pasta e depois moldado.
[19] http://www.funag.gov.br/ipri/index.php/indicadores/47-estatisticas/94-as-15-maiores-economias-do-mundo-em-pib-e-pib-ppp
[20] http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/geografia/japao-1.htm
[21]https://www.terra.com.br/noticias/mundo/noruega-lidera-idh-japao-tem-maior-expectativa-de-vida,15f63d52cb567410VgnVCM4000009bcceb0aRCRD.html


quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Para Sempre Alice – Lisa Gênova – Resenha


Por Eric Silva

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Uma doença devastadora contada de forma magistral, esse é o Para Sempre Alice, livro escrito por Lisa Genova e que se tornou filme em 2015. Neste livro a escritora estadunidense escreve um retrato fiel e comovente do mal de Alzheimer descrevendo através da história da fictícia pesquisadora Alice Howland, os meandros de uma doença que apesar de relativamente comum é ainda muito desconhecida do público geral.

Confira a nossa resenha do livro.

Sinopse

Na tocante narrativa de Para Sempre Alice, Lisa Genova narra a história de Alice Howland, professora e pesquisadora brilhante e bem-sucedida da universidade de Havard. Dona de uma memória prodigiosa, Alice jamais imaginaria que quando alcançasse os cinquenta anos começaria a esquecer. No início, coisas banais, pequenas tarefas até não conseguir lembrar o caminho de volta para casa.

Angustiada a professora procura ajuda médica e é surpreendida com um diagnóstico de mal de Alzheimer de instalação precoce, uma doença degenerativa incurável. Pouco a pouco sua vida vai mudando e ela vai perdendo a capacidade de manter suas atividades cotidianas e é obrigada, junto com sua família, a aprender a conviver com a doença e seus dilemas.

Resenha

Segundo a Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAZ), o mal de alzheimer é uma enfermidade incurável, de caráter degenerativa e com evolução progressiva, e que por muito tempo foi confundida com “esclerose” ou “caduquice”.

Com maior ocorrência entre a população idosa, o alzheimer a provoca a perda de funções cognitivas como a memória, a capacidade de orientação, atenção e da linguagem, em decorrência da morte das células do cérebro (idem). Uma doença devastadora que pouco a pouco vai tirando a autônoma do paciente incapaz de reter, em sua memória recente, informações sobre fatos que ocorreram a pouco.

Enredo

Com um conhecimento profundo sobre a evolução e instalação da doença além de uma sensibilidade ímpar para narrar dramas familiares e pessoais, a autora estadunidense Lisa Genova conta em Para Sempre Alice os desafios enfrentados por Alice Howland, uma proeminente professora de psicologia da Universidade de Harvard, e por sua família, quando Alice é diagnosticada como portadora de mal de Alzheimer tendo apenas 50 anos de idade.

Dedicada cientista e professora universitária, assim como seu esposo John, Alice era realizada profissionalmente e muito respeitada em seu meio de atuação, uma referência dentro de seu campo de trabalho. Em Harvard, era reconhecida e admirada por alunos e colegas de trabalho pela sua competência e dedicação à docência bem como pelos estudos que conduzia na área de psicologia e linguística.

Por seu próprio exemplo e do marido, ela sempre desejou que seus três filhos, Anna, Tom e Lydia, seguissem caminhos parecidos e enveredassem por carreiras profissionais seguras e de sucesso. Conseguiu com os dois mais velhos, contudo seu desejo não se concretizou com a caçula que preferira o teatro a ingressar em uma boa faculdade como desejava sua mãe. Por conta disso, Alice e Lydia estavam sempre em atritos.

Entretanto, a vida de Alice conhece uma grande reviravolta quando pequenos lapsos de memória alcançam o ápice de deixá-la completamente perdida durante uma corrida matinal. Completamente incapaz de reconhecer os pontos de referência do lugar onde estava, Alice esquece momentaneamente qual era o caminho para a sua casa. Apreensiva com os problemas causados pelas falhas de memória crescentes, a professora decide procurar ajuda médica e é diagnosticada como portadora de mal de Alzheimer de instalação precoce.

Minha opinião

A autora. Lisa Genova é estadunidense e além de escritora é neurocientista.
Para Sempre Alice é seu livro de estréia, autopublicado
e posteriormente adquirido pela Simon & Schuster. 
Para Sempre Alice é um livro muito bem escrito que você lê rapidamente. Com sensibilidade e extrema habilidade, a autora tece toda a sua narrativa descrevendo minuciosamente as fases e o percurso de evolução da doença de Alice, evolução que se dá de forma natural e gradativa, bastante realista.

Vemos como gradualmente Alice vai perdendo suas funções, sua capacidade de reter informações novas até alcançar um ponto em que já não mais reconhece os membros de sua própria família. Como uma tecelã que vai tramando cada fio com cuidado e perícia, Lisa Genova constrói um retrato detalhado do cenário de quem só espera o momento em que a doença prevalecerá e tudo a sua volta já não terá significado.

Alice é inicialmente caracterizada como uma mulher forte e muito decidida, acostumada a uma rotina de trabalho estressante, mas que se encontrava em seu total controle. Contudo, com o progresso da doença sua rotina e prioridades vão sendo sensivelmente alteradas e a autora consegue dar ao seu personagem o estado de espírito de alguém que aos poucos vai se perdendo, afundando na angustia de ver que algo está errado consigo e deparando-se com a impotência de poder parar o processo.

Quando gradativamente Alice vai se dando conta de que está esquecendo coisas corriqueiras, banais e até importantes de sua vida, o estado em que vai se pondo é o daquele que tenta se agarrar às lembranças e resgatar o que havia esquecido, ao mesmo tempo em que luta para aproveitar os últimos momentos de lucidez que lhe resta. Para demarcar esse avanço da doença, Lisa acrescenta a trama um hábito adquirido por Alice de todas as manhãs responder algumas perguntas, cujas respostas a cada dia se tornavam mais incompletas e imprecisas demonstrando o grau de demência alcançado pela personagem.

No final, todo o processo de progresso da doença de Alice é descrito com maestria por Lisa, que ainda esboça um grande talento para unir e intercalar a descrição do fato e a exposição dos pensamentos dos personagens, sem, no entanto, fazer desse recurso o estilo único ou principal de sua narrativa. Por vezes a narrativa se mistura aos pensamentos de Alice e a conclusão é como se pudéssemos literalmente vivenciar o que sente, o que pensa, o que deseja e, principalmente, o que sofre uma pessoa diagnosticada com Alzheimer, sobretudo quando ainda se é tão jovem como a protagonista.

Por fim, a autora ainda se preocupa em descrever outra importante dimensão da doença: a família. Vemos como os cuidados com uma Alice cada vez mais dependente vai afetando os filhos e o marido, as dificuldades de John em aceitar que sua esposa era portadora da doença e também a forma como a família passa a decidir a vida de Alice por ela.

Por todas essas coisas esse livro é um quadro completo para o entendimento do mal de Alzheimer. Por ser tão informativo é uma leitura muito indicada para os portadores da doença e também para seus cuidadores por tratar de várias dimensões da doença: as causas, os sintomas, os dilemas de cuidar de um doente que nem mesmo reconhece seus familiares e se perde facilmente, os tratamentos, mas principalmente a dimensão humana e afetiva do doente e de seus familiares.

Em 2015, o livro foi adaptado para o cinema com Julianne Moore no papel de Alice, o que lhe rendeu o Oscar de melhor atriz.

A edição lida é da Editora Nova Fronteira, do ano de 2009 e possui 283 páginas. Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books.

Prévia do Google Books

domingo, 31 de dezembro de 2017

Medieval: contos de uma era fantástica – Ana Lúcia Merege e Eduardo Kasse (org.) – Resenha


Por Eric Silva

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Da Escandinávia ao Japão, Medieval é uma obra que reúne nove autores brasileiros para contar histórias sobre uma época que fascina muitos leitores: a Idade Média. Juntando História e fantasia a coletânea organizada pelos autores Ana Lúcia Merege e Eduardo Kasse narra o lado fantástico de um período marcado por lutas sangrentas, disputas pelo poder e pela hegemonia do pensamento cristão, mas que ainda assim não foi o suficiente para apagar totalmente as crenças e mitos pagãos. Gênios, bruxos e entidades antigas povoam os contos dessa coleção que recentemente foi vencedora do Prêmio Argos de melhor coletânea.

Confira a resenha do último livro da Campanha Anual de Literatura do Conhecer Tudo que neste ano homenageou a literatura do Brasil.


Sinopse

Cruzados, vikings, chineses, japoneses, mouros, gênios, bruxos e reis, todos eles cabem nessa coletânea de contos que faz um retorno à Idade Média para contar histórias que vão da Escandinávia ao longínquo Oriente de imperadores e samurais, tendo a magia como elemento condutor de cada narrativa. Organizado pelos especialistas em Idade Média e ficção histórica Ana Lúcia Merege e Eduardo Kasse, o livro conta com a participação de nove contos de vários autores brasileiros além de seus organizadores e foi ganhador do Prêmio Argos de 2017.


Resenha

Para além da Idade Média europeia

Ilustração do manuscrito francês medieval das três classes
da sociedade medieval: aqueles que oravam (o clero) 
aqueles que lutavam (os cavaleiros) e os que trabalhavam
 (o campesinato). 
(Li Livres dou Sante, século 13).
Imagem: Wikimedia Commons
Costumamos erroneamente associar a Idade Média (de 476 d.C. a 1453 d.C.) apenas aos feudos, castelos e batalhas ocorridas em solo europeu, porque assim nos ensinam quase todos os livros de História. Contudo, esse período da história da humanidade guarda em si uma diversidade que varia enormemente tanto no tempo como no espaço, sendo tão diverso quantos são os povos que coexistiram nesse mesmo momento histórico. E mesmo na Europa distinções culturais são perceptíveis quando nos aprofundamos no estudo histórico e cultural da miscelânea que compunha o povo europeu.

Muitos não sabem ou esquecem que a Idade Média não está restrita ao continente europeu, mas foi vivida também por todos os povos no mundo. Claro que essa vivência não se deu com as mesmas características, nem sob um mesmo sistema econômico e social. Enquanto na Europa da época o sistema social foi chamado de feudalismo, no oriente, tínhamos os grandes impérios como é o caso da China e do Japão, neste último substituído pela ditadura militar dos xogunatos ainda no século X.

O problema está todo na visão eurocêntrica da Historiografia ocidental que quando foi transposta para a escola nos fez pensar que a Idade Média aconteceu como um fenômeno europeu, que se confunde ao feudalismo – esse sim original daquelas bandas – e não como um período do tempo histórico da humanidade que nada mais representa do que uma datação. Cada povo que foram contemporâneos dos europeus medievos possuíam suas particularidades, diferentes graus de avanço tecnológico, diversos sistemas socioeconômicos e culturais, mas viveram na mesma época.

Medieval foi a primeira obra que eu li que toma a Idade Média como período da história da humanidade e não apenas das civilizações europeias e busca revelar a multiplicidade cultural e étnica da época, extrapolando os limites da Europa Medieval e indo ao Oriente. Desse modo, povoa suas histórias com vikings, mouros, mongóis, chineses, japoneses, imperadores, reis, camponeses, magos, cruzados e cavaleiros, cobrindo mais de mil anos de história. Senti falta apenas dos reinos africanos (Império de Gana, de Aksum, do Mali)[1] e dos povos pré-colombianos da América (Astecas e Maias)[2], surgidos na antiguidade e existentes ainda na época, logo, contemporâneos de europeus e asiáticos, ainda que o contato entre eles variasse de muito pouco a nulo, no caso dos americanos, nulo. Obviamente que sei que essa não era a proposta do livro, mas Medieval me fez ficar com vontade de ler contos também sobre esses povos.

Mas ir para além da Europa medieval não foi a única surpresa desse livro. Logo no primeiro conto percebi que Medieval divergia enormemente do que eu imaginava a princípio. Pensei inicialmente que os contos dessa coletânea tratavam da Idade Média histórica pura e simplesmente, contando enredos que se assemelhariam a livros como A Catedral do Mar de Ildefonso Falcones, que trata da servidão camponesa, o poder da nobreza, e das perseguições religiosas, ou Os Pilares da Terra, de Ken Follett, que aborda também a questão religiosa somada às disputas pelo poder.

Qual foi então a minha surpresa ao perceber elementos mágicos e sobrenaturais nas narrativas. Foi então que lendo o prefácio que compreendi que era esse o grande diferencial da obra e que o termo “fantástica” do subtítulo não se tratava apenas de um adjetivo para exaltar a era medieval. Isso não significa, porém, que os autores sacrificaram a História oficial para contar as suas narrativas, pelo contrário, todos os contos são povoados de muitos elementos da história real de cada povo que é retratado e o elemento mágico vem, por assim dizer, complementar e enriquecer cada conto ao lançar uma aura diferente sobre eles.

Compreendi também que o objetivo dos organizadores era mostrar que mesmo num período no qual a “visão cristã de mundo” era hegemônica, o fantástico e o maravilhoso sobre-existiam e sobreviviam no cotidiano e nas crendices, alimentando histórias fantásticas como as relatadas neste livro.

A ideia de juntar o fantástico com a Idade Média me fez lembrar das lendas de Arthur e do mago Merlim e também dos contos de fadas europeus, que são quase todos ambientados na era medieval e possuem um componente mágico muito forte. Porém, Medieval se distancia enormemente desses últimos pois não é uma obra ingênua. A maioria de seus contos busca o mágico atrelado ao realismo e não o mágico pelo mágico. Além disso, a ferocidade das relações humanas não é suavizada ou omitida e nem há uma tentativa de retomar o romantismo das histórias de cavalaria, que é próprio dos Contos da Távola Redonda e distante da realidade cruel da época a que faz referência.

Os contos em sua maioria não são arrebatadores ou magnéticos, algo que, na mainha opinião, é raro no gênero, sendo mais comuns os desfechos surpreendentes e acho que por isso mesmo que Antonio Skármeta dizia que "[...] o que opera no conto desde o começo é a noção de fim. Tudo chama, tudo convoca a um "final".

Contudo, os contos de Medieval são cheios de peculiaridades que os tornam únicos e especiais. Alguns são carregados de referências, mas todos buscam ser originais. Há aqueles que deixam seus desfechos em aberto deixando-nos em suspenso, outros que são imprevisíveis em seu enredo e nos pegam desprevenidos, mas todos são de uma qualidade narrativa que se sobressai. Muito bem escritos são frutos de pesquisas aprofundadas e cuidadosas sobre a época e os povos ali descritos, nos fazendo mergulhar na História, nos costumes e nos cenários de cada lugar.
Para não me estender resenharei apenas alguns, escolhidos arbitrariamente, e sobre os demais falarei só o que for de mais significativo.

Da Escandinávia ao Japão: os contos que compõem a obra

As Cruzadas são o principal tema do conto Erva Daninha,
de Melissa de Sá. Na imagem, Victoria hussita
 sobre os cruzados na batalha
de Domažlice em 1431 (c. 1500, Jena Codex)
Composta por nove contos, a coletânea é iniciada com o texto Erva daninha de Melissa de Sá e que tem como cenário a Veneza dos tempos das cruzadas.

Nesse conto conhecemos Pierre, um cruzado francês atormentado pelo passado e que buscava na Santa Missão (a luta contra os muçulmanos que ocupavam Jerusalém) a remissão dos seus pecados. Porém, chegando a Veneza, onde as tropas cruzadistas ficaram apostos a espera que os navios que os levariam a Terra Santa, Pierre conhece Agnes, uma linda e misteriosa jovem que mudaria para sempre a história do rapaz.

Esse é um conto que traz um dos elementos mais comuns às histórias fantásticas que é o tema da imortalidade e do furor daqueles que ambicionam conquistá-la. Contudo, a narrativa se sobressai pela grande sensibilidade da autora para trabalhar com histórias que envolvem o relato e a memória, o que se evidencia nos detalhes que o personagem rememora. O crucifixo que a mãe trazia por baixo da manga do vestido quando ia trabalhar nos campos; a primeira lembrança de Agnes, na feira, escolhendo uma fazenda e apalpando o tecido, roçando-o contra o rosto. A até mesmo do ar frio e dos modos duros dos venezianos ele se recorda.

Mural de guerra de cerco, Genghis Khan.
o Grande líder mongol foi responsável por um cerco a capital
chinesa que durou um ano.
Imagem: Wikimedia Commons.
Em O desejo de Pungie, texto de A. Z. Cordenonsi, temos uma completa mudança de cenário e somos guiados a Zhongdu, atualmente Beijing, em pelo cerco empreendido pelo chefe mongol Gengis Khan[3] e que já matava de fome a população da cidade. Nesse conto, conhecemos o dilema de Pungie, um descendente dos povos mongóis, mas que fora criado como chinês e conseguiu uma posição de funcionário público no liquidado Estado chinês. Odiado pelos moradores da cidade, sobretudo os mais pobres, Pungie ainda enfrentava a fome e privação com a sua família, assim como quase todos na cidade sitiada. Além disso temia pela segurança dos filhos diante da invasão iminente e que dizimaria a enfraquecida população de Zhongdu. E é por desespero que ele recorre a um velho e odiado membro de sua família, mas que era entendido dos mistérios da feitiçaria.

O texto de Cordenonsi, primeiro que leio do autor, é muito bem escrito e uma verdadeira aula de história chinesa e mongol. Ele é o primeiro conto da coleção a pintar a idade média com os matizes de outros povos ao mesmo tempo que busca inspiração em uma parte da História Mundial que ainda não tinha visto em nenhuma obra brasileira.

O conto é surpreendente e imprevisível, a única coisa que nos é dada pela descrição breve da história de Beijing, é a certeza de que a cidade cairá, tudo o mais, o destino de Pungie, de sua família e das artes mágicas que são evocadas por sua parente, pega-nos desprevenidos em um desfecho inesperado.
Na sequência, o quarto conto é Sacrifício, texto de Eduardo Kasse, autor dos livros da série Tempos de Sangue, do qual fazem parte os livros O Andarilho das Sombras e Deuses Esquecidos ambos resenhados aqui no blog.

Em Sacrifício, Kasse conta uma história dos vikings escandinavos com todas as características típicas dessa forma de narrativa: batalhas ferozes, pilhagens, grandes langskibs[4] e rituais mágicos.

Draugen, entidade mitologia nórdica presente em Sacrifício,
conto de Eduardo Kasse. 
Nesse conto acompanhamos quatro irmãos (Arvid, Einarr, Ragnvald e Ulrik) que se preparam para viajar a Inglaterra para uma nova pilhagem, esperançosos de encontrar fartura de ouro para saquearem como em suas últimas excursões às ilhas britânicas. Contudo, um deles acaba vivenciando um encontro com uma entidade mágica, um draugen (morto-vivo na mitologia nórdica), que lhe faz revelações tenebrosas quanto ao futuro da viagem. Por todo o conto acompanhamos da peleja empreendida pelos irmãos contra ladrões de gado até as preparações para a viagem e a chegada ao destino dos guerreiros, numa narrativa carregada tanto de misticidade como da potência guerreira pelo qual os vikings entraram para a história mundial.

Sacrifício é um conto que me fez lembrar de imediato de O Último Reino de Bernard Cornwell, livro que tem a mesma pegada e temática, com exceção de toda a parte mítica. Todavia, foi um outro aspecto da narrativa que muito me chamou a atenção para esse que é o conto mais inquietante de toda a coletânea: a passagem que lhe dá nome.

[PARÁGRAFO COM SPOILER] Antes de se aventurarem pelos mares em busca de cidades e povoados para pilharem, os vikings realizavam rituais mágicos de proteção e que lhe dessem sorte em suas campanhas. É em um desses rituais que os personagens do conto realizam sacrifícios humanos de prisioneiros de guerra, mas junto a eles é também sacrificada uma de suas filhas pequenas, a delicada e inocente Inga.

Eduardo cria ali uma cena de uma beleza única, forte e aterrorizante, no qual a pureza e inocência contrasta e se mistura a tetricidade[5] de alguns ritos pagãos. Uma cena que aflige, deixa o coração apertado perante a iminência de um ato lúgubre. Estas são as palavras que melhor definem a cena que dá nome ao conto: belo e macabro.

O último conto que apresentarei o enredo será O grande livro do fogo de Ana Lúcia Merege, texto vencedor do prêmio Argo de 2017. Ana Lúcia é autora da série Athelgard, cujo primeiro livro, O Castelo das Águias, e outra obra complementar, Anna e a Trilha Secreta, já foram resenhados aqui no blog.

Ana Lúcia Merege capta toda a singularidade dos contos das
Mile e uma Noites e transfere para seu conto O grande livro do fogo.
Na imagem: Cassim na caverna por Maxfield Parrish, 1909,
da história Ali Baba e os Quarenta Ladrões.
Imagem: Wikimedia Commons.
Em O grande livro do fogo, com seu talento ímpar para contar histórias, Merege faz renascer todas as características peculiares dos contos das Mil e Uma Noites para contar uma história da época do califa Al-Hakkam, quando, em Córdoba, na península Ibérica, vivia o empobrecido tapeceiro Mustafá e sua filha Khadija. Motivados pela ambição de Khadija, os dois se lançam na empresa de tentarem roubar uma misteriosa garrafa na qual se acreditava estar encerrado um poderoso jinn[6], mas que se encontrava em posse de um sábio e rico comerciante, Walid Abu-Bakr. Na tentativa de furtarem a garrafa com o objetivo de fazer o gênio realizar seus desejos, pai e filha, juntamente, com o próprio Walid, acabam por se envolverem em uma aventura fantástica e perigosa que desafia a vida dos três, mas que podia ser a chave para alcançar todos os seus sonhos.

As Mil e Uma Noites é uma obra de grande importância para mim porque é uma daquelas que foram responsáveis por me fazer leitor. Está lá na lista dos livros da minha infância e adolescência e ainda será resenhado aqui no blog. Desta que é a maior coleção de contos da qual já ouvi falar, Merege resgata as aventuras cheias de animais fabulosos, criaturas mágicas, incursões pelo deserto, jinns, tesouros e desafios que põem a prova a moral e os valores de seus personagens, bem como sua coragem de enfrentar as barreiras impostas pela sorte. Uma história que muito bem podia pertencer à fabulosa coleção de contos árabes, porque sua autora conseguiu captar toda a essência mágica dessas histórias seculares e dela criou sua própria narrativa.

Há ainda outros contos que não abordarei em detalhes para não me alongar. São eles: A flor vermelha, de Karen Alvares, Kitsune, de Erick Santos Cardoso, A dama negra e a donzela de palha de Nikelen Witter, A clareira mágica, de Roberto de Sousa Causo e Lenora dos Leões, de autoria da escritora Helena Gomes e que encerra a coleção.

O conto de Karen é o meu preferido na coletânea por ser povoado de muitos simbolismos, mas principalmente pela sua protagonista vibrante que no momento em que toma as rédeas de sua própria vida e destino vive uma aventura digna de relembrar Joana D’Arc.

Por sua vez, nos contos de Roberto e Helena me surpreenderam pelo inesperado e explícito erotismo que encerram em suas narrativas. Eu até esperava encontrar esse erotismo no texto de Kasse, especialmente, após a experiência de dois livros já lidos do autor, mas fui pego de surpresa ao encontrá-lo também nos dois contos supracitados. Porém é digno de nota que nas três narrativas o sexo cumpre funções muito próprias. Em Lenora dos Leões as cenas explícitas de sexo é, na verdade, uma denúncia a cultura do estupro, muito comum não só em campos de batalha como em todo o período medieval. Enquanto que, sob outra perspectiva, em Sacrifício e A clareira mágica, essas cenas estariam ligadas aos ritos pagãos e buscam, por sua vez, descortinar esse aspecto não muito conhecido dos rituais mágico-religiosos de vários povos antigos que tinham no sexo uma forma de rito.

Representação artística de um guerreiro samurai prestes a
realizar o seppuku. Xilogravura Ukiyo-e do período Edo
(1850-1860). O mesmo ritual é um dos temas do 
conto Kitsune de Erick Santos Cardoso.
Imagem: Wikimedia Commons.
Kitsune foi outro conto que muito me chamou a atenção. Sou muito sensível ao que leio e minha mente está sempre tentando expandir a narrativa a sua maneira. Kitsune foi um conto que brincou com essa minha sensibilidade porque produziu em mim uma imagem mental da narrativa extremamente singular.

Esse conto tem uma estética que beira o cinematográfico e me fez imaginar as cenas como se estivesse em um daqueles anime japonês com uma história do período Edo. As cores vivas, as lâminas afiadas e os ukiyo-ê[7] típicos do Edo vieram à tona em minha mente ao imaginar os bambus tremulando ao vento, a cor viva da pelagem da raposa, o sangue rubro a escorrer pela lâmina da katana enquanto impregnava a roupa do samurai com sua cor e calor. Um show de sensações que, no entanto, (tenho certeza) não será igual para todos que lerem, porque a minha otakice ajudou bastante na associação, ainda que isso não tire o mérito da narração.

Por fim, A dama negra e a donzela de palha é também um conto interessante que fala um pouquinho da infância camponesa, assim como dos mistérios das artes mágicas. Porém o seu desfecho em aberto me frustrou bastante, sobretudo porque se dá no principal clímax da história.

Conclusão

Medieval é um trabalho muito interessante de dois escritores que admiro muito e como sempre eles fizeram um bom trabalho com uma proposta que acho agradará muitos leitores, tanto aqueles que gostam de contos cheios de magia, como aqueles que gostam de histórias do período contemplado pelo livro. Além disso eles reuniram um time de escritores talentosos e que escrevem muito bem. Não é à toa que o livro foi logo premiado em duas categorias: melhor coletânea e melhor conto.

O que senti falta na coletânea foi um glossário ou um conjunto de notas maior e que desse conta dos vários termos e expressões estrangeiras desconhecidas. Em vários contos estas expressões aparecem. São termos em japonês, chinês, dinamarquês (acho), árabe, alguns explicados dentro do próprio contexto, mas outros carentes de notas ou dos organizadores ou dos próprios autores.

Para quem tem um conhecimento vasto nas temáticas tratadas isso não foi problema. Também para quem leu pelo Kindle, como foi meu caso, o motor de pesquisa do Wikipédia presente no aplicativo foi essencial, mas isso, por outro lado requer acesso à internet. Para os leitores da versão impressa, por vezes terá que fazer uma pesquisa ou outra para conhecer mais de perto esses termos. Cito só alguns deles com os significados em nossas notas no final da postagem: zoco[8], wushamao[9], langskib[10], seppuku[11], tian-dao[12], dentre outros.

Mas, em conclusão, com seus pontos positivos e negativos, não importa, Medieval é uma obra brasileira sem precedentes no formato em que se apresenta e realmente digno do prêmio que recebeu. A edição é linda, uma das capas mais inspiradas do catálogo da Draco. Os contos são diversificados e não repetem temáticas, além de serem muito bem escritos. Muitos deles originalíssimos e todos carregam as marcas pessoais de seus autores.

Cortesia do programa Kindle para Samsung, a edição lida é digital, publicado pela Editora Draco e do ano de 2016. A versão impressa possui 232 páginas. Abaixo você pode conferir uma prévia do livro disponível no Google Books.


Prévia do Google Books




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[1]https://seuhistory.com/microsite/raizes/news/oito-grandes-imperios-africanos-que-voce-provavelmente-nao-conhece
[2]http://www.ufscar.br/cursinhoufscar/civili_precolombiana.htm
[3] “Título de um conquistador e também, atualmente, o nome do imperador mongol, nascido com o nome de Temudjin nas proximidades do rio Onon, perto do lago Baikal. [...] Estrategista brilhante, com hábeis arqueiros montados à sua disposição, venceu a grande muralha da China, conquistou aquele país e estendeu o seu império em direção ao oeste e ao sul” (Wikipédia).
[4] Nome pelo qual são conhecidos os navios clássicos dos vikings. (Wikipédia)
[5] Caráter ou qualidade de tétrico (que causa horror; horrível, medonho). (Houaiss, 2001)
[6]O mesmo que gênio. Espírito que, segundo os antigos, regia o destino de um indivíduo, de um lugar etc., ou que se supunha dominar um elemento da natureza, ou inspirar as artes, as paixões, os vícios etc. (Houaiss, 2001)
[7]Gênero de xilogravura e pintura que prosperou no Japão entre os séculos XVII e XIX. (Wikipédia)
[8]Mercados tradicionais em países árabes especialmente aqueles que são realizados ao ar livre. (Wikipédia Espanhola)
[9]Chapéu usado pelos funcionários chineses da etnia Han durante a dinastia Ming. Consistia-se em um chapéu preto com duas abas parecidas com asas de placas finas, de forma oval, em cada lado. (Wikipédia Inglesa)
[10]Vide nota 4.
[11]Ritual suicida japonês reservado à classe guerreira, principalmente samurai, em que ocorre o suicídio por esventramento (consiste em realizar um corte, “kiru”, horizontal na zona do abdômen, abaixo do umbigo, “hara”, efetuado com um tantō, wakizashi ou um simples punhal, partindo do lado esquerdo e cortando-o até ao lado direito, deixando assim as vísceras expostas como forma de mostrar pureza de carácter). (Wikipédia).
[12]Grupo de religiões de origem chinesa que seguem sua linhagem de volta ao movimento Lótus Branco da China imperial, adaptado ao quadro da religião popular chinesa. Conhecido também como xiantiandao. (Wikipédia).

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